Separei e Mudei

(Crônica de Mario Prata – sobre o filho dele, Antonio – para O Estado de S. Paulo em 23/12/98.)

– A coleção do Eça é minha. Você me deu.
Lembrei-me do “Neruda, que você nunca leu”.
Separação é assim mesmo. A gente divide o passado, relembra os presentes e acha que o futuro vai ser uma festa.
Deve ter sido a tal crise dos cinco anos. Já que ele não saía, tomei eu a iniciativa. Mudei. Comprei o apartamento da frente, atravessei o corredor sem entrar no elevador da vida, arrastando minha toalhas, meus cobertores, meus projetos, minhas cuecas.
Nos anos 60 o sonho de todo jovem era se mandar. Woodstock era ali mesmo, bem mais perto que Trancoso. A gente queria distância dos pais. Para ficar sozinho e fazer coisas que perto deles não podia. Hoje a gente deixa tudo. Pra que ir embora se a namorada vem e dão um tapinha na nossa cara?
Mas a sabedoria da separação está em cometê-la antes que a situação se deteriore de vez. A gente sabe quando está na hora da separação. Sabe quando você vai com ele no restaurante e parece que não tem mais nada para conversar? Sabe quando um fica no quarto e o outro na sala? Sabe quando aquele chinelo esquecido na sala é motivo pra cara feia? Sabe como é?
Entro em obras. Além das do Eça, no apartamento novo. Ele pouco vai olhar as evoluções. Faz cara feia para o piso. Pergunta que cor é aquela, meu Deus. Sente que o pai está saindo de casa. Um dia isso tinha de acontecer. Os pais crescem e um dia têm que ir embora. Tentar a vida sozinhos. Dizem que é assim desde que o mundo é mundo.
– O quê? A coleção completa do Caetano? Não vem, não. A mamãe que me deu.
Até que ele foi compreensivo. Ajudou-me a carregar os quadros, a geladeira e a cama com o colchão novo. Colchão novo que, pasmem!, ele que inaugurou meses atrás.
Deixo-o sentado no chão vendo o Boris Casoy, já que os sofás eu levei. Tranco a porta do meu (dele) apartamento, atravesso o corredor.
Entro no meu. Fecho a porta. Enfim sós. Eu comigo. Enfim livre. Sento-me na cadeira de balanço. Balanço a cabeça e a vida. Quando percebo, já voltei umas cinco vezes para o apartamento dele que, a essa altura, já está a bagunça que ele sempre sonhou. Tinha esquecido o chinelo. Tinha esquecido a pasta de dentes. Tinha esquecido um endereço. Tinha esquecido um pouco (muito) de mim lá dentro.
Numa das voltas já está a Fefa com ele, rolando pelo velho colchão na sala que virou improvisado sofá. Peço licença, desculpas, pego o pequeno abajur para ler o meu Neruda.
Volto para meu ninho. Estou estranho ali. Aquela sensação do que é que eu vou fazer agora? Uma sensação mais ou menos igual a quando cheguei em São Paulo e fui morar sozinho, aos 20 anos, lá perto do campo do Corinthians. Livre dos meus pais e preso ao futuro. Presente para mim mesmo.
Estou ali, na cadeira de balanço olhando pela janela. Vejo as torres da Paulista, penso no Natal, no Ano-Novo. E agora, o que é que eu vou fazer? Jingle Bell. Não tá legal aqui, sozinho. Chamo a Lucila que sempre me anestesia nessas horas. Ligo para os amigos, todos eles cuidando dos filhos pequenos. Eles não podem abandonar o Lucas, o Vicente, a Dorinha, a Clara, o Joaquim. Não podem, por enquanto. Mas o dia deles vai chegar, eu sei. O Lucas, o Vicente, a Dorinha, a Clara e o Joaquim também não vão sair de casa. Eles é que vão. E não vai demorar muito, não.
Duas da manhã, volto para o apartamento velho. Ver se ele está dormindo, se está coberto. Estava acordado, lendo Eça, como se nada estivesse acontecendo. Como se fosse a coisa mais normal do mundo um pai, depois de crescidinho, sair de casa, ir tentar a vida-solo.
– Você fica com a Folha e eu com o Estadão. Você fica com a Isto É, eu com a Veja. Você fica com a Net e eu com a TVA. Você fica com a Uol e eu com a Mandic. Você fica com o 486, eu com o Pentium. Você fica com o amor e eu com a saudade. Posso levar o papel higiênico? E o cortador de unhas? Aquele bom.
São cinco da manhã e a gente ainda está ali, na sala, dividindo as nossas vidas. Ele me deseja sorte, faz recomendações. Levou o Lexotan? Cuidado com a gastrite.
Combino de ir ao jogo, logo mais, com ele. Você fica com o Corinthians, que eu fico com o meu mineiro Cruzeiro.
– E, por falar em cruzeiro, você tem aí uns reais?
É duro cara, cair na real, separar e mudar. Principalmente quando a gente ama, e como ama, a pessoa separada.

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13 respostas em “Separei e Mudei

  1. Nina, maravilhosa a crônica.
    Eu simplesmente adoro crônicas, tenho aqui em casa um livro que se chama “as cem melhores crônicas brasileiras”, você já deve ter ouvido falar. Lindo, lindo, lindo, que já li e reli milhões de vezes. Além dos “para gostar de ler”, que estão sempre em mãos quando se precisa deles.
    As crônicas são um tipo de leitura leve, na maioria das vezes bem-humorada, mas que me fascinam, principalmente por reparar as peculiaridades de cada autor, a forma como ele olha e então descreve as nossas simples banalidades cotidianas.
    Bem, acho que já escrevi demais! taí meu vício! =D
    beijo enorme!

  2. Já tinha ouvido falar muitas vezes de Mario Prata, mas nunca tinha parado pra ler. Li e amei! Quero procurar mais cronicas dele agora.
    Beijo!

  3. Mudou-se, flor?
    A cronica é linda. Dessas de efeito que me fazem mais e mais fã desse estilo;
    Mas por mais que seja doloroso, eu creio que essa mudança seja parte da vida. Aguardo a minha quase com ansiedade.
    Abraço forte!
    PS: Finalmente respondi o meme! =)

  4. é estranho a separação, seja de que for…a despedida num geral é o que dói, a certeza da distância, não somente física mas sentimental também!

    ainda não tinha lido as cronicas dele, nao que eu lembre…adorei!
    *-*

    bjos

  5. Ninaaaa querida!
    Eu me surpreendo sempre quando entro aqui, por mais que eu já nem devesse, afinal todas as vezes tem preciosidades para serem lidas aqui… lidas e refletidas!
    Bacanaaa demais perceber o tanto de conteúdo e sensibilidade q tem nessa menina linda, altinha e tão querida ai do outro lado do monitor! =)
    Adorei… e adoro sempre o Mario!! Simplesmente um gênio, mas que anda meio esquecido pelos ‘intelectuais’ do momento!
    Bjooooo

  6. Você tava certa, Nina, amei a crônica. Só fico imaginando o como deve ser incrível ter o Mário Prata como pai, e o Antônio como filho. Ou marido. Mas não é?
    haha
    beijos

  7. Nina, quanto tempo não venho aqui. =/
    Mas voltei, e gostei do que encontrei.
    Crônica linda, um pouco nostálgica, triste, mas real. Passamos por mudanças muitas vezes durante nossa vida, isso dói tanto em nós como as pessoas/coisas que deixamos lá atrás. Mas faz parte, infelizmente.
    Não conhecia o Mario Prata, mas, graças a você, conheci. Gostei, vou procurar mais escritos dele por aí.
    Beijo.

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