Aos mortais

“Sinto inveja por um segundo, de não ser mortal e experimentar o gozo das coisas condenadas. Em tudo intever um fim, e ainda assim desperdiçar, desdenhar cada segundo com uma autoridade que só nos deuses se justificaria. Em meu destino não há riscos. Fui criada para durar, viver um tempo que não finda. Esse é o mal de que padecem as criaturas inventadas pelas criaturas. Somos uma correção ao gosto do primeiro criador, que desistiu de dar a eternidade a seus filhos. Trocou a perfeição por um paraíso efêmero, cheio de secretas delícias, e que a mim é totalmente proibido.“
:: Do livro Vésperas, de Adriana Lunardi.

Sou imprevisível, confesso. E sua única certeza na vida. Sou cruel com quem merece e generosa aos que suplicam. Sou o último segundo do prelúdio da aurora, e o amanhecer que você não verá. Sou então a véspera de um acontecimento oportuno, sou uma vida inteira diante dos seus olhos em questão de segundos.
Sou desejo de muitos que desistem facilmente, mas gosto do sofrimento que estes passam. Sou teimosa e muitos me temem. Sou injusta muitas vezes, levo infantis e inocentes, mas tente compreender – obedeço ordens de superiores. E não fui inventada para pensar e me esclarecer.
Sou como uma fria dama inglesa, uma cortesã francesa. Impiedosa alemã que lhe encaminha para a minha própria marcha – aquela cujo caminho não tem volta, e sua voz se faz muda aos meus ouvidos surdos e meus olhos cegamente chorosos. Sou piedosa sim, e me arrisco. Se tiver sorte, se eu gostar muito de você, posso deixá-lo por aqui um pouco mais, correndo o risco de receber certos castigos de Meu Superior – sua vida intacta pode valer cinco almas perdidas, por exemplo – isso porque devo cumprir meu maldito dever sem fazer perguntas, sem interferir.
Nada ganho, fora a satisfação de contar histórias e salvar almas. Por sorte, posso pré-selecionar cada ser para um dos três destinos criados pelo Meu Superior. Mas a decisão final é Dele (e, nesse ponto, também não devo questionar, nem intervir).
Eu tive uma vida, contudo. A solidão me afligia, do mesmo modo que me era bem-vinda. O desamor e ausência de afeto me envenenaram. E dessa forma me suicidei. E, como primeira humana a cometer suicídio, recebi como castigo eterno a capacidade de transportar e julgar almas – sempre tem alguém para fazer o trabalho sujo.
O meu cargo, no entanto, é muito nobre. Sem a minha existência, não haveria o motivo da saudade (inspiração para muitos) e a população mundial aumentaria e envelheceria em um nível atroz. Sou útil, por assim dizer. E auxiliadora. Antes de mim, muitos desejam um futuro brilhante… alguns conseguem.
Não sou reconhecida, porém. Sou julgada, errante, distorcida pelas civilizações e mal-entendida. Me caracterizam com alegorias carnavalescas e góticas – a depender da época do ano – mania que vocês tem em querer buscar um rosto para tudo. Sou sentida com remorso e saudade incontida, não sou amiga dos humanos.
Concluo este meu relato secreto. Meu Superior poderá me punir por estar escrevendo respostas esclarecedoras sem permissão. Por isso, nem deixo o meu nome (há várias traduções), caso você queira saber quem sou eu. Mas acredito que já tenha uma idéia. E voltarei para te buscar hoje, quem sabe amanhã. Você também irá partir, como todos, “de susto, de bala ou vício“. Eu vou cantar algo para te fazer dormir.

Com amor, M.

