Bliss?

Fui parar em um trem no século XIX (enquanto lia Budapeste, do Chico Buarque), não me pergunte como e nem porquê. Ao meu lado há um rapaz sem chapéu e uma menina com cabelos cor de fogo. Seriam Henry e Edna? Mais à frente, um senhor, com cerca de noventa anos, lê jornal e come morangos.
Não demora muito e eu percebo que sou uma personagem de Katherine Mansfield em um de seus contos. Talvez eu seja uma pequena governanta francesa que fala pouco o alemão. Devidamente instruída a me encaminhar para o hotel no centro da cidade e esperar a Fraulein. Mas talvez aquele velho seja gentil demais comigo e me ofereça morangos. Me perguntará se falo bem o alemão e, com a minha negativa, me oferecerá assim mesmo o jornal, para que eu aprecie ao menos as gravuras. Ele mal sabe que, nos dias atuais, o jornal impresso anuncia seu velório. Mas gosto de ver o comportamento da sociedade alemã pouco antes da Primeira Grande Guerra.
Se esse senhor for muito agradável, terei que aceitar seu convite para conhecer um pouco de Munique. E se ele me convidar para o seu apartamento, serei forçada a beijá-lo, como no conto. Isso eu não quero! Quero mesmo é aquele jovem… Henry, não é verdade? Ele desenha e lê muitos livros. Não demoro a perceber que Edna se foi, e agora – eu tenho cabelos cor de fogo. Eu observo o jovem Henry, timidamente, e coro, e empalideço. Ele parece notar. E espero que me diga alguma coisa, que me pergunte quando outra vez nos veremos ou que me prometa uma casa pequena em uma aldeia distante, com macieiras no campo e boa vista da varanda… Mas nada acontece.
Então, uma felicidade contida e nunca antes revelada me eleva. Sinto-me bem. Mas dura pouco. Olhei pela janela e pisquei três vezes. Voltei ao ônibus da conturbada grande cidade. Vazio de gente, repleto daqueles personagens.

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9 respostas em “Bliss?

  1. Ok, todo mundo fala que você escreve bem e eu concordo e tal. Mas já te disseram que você tem uma PUTA imaginação?! hiuahiuahiua
    Adoro.
    Beijo

  2. viagens literárias são sempre legais. eu gostaria de entrar numa mistura de a insustentável leveza do ser e factotum.

  3. Ahhh delíciaaaa! Não tem coisa melhor do que viajar com os livros, os contos, as crônicas… eu sou tão assim, sabe? Facilmente me perco! (deve ter notado isso com o post de Clarice) rsrsrss
    Te add no twitter! Qnd mexer no blog denovo vou te linkar

    bjos

  4. Moça que escreve, embarquei nessa história. E hoje eu vi Budapeste. Talvez o livro seja melhor, mas vale a pena ver o filme.

    Obrigado pelo comentário por lá.

  5. Ahhh, viagens literarias..! Teu eu-lírico é tudo de bom, flor!
    “Vazio de gente, repleto daqueles personagens.” Adorei isso! =**

  6. Os livros…
    A força dessas tais palavras, um conjunto de sons e símbolos agrupados, mas que fazem sentir, fazem ser ,tudo, infinito, universo, nada. Apenas uma borboleta de Clarice.
    Me leio no teu texto, sei que quando tenho um livro em mãos sou aqueles personagens, que já são parte de mim, já são tão meus,tão imaginários, tão de carne e osso.
    Lindo, mais uma vez Nina.
    Muito obrigada pelo comentário.
    beijo enorme!

  7. Isso se chama teletransporte! ;D

    Sempre que leio algo muiiiito bom, acontece isso comigo.
    Kiss

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