Desamor, sensibilidade e bom senso

“Quando se chega ao extremo estreito da passagem, só há duas vertentes: Tornar-se outro ou entregar os pontos. Bem, eu acredito no que contam e vou ser franca com você: Nunca me preucupei com a confirmação dos fatos, nunca. Verdadeira ou não, a história é grandiosa, por isso a preservo e a transmitirei em frente tantas quantas forem as oportunidades e a contarei sempre com essa imensa riqueza de detalhes pelo prazer de ouví-la, pelo gosto de quem sabe quanto dói, quanto é amargo andar atrás do amor, e ele rir-se de nossa cara e se afastar fazendo piadas e soltando risadas às nossas custas, se fingindo de bobo…”
:: Da crônica Renascimento, de Leida Lusmar, presente no ótimo livro Bebo Chá Enquanto os Patos Grasnam.

Desamor. Não ouso procurar no dicionário a palavra que eu inventei ou encontrei para definir uma cena como aquela. Havia entrado no aposento, mas fiquei parada na porta ainda por dois minutos, tocando a fria maçaneta sentindo-me gélida por dentro. Abusando de meu bom senso.
– Conte-me tudo, pois eu já soube. – Disse e ela se assustou com o meu tom de voz entre o tranquilo e o contido. Devia estar perdida nos sentimentos e na pouca imaturidade que obtinha, apesar de ser mais velha do que eu.
Olhei ainda alguns segundos para aquele rosto tão conhecido e de traços poucos familiares, apesar de nosso parentesco. Seus olhos paralisaram em algum ponto indefinido da sala, enquanto eu caminhava rumo à janela, esperando uma resposta que tardou a vir.
– O meu amor por ele acabou. – Ela disse, vagamente.
“Acabou”, repeti em pensamento. Apenas o amor dela havia terminado, porém, pelo pouco que eu já sabia, ele ainda estava abalado, vulnerável com o rompimento repentino (que fez com que todos nós ficássemos surpresos).
– Acabou mesmo, minha irmã? – Perguntei. – Vocês dois pareciam tão apaixonados! Na semana anterior, por exemplo, no aniversário de Lorelai, vocês pareciam o melhor casal da festa!
– É que eu dissimulo bem.
Óbvio. E ainda se permitia às ironias que eu costumo utilizar.
– Por quê acabou? – Tento novamente.
– Já disse… – Outra resposta vaga.
Eu sabia que teria de formular boas respostas para que minha irmã mais velha respondesse:
– Além do fato de você não mais amá-lo… Que outros fatores acabaram contribuindo para a separação?
Quem me ensinou que “qualquer maneira de amor vale à pena”, certamente não apresentou-me o desamor, o desapego ao que, outrora, chegou a ser motivo de adoração. Vejo minha irmã mais velha cancelar noivado e projetos de casamento. Logo ela, “toda emoção”, como costuma admitir, excluindo, recusando aquilo que tratara como “um sonho prestes a se realizar”, agora respondia que o amor havia terminado, depois de mais que cinco anos declarando-se um ser humano de sorte infinita por ter encontrado o amor verdadeiro. Minha irmã nunca teve problemas em extravasar os seus sentimentos, o que me permitia uma leve comparação entre ela e Marianne Dashwood, personagem de Jane Austen em Razão e Sensibilidade.
– Ele não tem sido o mesmo. Não abre a porta do carro para mim, não vamos ao cinema ou a um restaurante por falta de dinheiro…
“Meus Deus, como é frívola, leviana esta minha irmã!”, penso. Para onde terá ido o amor que a fez selar compromisso há poucos meses? Se desamor já não me parecia uma resposta plausível, que dirá a momentânea ausência de cavalheirismo, algo tão pouquíssimo convincente!
– Tudo bem, se não quiser me contar, já que não confia em mim, que seja. Não de minha responsabilidade a sua estúpida renúncia! – Disse, deixando meu corpo desabar no sofá.
Percebi que ela segurava um relicário entre os dedos da mão direita. Ali permanecia os retratos de ambos, um símbolo fiel do relacionamento deles, tal como o anel com cachos de cabelo que Marianne chegou a acreditar que Elinor entregara a Edward Ferrars.
– Além de tudo, – Ela continuou, sem precisar ser forçada – você sabe que ele morava em minha casa, estava desempregado, em nada ajudava. Eu não poderia viver com um homem tão acomodado. Que futuro, que segurança financeira eu teria em um casamento?
Aquilo era decididamente estranho: Minha irmã estava racional nas questões do amor, enquanto eu acreditava que todo amor verdadeiro deveria ser vivido, independente das condições. Éramos a moral da história de Elinor e Marianne, pois havíamos trocado nossa sensibilidade e nosso bom senso.
– Eu sei que é repentino para você e para todos os que conhecemos, mas sejamos racionais: Eu não tenho futuro com ele.
– Mas você o ama! – Insisti.
– Não mais, já disse! E já faz algum tempo…
– Então por que aceitou o noivado?
– Porque ainda me restava a esperança de que ele mudasse!
“Mudança. As pessoas nunca estão satisfeitas com quem amam. Sempre querem que ele ou ela mude”, pensei.
– Ele não vai superar tão cedo. E você o trata com indiferença, sabia? É cruel! Um sentimento terrível para compartilhar e se obter! – Explodo.
– Com o tempo ele supera.
Dei um longo suspiro e fiz um aceno de “basta!”, retirei-me da sala. Sentei na cadeira de balanço da varanda, pensando nessa esfinge que é o amor. Eu devo ser mesmo muito frágil, imatura e de fácil desequilíbrio para não compreendê-lo. Quanto tempo precisa durar um romance, por mais que se espere que seja para a vida inteira? Quando devemos dar um passo adiante? Quando devemos recuar? E por que precisa acabar?
“Fim” é uma palavra presente no dicionário. Mas tão indefinível e inenarrável, que sequer deveria existir.

