Delírios (quase) fatais

Das estranhezas humanas, quase sempre me vem os infortúnios habituais: Procuro objetos que estão próximos ao meu umbigo, abaixo de meu nariz; perco anéis em banheiros de shopping; lembro nome e sobrenome de pessoas com as quais só tive contato uma única vez; nunca lembro de fazer a carteira para empréstimos de livros na biblioteca mais próxima de minha casa; planejo uma caminhada às cinco da manhã em volta do Dique em um domingo ensolarado, mas nunca cumpro; freqüentemente pressinto que estou sendo perseguida; um déja-vu sempre me atormenta; anéis perdidos em banheiros públicos lembram alianças em dedos errados; casar ou não casar? com quem? com ele?; há um romance de Emily Brontë que lembrará o nosso, mas a carteira da biblioteca…

***

Minha gata adormece em cima de um conto incompleto, jogado (às favas), na escrivaninha. Me distraio, tentando lembrar-me da última conversa que tivemos ao telefone… Sim! Minha irmã foi o principal assunto, o rompimento de seu noivado e… o que foi mesmo que ele respondeu? Sim, que não abriria mão de um amor verdadeiro por conta de idade, lugar ou posição social. Compartilhamos da mesma opinião.
A última gaveta, da escrivaninha, tem chave. Sim, eu expliquei a nossa situação e a dificuldade que teremos pela nossa diferença de idade. A chave repousa em meu pescoço. Não, ele não irá desistir de mim por um empecilho que julgamos ser mínimo. Ela abre a gaveta de crônicas e incompletos esboços. Ele disse que será difícil, mas não impossível. Existem ali os férteis pensamentos (que, como agora, “brigam” entre si): Iniciações de romance, críticas literárias e cinematográficas (impublicáveis, naturalmente), marcadores de páginas costurados com fitas de cetim. Ele perguntou quando ficarei de férias. Há também algumas cartas não enviadas e sonetos não declarados. Férias agora, só em dezembro. Há, na verdade, inspiração perdida.

***

Ainda não decidi entre o teatro e o tango. Entre Elinor Dashwood e Elizabeth Bennet. Entre o bom senso de uma e a ironia da outra. Não sei se o dia pede rock ou Strokes baiano à lá Caetano Veloso. Ah… Conversamos, lembro-me bem, sobre Giulietta Masina. Aquela que tem pálpebras de neblina (“pele d’alma, lágrima negra tinta”). Não sei se faço a atividade de Química para a próxima terça-feira ou se leio O Carteiro e o Poeta. Não sei se finjo tomar café com o Escritor Profissional ou se tomo um sorvete com Pedro na padaria. Não sei se respiro no próximo segundo ou se me atiro pela janela. Mamãe vai chorar muito. Papai não sentirá minha falta. Mamãe vai se separar dele (é tudo o que ela quer), minha morte trará benefícios. É menos doloroso cortar os pulsos ou morrer enforcada? É mais vantajoso escrever uma carta de despedida ou deixar que continuem com suas indagações?
Se eu morrer hoje mesmo, amanhã minha irmã mais velha roubará de meu pescoço fúnebre a chave da defunta, abrindo assim a gaveta de escritos (herança pura). Publicará a escritora que nunca fui e, provável e inevitavelmente, serei eu comparada a Emily Dickinson. E ninguém perguntou-me se, em vida, eu estaria capacitada para publicar algo. Ninguém quis minha opinião.

***

Terceiro ato. Hamlet faz de mim sua Ofélia e pergunta-me o inevitável: “Ser ou não ser?”. Enquanto ele segura minha caveira, estou no canto do palco, escondida entre a cortina vermelha, com o microfone em mãos a fazer uma voz grotesca: “Eis a questão!”. Torno a peça cômica quando entro no palco. Estou nua, esqueci minha fala e toda a conservadora sociedade inglesa do século XVI ri de mim. O Fantasma da Ópera chega e me beija. Chama-me de little devil, está bravo porque retirei sua máscara. “Ora, vá para o convento. Um bordel, um convento!”, diz ele, Hamlet, outra vez.
Na minha lápide, estava (estará) escrito: “As indecisões são muitas. Embora o meu futuro seja meticulosamente traçado, porém, não ensaiado. Quero imprevistos e improvisos, contudo”.

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14 respostas em “Delírios (quase) fatais

  1. Eita, tem lido bastane heim moça??!Também gostei de tudo!Na minha lápide vou mandar escrever esse finalzinho…

    bjOo linda!

  2. Amei o jeito como o post foi escrito.. Separado por tópicos. Acabou que ficou mais interessante de ler assim!
    Beijo

  3. Como sempre… Nina escrevendo, escrevendo, postando… postando e Cintia com toneladas de post de Nina para ler. Você me perdoa, né!? Eu juro que tento ler todos. =)
    Kiss

  4. Você escreve tudo de uma forma simples(e como disse a Clarice Lispector “Não se enganem, a simplicidade só se consegue através de muito trabalho”), mas incrível.
    Essa forma de separar os textos, de não se ater a um único assunto, deixa mais dinâmico, mais rápido, e acho que passa a impressão precisa da intensidade dos sentimentos.
    Muito bom.
    Beeijo!

  5. Nina, tão suaves e ao mesmo tempo, tão duras, tuas palavras. Dá pra sentir tua pouca idade, e a tua maturidade, és tão humana… Coloca coisas q nem todos teria coragem (poetas não devem ter pudores).

    És de verdade uma poetisa. Ler seu blog é te ver por dentro.
    Um beijo.

  6. Céus Nina, como gosto do que escreve!
    E escreve com tanto da alma que em pouco tempo me assusto com a forma na qual vejo um tanto de mim em você.
    E tenho raiva de mim, porque diante de um post desses, fico sem palavras.

    Kissus =**

  7. Sabe, a sua coragem me assusta. Não consigo por no meu blog todo um décimo de ‘coisas internas’ do que você consegue pôr em um só texto. Eu continuo tentando. Ensaio um pouco quando me sinto mais corajosa, quem sabe um dia eu chegue lá? Por enquanto sou só um ratinho assustado. Beijos.

  8. O que eu mais admiro em seus textos, Nina, é o modo como você mistura coisas íntimas da sua vida com citações de livros, reflexões, delírios e uma certa ficcção. Isso é pra poucos. Misturar tudo e fazer sentido em todas as coisas.
    beijos

  9. Pois é, logo de cara me chamou a atençao o formato em atos do post. Eu ando fazendo algo parecido, mas de longe, bem de longe rs, registrando trivialidades.

    E entre o teatro e o tango escolha tango rs.

    Ok, você é meio doida tá? Mas acho que já sabe disso rs.

    Beijo!
    Inté!

  10. Como um pobre mortal que nunca perde a capacidade de se encantar e se apaixonar por uma deusa, assim sou eu com suas palavras.

    Te amo!

  11. não comentei no anterior porque achei que postaria logo e viria falar contigo sobre, mas acabei não postando, adorei a proposta.
    Logo logo farei a carta.

    Adorei esses trechos. Só não entendi muito o último porque não entendo nada de Hamlet. AMEI a estrutura do segundo trecho e o final, sobretudo, que termina falando sobre falta de inspiração. Seria uma ótima idéia tentar alongar ele no meio, ficaria perfeito.

    Beijos querida.

  12. Oi Nina, desculpa o sumiço daqui. Tudo muito confuso e sem tempo!
    Mas olha, andei lendo seus ultimos posts e estou encantada! Adorei o e-mail que escreveste, adorei esse post, cada crônica que mexe com a gente!

    Beijos, se cuida ;)

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