Minha véspera

“Reconhece a dificuldade que enfrentara para encontrar cada palavra e dar ao texto o tom justo que o assunto merece. Tivera de fugir ao labirinto de vezes em que está encarcerada, fazer rascunhos e tentativas erráticas, e ser muito rápida quando conseguiu. Escrever fora o único jeito que ela havia encontrado para suportar a vida. É também a maneira de anunciar sua despedida.
(…)
Ela não pode avançar sem retroceder. A sensação é de estar presa na própria imobilidade.”
:: Do livro Vésperas, de Adriana Lunardi.

E ela então virá, puxando-me pelos cabelos ou pelos pés, de madrugada, enquanto durmo. Seria poético, nada irônico. Minha véspera poderá ser hoje mesmo, se minha amiga que veste preto quiser. Eu não a temo, ela é bem-vinda. Somos velhas conhecidas.
Talvez ela me dê o fim que mereço – o mais doloroso possível. Ou talvez seja generosa – deixe-me antes ver o fim de tarde daqui, o pôr-do-sol. Faça-me morrer idosa, então. Ou de suicídio. Deixa eu pagar para ver onde é o paraíso/inferno de quem joga a vida fora, no lixo, e não se dá ao privilégio de ser carregada em seus braços.
Deixa eu me consagrar, ao menos. Postumamente ou nessa vida. É o que todos querem, não é mesmo? Abra uma exceção por mim. Deixa eu ter um amor de verão, de primavera, das quatro estações, de bodas completas. Ou me deixe sem ele a vida toda, mas não me permita lamentar. Se for assim, então me deixa voltar. Se aprendo com os erros, pretendo não mais cometê-los.
Dê-me um brilho no olhar, de quem já viveu muito, de quem viu o progresso crescer e o antigo se deteriorar, de quem deixará resquícios e nada pendente. De quem disse “perdão” e “eu te amo”. De quem realmente perdoou e amou.
Dê-me cabelos brancos, rugas e linhas – dê-me a vivacidade de menina! Passos lentos, bengala ao lado. Óculos, fragilidade nos ossos. Deixe-me perceber que estou indo, aos poucos, caminhando na sua direção…
Deixe algumas lágrimas aos queridos e muitos sorrisos sem constrangimentos. Deixe os meus escritos para a geração próxima – deixe tudo isso em testamento.
Deixe meu amor na varanda, deitado na rede, lendo meus esboços – os que eu guardei só para ele. Deixe meus filhos cuidarem de seus filhos e meus netos vivendo a infância. Deixa minha herança maior e literária para uma neta minha, porque minha avó desejou o mesmo e assim aconteceu.
E leve-me ao túmulo, sem mais demora.

Anúncios

7 respostas em “Minha véspera

  1. Tão bonito, e tão… Tão profundamente humano!
    Lindo, Nina. Me deixou um aperto no peito aqui.
    Abraço meu.
    Outro que entrou pros meus favoritos =*

  2. deve entrar!
    claro que abraços são muito bem vindos em qualquer parte da vida.
    *_*

    a cih tá no nuvemcoloridah.blogspot.com
    a jeh tá no coloridah.net
    :)
    *PS: DESCULPA A DEMORA, ando meio lerda ultimanete… ritmo de férias…

  3. Mania diferente de encarar a morte, acho que não tenho essa serenidade toda.
    Gostei muito, sobretudo do final, falando de sua avó. Lembrei da minha, a quem devo todo o meu amor por livros.
    Beijos

  4. Não é qualquer um que consegue filosofar assim “com” a morte, Nina!
    Mas, você, consegue!
    Bjoooooooo!!!!!!!!!

  5. Você não parece ter medo dela. Não acho que a morte seja o fim, é só mais uma mudança.

  6. Que bonito o seu texto. Tão fluído, parece um rio de águas calmas e escuras que guarda nas profundezas uma grande inquietude. [2]

    Achei lindo teu texto, sincero, profundo.

    Beijo.

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s