“Apesar de atraente, a idéia de nossa felicidade depender de outra pessoa nem sempre é possível.”
:: Frase de Elinor (Emma Thompson) no filme Sense and Sensibility.

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9 respostas em “Desamor, sensibilidade e bom senso

  1. Nina,

    Que bacana é ver que seu blog está aí sempre atualizado. E você só melhora como escritora e blogueira. E ainda é tao novinha =P.

    Grande beijo!

    (E ando com uma vontade de ler Budapeste e Leite Derramado).

  2. Que bacana o texto, o todo né… e aquela coisa lida acima sobre a pessoa mudar, grande engano, grande e ledo engano.
    As vezes a gente usa ou é usado como muleta por carências e amores/desamores, momentos de intensa ausência de nós mesmas, mesmos e quando vemos nos deparamos com coisas impossíveis… amamos quem não merece ser amado, mudamos ou tentamos ser quem não somos pra ter gotas choradas do amor alheio, da dó amiga ou da segurança do sono em travesseiro frio.
    Sei lá… viajei pq ao ler refletí alguns momentos meus, mas valeu… como sempre valeu demais à pena te ler!
    Obrigado!

    E puxa, Nina… obrigado pela visita e comentário no meu blog! Concordo demais com vc!

  3. “Quando devemos dar um passo adiante? Quando devemos recuar? E por que precisa acabar?”
    Eu não sei…e como queria saber. Aceitar até que me bastava… bastaria aceitar o fim, conviver com ele de forma amigável!!

    Lindo o post

  4. Olhei:iii muito grande!!]
    Aí, li o que escreveu em letras maiores e negrito, me envolvi.
    Exelente texto,me identifiquei com essa irmã mais nova, não tem como entender quando vemos a menina que cuidamos, assim tao loucamente apixonada e tao ‘de repente’ declarar a nós que o amor simplesmente acabou…Eu aprendo!! -‘MEUS PARABÉNS PELO BOM GOSTO!!!!!

  5. O fim, às vezes, é inevitável, sempre me faço esta pergunta: “por que precisa acabar?”. Sinto que muitas vezes precisamos fechar ciclos, passar de fase, iniciar novos projetos. Já me peguei várias vezes pensando que muitas pessoas acabam enrrolando o fim e se este momento já não é tarde demais. Muitas vezes somos prejudicados por não encerrar ciclos no momento propício, pois tudo tem seu final, isto é inevitável.

    Gostei do texto! :)
    beijinhos :**

  6. Bacana sua crônica. Mas Cazuza falava (eu, me repetindo):” As possibilidades de felicidade são egoístas, babe..” A verdade é que depender de alguém para ser feliz… é certeza de ser infeliz.
    Acredite

  7. quanto é amargo andar atrás do amor, e ele rir-se de nossa cara e se afastar fazendo piadas e soltando risadas às nossas custas, se fingindo de bobo…”

    disse tdo neh *———-*
    tda vez qe venhu aki me deparo com novidades,digo isso pela sua forma de escrever, adoro

    bejoos

  8. Não é fácil de entender mesmo, mas depois de um tempo a gente aprende que não é só o amor que faz com que duas pessoas fiquem juntas.
    Bjitos!

  9. eu tenho 21 anos, e não sou experiente em tais questões. mas sou sempre racional. sempre, sempre. talvez sua irmã tenha outras questões mais íntimas, mas o certo é, que apesar de amor, de amar, as coisas mudam, as vontades não são as mesmas, nem os desejos, e a falta de sintonia se instala. pode ainda haver amor, mas tem gente que não se submete a mudar seus padrões, seus caprichos, seus confortos… enfim… ela sabe o que fez, espero que não haja arrependimentos. melhor terminar agora, do que viver frustrada e triste num casamento que já começou falido.

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