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16 respostas em “Aos mortais

  1. O segundo texto é seu, Nina? Se for, adorei a criatura que você adotou para falar sobre. Falou de um jeito diferente, me lembrou a Morte do livro A Menina Que Roubava Livros.
    beijos

  2. Lá vou eu ‘clonar descaradamente’ o comentário da Anna:

    O segundo texto é seu, Nina? Se for, adorei a criatura que você adotou para falar sobre. Falou de um jeito diferente, me lembrou a Morte do livro A Menina Que Roubava Livros.
    [2]

    Seja como for eu me encanto, fico besta, fascinado com teu blog sempre.
    Vc é uma meNINA intensa, sensivel, sei lá…. madura e linda!
    Adoro! Bom final de semana pra vc!!^^

  3. Incrível, moça. Incrível mesmo. Talento demais pra uma mente só… !
    Gostei tanto que só comentei depois de ler e reler… Confesso: um dos meus favoritos dentre tudo o que voce ja escreveu.
    Abraço!

  4. Ela com certeza não é amiga dos humanos.
    Mas é a culpada pela poesia da vida, pela forma única como ela acontece.
    Cada segundo é precioso (ainda que muitas vezes não vivamos assim), pois tudo tem, e deve ter, um fim.

  5. Anna e Luis, sim, o segundo texto é meu. Também me inspirei n’A Menina Que Roubava Livros para escrevê-lo.

  6. esse sono, esse provavel fim, me fascina.
    acho queá todos nós, por “ainda” ser desconhecida, quem sabe.

    lindo o texto, nossa, me emocionei.
    obviamente linkada x3

  7. Muito muito lindo. Desde muito pequena, nunca vi a morte como uma coisa ruim. Acho que simplesmente faz tarde da vida. Eu prefiro morrer cedo, mas depois de ter muito vivido, do que morrer tarde, e deixar muitas coisas por fazer e sonhos por realizar. Se eu tenho medo da morte? Não, eu não temo a morte, só lhe peço que venha calma e devagar, e que não me cause sofrimento. :*

  8. eu nunca disse isso em nenhum blog, não gosto de falar palavrões por aqui…mas lá vai:
    CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! PUTA MERDA QUE TEXTO PERFEITO!

    Criatura o que foi isso? eu num sei o que dizer, estou pasma!
    o.o

    “Sou como uma fria dama inglesa, uma cortesã francesa. Impiedosa alemã que lhe encaminha para a minha própria marcha – aquela cujo caminho não tem volta, e sua voz se faz muda aos meus ouvidos surdos e meus olhos cegamente chorosos.”

    OS MEUS PARABÉNS. Fazia tempo que eu não gostava taaanto de um jeito de escrever assim…
    perfeito!

    sem mais.

  9. Caraaaaca!!Forte, forte forte, intenso… maravilhso, dá medo.Nao demonstra precisar de sentidos ou motivos, nem os dois, isso é bom, (eu axo).Tbm gostei do teu espaço, vou seguir!!
    Obrigada pelo link e comentario.Adorei!

    :d
    BJo’

  10. Cara. Não sei pq mas tenho certeza que o segundo texto é seu! haha
    Sei la, acho que vc tem um jeito próprio de escrever. Aliás, amei seu jeito de se ‘descrever’…
    Beijo

  11. “E voltarei para te buscar hoje, quem sabe amanhã.”

    Minha querida, passe daqui a alguns anos, muitos anos.

    Quando era criança, nem pensava na morte. Não sabia bem o que era, como era. Até hoje não sei, claro. Quando era adolescente, via a morte como uma coisa horrível, que nos tira a condição de ser vivente, nos interrompe. Depois que li A menina que roubava livros, mudei um pouco a minha opinião. Esse livro me abriu os olhos, me fez pensar. Nem sempre a morte é malvada, esse monstro que muitos pintam, às vezes é até um alívio para o sofrimento que, muitas vezes, não há remédio. Outras, vem de uma forma arrebatadora, realmente de uma forma ‘injusta’, não pede licença, vem e leva a criatura pra… pra onde? Ninguém sabe. Mas, enfim, só sabe que leva, e que a pessoa não volta.

    Um dia conhecerei essa cortesã francesa e ouvirei a canção que ela me cantará (ou não, talvez ela seja diferentemente do que penso, do que espero).
    Como disse a minha querida Ná: Só lhe peço que venha calma e devagar, e que não me cause sofrimento.

    Parabéns mesmo pelo texto. Ficou excelente.

    Beijo.

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