Para Júlia da Costa

“Não tenho escrito versos. Não é que eu não queira, mas eles simplesmente me abandonaram. Faço às vezes algumas anotações, penso que o impulso de escrever vai novamente emergir, mas é engano meu. Nada de forte, de original, sai de meu coração. De um coração morto não costuma sair boa poesia. A poesia precisa de crenças, de sonhos, de horizontes amplos para se expraiar. Precisa de um coração aberto e de generosidade. Eu, ao contrário, me sinto seca, estéril, sem nada a dizer.”
:: Do livro Júlia, de Roberto Gomes.

Eu fui você em outra vida e só agora dei-me conta. Minha poetisa querida, esquecida por alguns, desconhecida por muitos. Deixou-me nesta vida com seus versos inspiradores, sua natural habilidade dickinsoniana, à qual não herdei, infelizmente.
Minto. Na verdade, esqueci a construção dos versos. A rima, a estrofe, a vida que se entrega às poucas palavras que muito dizem. Trago em mim seus sentimentos de outrora: A renúncia de um amor, a vingança através da entrega mal pensada… Casou-se com o comendador, mas para quê?! Como pôde viver na base da infelicidade, tendo, em todo o seu caminho trilhado, este sabor amargo que só os desprovidos de piedade possuem?
Não te julgo, pois lhe entendo. A vida e sua prova cruel de amor nos leva às decisões terríveis e revolucionárias. Abusamos tanto de sensatez que, inevitavelmente, erramos. E errar é humano, triste sina.
A mãe não entende porque escrevemos. E dos poucos admiradores que temos, declinamos de quaisquer elogios, teimando em odiar aqueles que nos querem fazer a corte.
Poeta, não quero palavras soltas, já sou enigmática. Não quero escrever livros, quero papéis avulsos, perdidos. Nem sempre tiveesse aspecto: Esses lábios pintados de vermelho, esse rosto fúnebre, corado de um lilás mortício, escondendo minha palidez. Esse perfil grego, essa pintura íntima. Nem sempre carreguei este cetim azul em meu pescoço. adornando-me, como faziam seus camafeus, suas gargantilhas.
Nem sempre pude caminhar descalça, sentindo a areia, observando a imensidão anil de encontro ao azul celeste, daqui do cais vejo o mar. Nem sempre pude fechar os olhos e pensar, abrí-los e encontrar o ponto do nada – onde deveria estar o moço que me sorri e toca violão.
Sabe poeta, esse moço foi embora de minha/sua vida. Recordá-lo dói, mas não fere, não machuca. Conversamos tímidos agora, desconhecendo um ao outro. Mas não receio, nem adianto passos.
A minha história será como a sua. Porém, nada infeliz. Há sim um homem maduro que anseia pela minha presença, mas o amor é mútuo, é recíproco. Eu sei que o amor recusado, de gosto amargo, é melhor, é inspiração para a escrita. Mas eu prefiro o desafio de sentir felicidade e escrever sobre ela.
Não se preucupe poeta, teus versos irão despertar em mim todo o amadurecimento contido. E para que os erros não se repitam – amarei sincera e dignamente aquele que me escolheu sem nos julgar.

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8 respostas em “Para Júlia da Costa

  1. “Eu sei que o amor recusado, de gosto amargo, é melhor, é inspiração para a escrita. Mas eu prefiro o desafio de sentir felicidade e escrever sobre ela.”
    Sou feliz, e vivo procurando pelo em ovo, procurando a tristeza.
    Hoje concordo parecialmente com aquela frase: “ostra feliz não faz pérola”.
    Não que não faça.
    Mas é MUITO mais difícil.
    Escolher a felicidade é um desafio, a tristeza muitas vezes parece mais poética, mais atrativa, mais fácil.
    Escrever feliz então, é quase impossível.
    A felicidade não transborda tanto quanto a tristeza.
    Mas ainda é muito melhor ser feliz.
    beeeijo

  2. Escrever feliz é possível. Mas escrever na transição é melhor ainda. Ou então naqueles momentos em que se sente livre. Minha tristeza não serve pra nada. Nem pra escrever. Apesar de que há um samba que diz que “pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não…”

    Beijo Nina.

  3. Ah que pena, eu não tenho twitter. Na verdade eu não compartilho da idéia. Escrevi até um texto sobre isso, que foi publicado pela revista do Itaú Cultural aqui em SP.

    Sigo seu blog, e acho bem melhor.

    Bjo, Ana

  4. a sua fã numero 1 comentando =) eeeee, menina como você tem evoluido durante os anos =) cada vez melhor que até me supreende. tenho uma indicação pra ti, creio que ainda não tenha lido e que talvez irá te ajudar ao longo de sua vida. A poética de Aristóteles seria uma boa pedida pra ti. Ali está o segredo da melhor narrativa utilizada. Seria interessante pra você que tem o domínio das palavras. Tive de ler esse livro durante o segundo semestre do meu curso, gostei bastante e me ajuda ao escrever um roteiro quando preciso. É por ele que me baseio e tudo fica um pouco menos difícil.
    =)
    tenha uma ótima semana.
    espero que goste da indicação.
    faça bom uso.

  5. Tô acostumada a entrar em teu blog e ler textos ótimos, mas confesso que esse me surpreendeu. É beleza demais para um texto só! E acho que a pior coisa do mundo, é um poeta vazio… Beijos :*

  6. Confesso que me vi um pouco neste texto, minhas melhores palavras saem quando meu coração está em seus piores momentos.
    beijos

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