Cuide de você

Um belo dia, a francesa Sophie Calle recebeu este e-mail de seu namorado, o escritor Grégoire Bouillier, que quis romper o relacionamento de ambos. A carta acabou virando exposição. Leiam, porque semana que vem terei uma proposta para vocês.

“Sophie,
o título é um tanto descuidado.
Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ele deveria ser respondido imediatamente. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer em viva voz.
Frase desajeitada: pesada e deselegante. Mas pelo menos será por escrito. E daí?
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. Coitadinho!
É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Não nos interessa; ele não deveria falar de si.
Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Essas coisas deveriam ser guardadas para si. Ele não deveria exibir
suas pequenas preocupações.
Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a ‘quarta’. Que feio! A dama nunca deveria ter tido necessidade de impor condições. Ele próprio deveria ter feito essa oferta, e com a
maior discrição. Eu mantive o meu compromisso: Há meses deixei de ver as ‘outras’, não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas. Que grosseria mencionar novamente esses relacionamentos, e é um insulto ele sugerir que a Senhora pudesse ser uma delas. Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e ‘generoso’, se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. A frase é mal construída, e ele está falando com a pessoa errada: O amor não deveria ser usado como remédio para o mal-estar dele e a outra não está lá para curá-lo. Ao contrário, ele deveria estar cedendo, estar
enaltecendo a outra, elogiando-a e respeitando-a. Achei que a escrita seria um remédio, que meu ‘desassossego’ se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. estou pior ainda: não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro.
Nunca use expressões excessivamente egocêntricas e pomposas acompanhadas de ‘mim’, ‘meu’ e ‘eu’, como em ‘meu desassossego’ e ‘o estado em que me encontro’.
Então, esta semana, comecei a procurar as ‘outras’. E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Esses comentários são inúteis, ofensivos e humilhantes.
Jamais menti para você e não é agora que vou começar. Bom, mas ele poderia ter economizado essas enfáticas declarações de honestidade e todas essas justificativas que mal conseguem mascarar a
tremenda falta de consideração que ele tem pela outra. Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: No dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Certamente. Não se deve confundir amor e
amizade. São duas áreas cujos conteúdos são bem diferentes.
Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…). Pobre vítima! E compreensível (obviamente…); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade (hipócrita), pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar
sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade
infinita. Que expressão mais estranha; mais uma vez ele faz de si próprio o centro de tudo.
Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei (exatamente, teria sido melhor se essa ‘maneira’ tivesse sido bem diferente), desde que nos
conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá. Sublime!
Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro (comentário muito presunçoso. Além disso, esse tal amor que ele sente não é sinônimo de respeito nem de compromisso emocional, aparentemente).
E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez (de novo, o termo soa supérfluo e tem um tom repressor) como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único. Infelizmente, é impossível ficar contente com isso.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente. Sim, claro: culpe a sua mãe, o padre, o presidente, a Madonna, ter lido Don Júan, os tumultos na periferia e sei lá mais o quê.
Cuide de você. Finalmente, ele está pensando em alguém além dele mesmo.”

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13 respostas em “Cuide de você

  1. Ele fez da maneira mais sutil que eu já vi. Não é fácil terminar um relacionamento. Eu vi a matéria dela no jornal da globo. Achei super interessante. Quase comecei a fazer um trabalho artístico em cima da minha tragédia que afinal se parece tanto com a dela. Ele eé um escritor, nada mais fácil que escrever uma carta e dizer coisas realmente sutis. Não acha?
    To esperando sua proposta. ;D

  2. O fim de um relacionamento é sempre terrível, e por mais bem escrita que seja uma carta como essa, não passa a doer menos, e nem deixa de parecer o mais clichê possível, a medida que tenta-se amortecer a dor do outro.
    Espero sua proposta, Nina.
    beijo enorme!

  3. Eu estou sinceramente sem fôlego…
    Não sei se estou redondamente enganado mas este e-mail é bem típico de homem… primeiro, demorou para escrever. Ou seja, se absteve de participar de um momento que era a dois. Como sempre.
    Homens tem medo ou vergonha de demonstrar sentimentos. Não escrevem, não falam, não ligam no dia seguinte ou simplesmente NÃO nada à respeito de tudo… ainda mais se este tudo incluir coisas que fujam de seu controle e domínio.
    Gostei demais do texto, para variar… claro, não gostei do e-mail mas sim do texto!!!
    Nina… desculpe a ausência, to quase parando com o blog … pra dar um tempo e respirar… mas enfim, obrigado pela visita e comentário!!
    Quero ver a sua proposta!
    Bjoooooooo

  4. Ha! E é lindo a forma como tudo só começa para então terminar, e é engaraçada a forma como os laços se transformam em correntes.Amor coletivo é muito mais sadio que amor à dois, mas amor próprio é o maior e mais sincero de todos.

    Esperando a proposta [349]

  5. Já li essa carta no blog 3×30, adorei e fiquei curiosa pra ver a exposição pessoalmente!A sim fim de namoro é uma barra, principalmente quando se está apaixonada, o que graças a Deus não é o meu caso, o post que você comentou foi apenas um sonho…

    Obrigada!
    BjOoOoOo’
    :D

  6. O que eu mais gostei foram dos comentários no meio da carta, desfazendo de alguns artefatos usados pelo homem que escreveu para tentar amenizar um pouco do mal que estava causando.
    Fiquei curiosa com a proposta.
    beijos

  7. hehehe’
    não poderia ter sido mais criativo, da parte dela! aiuehauehr

    adorei!

    “Cuide de você. Finalmente, ele está pensando em alguém além dele mesmo.””
    hehehe’

  8. E necessito dar um bis num dos comentários:

    “O fim de um relacionamento é sempre terrível, e por mais bem escrita que seja uma carta como essa, não passa a doer menos, e nem deixa de parecer o mais clichê possível, a medida que tenta-se amortecer a dor do outro.”

    É isso.

  9. Pingback: A arte de romper « sobre fatalismos

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