Ausência sentida

Faltam-me os personagens de minha vida real e a inspiração que se assemelha aos triviais acontecimentos. Cronista é isso: Mero interpretador da vida, nada mais serve além de narrar uma situação. Não somos originais, não há nada de original em nossas palavras. Generalizo sim, respondo por todos, reclame quem quiser (eu não pretendo ouvir). Estar aqui, atrás dessa mesa ouvindo Dario Marianelli (e suas trilhas sonoras de época que permeiam toda a minha vida), esperando as horas passarem, é triste. Registro livros, organizo por sobrenomes de autores – eis o meu universo, uma biblioteca pública, empoeirada e desorganizada. Um trabalho voluntário, porém dígno. Algo que me ocupe o tempo, que me faça ler e que me tire do inferno que costuma ser a minha casa. Mas ó TRAIÇÃO! Acreditei que vocês – Sabinos, Andrades, Pratas, Alencares, Assis(ses), Bragas, Pedrosas, etc. – trariam até mim, de bom grado, a inspiração que mereço mas, pelo o que eu vejo, não, muito obrigada, malditos exemplares escritores!
Eis aqui. Ausento-me. Não encontro folhas suficientes, minha vista anda mal, as canetas estouram entre o calor de meus dedos. Também estou farta dos dizeres alheios – desse vício virtuoso que muitos tem de julgarem-me só e carente. Parem , por favor, de dizer que meus amores não darão certo, que preciso voltar à realidade. Por acaso sabem diferenciar sonho de realidade? Se não me permitem viver um romance, platonicamente ou não, como poderei escrever, dedicar e autografar o livro que vocês tanto querem que eu publique?
É verdade: Também sinto falta de um abraço, de uma conversa, de uns afagos em festa no meu cabelo, de algo que me desperte a consciência e o sentimento mais caro. Tá, eu vou estudar Química, vou procurar minha própria identidade filosófica baseando-me em Descartes, lerei sim o Manifesto Comunista, tudo bem. Mas não me cobrem além disso – não acordo tão cedo, não quero fazer o café-da-manhã, sinto dores fortes no peito, preciso de um médico ou de um amor, talvez. Sinto falta de Sininho a miar em meu pé (há três dias ela não volta para casa, com certeza arranjou um amante). Sinto falta de infância, algo que nunca me causou saudades, mas é nisso que dá uma certa convivência com P(i)ter Pan. Sinto falta da minha amiga que briga comigo por qualquer coisa – e agora não foi diferente -, mas se tratando de meus sentimentos: Com licença, não opine!
Sinto falta de Pedrovsky e Ninotchika, dupla russo-brasileira imbatível, amigos desde sempre, amigo, onde você está? É isso. Sinto falta até – quem diria! – do silêncio em manhãs dominicais. Agora, sempre tenho alguém que me acorda, aos berros, às ordens, “às favas!” – eu lhe digo. Saiam daqui, todos. Deixem-me em paz, deixem-me com meus livros, pensamentos, filmes, revistas, informações inúteis e diversas. Eu preciso viver!!! Com quantas exclamações e maiúsculas forem possíveis! Vocês serão capazes de fazer por mim este sacrifício? Se sim, obrigada. Se não, lamento, sentirão a minha falta (?).

“Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. (…) Faz-me falta essa tua ousadia, no deserto da noite que agora atravesso. Fazes-me falta. Sou professor de mentirosos amadores, não posso mentir-te.”
:: Do livro lusitaníssimo Fazes-me falta, de Inês Pedrosa.

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8 respostas em “Ausência sentida

  1. Bem que notei seu sumisso. Não tem nada que eu posso dizer que vai te confortar, só me resta desejar que pelo menos a inspiração lhe volte logo.
    Beijos

  2. Lembre-se, para você viajar com P(i)ter Pan, é preciso que nunca deixe de acreditar em fadas. Não deixe. Eu acredito.

    beijo.

  3. Questionada por um jornalista sobre o que achava de Machado de Assis, Clarice Lispector respondeu: – Eu odeio o Machado! Atônito, o homem perguntou a razão. Ela disse: Porque eu não sou ele.

    Afagos da cinza São Paulo.

  4. Você falou por mim também. Nao somos originais. E isso também é castigo (é a minha vez de dizer “reclame quem quiser”). Mas você quase sempre surpreende, isso sim rs.

  5. Percebi que não estava por aqui. Espero que teus personagens, sejam de carne osso ou palavra, voltem logo pra você.
    Um beijo!

  6. Sabe, queria ter a capacidade de poder te adotar. É isso mesmo. Adotar. Pra poder te ver todo dia. E todos os dias dar um abraço caloroso, um afago no seu cabelo e dizer pra ti:
    – Não tema. Estou aqui.
    Mesmo que fosse contra a tua vontade. rsrs

    Mas o que estou dizendo? Não posso. Estou aqui sem ter o que fazer, impotente.
    Você não deve temer. Isso, não ache que um enorme muro pode te impedir de seguir seu sonho, seu desejo. Não se auto-denomine só ou carente. Nem mesmo escute os outros. Apenas olhe pra si. Te avalie. Te coloque em xeque. Mostre a ti que até rabiscos podem se tornar desenhos magníficos. Até frases mal escritas podem formar um lindo livro. A luz é algo sempre presente. A noite se utiliza da luz pra ficar mais linda, como tu pode notar na lua e nas estrelas.

    Teu olho mesmo fechado pode enxergar tudo. Porque tudo depende apenas de si mesma. Não abandone sonhos ou deixe de rabiscar corações. Nem mesmo deixe de dormir numa cama e acordar na terra do nunca. Não deixe de acreditar que possa voar. Você pode.

    Te deixar em paz eu posso. Posso sumir, desaparecer. Posso simplesmente me exterminar. Se é isso que tu queres.
    Uma coisa tu não tem pode. É me fazer te esquecer ou te abandonar. Mesmo se realmente insistir em me pedir pra sumir. Posso até sumir das tuas vistas, mas não do coração. O coração é mais teimoso, você deve saber. Sair dali custaria muito pra mim…

    Porém, é claro que não vou te deixar em paz. É algo inconcebível. E mesmo que tu reclame horrores. Esse tipo de sacrifício não dá. Não mesmo. Nem que isso me custe seu olhar, ou sua palavra de afeto.

    Posso não estar no seu mesmo barco, mas sempre te acompanharei da margem, te apoiando, te ajudando e te dando a maior força. Não é questão de tu precisar ou não. Mas quando gostamos e temos afeto por alguém, jamais o abandonamos. Nem quando eles pedem isso.

    Daniele, és uma amiga muito especial. Tem muita energia. As vezes se atropela nas palavras, mas passa tão profundamente os sentimentos que não tem como não me sensibilizar ou me sentir nas palavras. Você passa muita aquela força, determinação, personalidade, mas ao mesmo tempo demonstra aquela fraqueza, aquela feminilidade ingênua, doce.

    Você não quer ninguém te dizendo o que tu deve fazer, nem o que está passando. Tu quer apenas que entendem essa tua forma de desabafar, de poder adquirir força. Talvez não exista alguém que eu entenda tanto quanto você. Teu jeito é tão peculiar… Por isso mesmo te tenho na mais alta estima.

    Não sei se dá pra compreender algo do que disse agora. Na verdade nem eu sei se segui um roteiro compreensível rsrsrs
    Apenas fui escrevendo rsrs

    Nina, luz pra você.
    Saudades imensas.
    E Beijos florido no
    seu coração lindo.

  7. Já dei vários bastas. E continuo dando, as pessoas não entendem. Cada um é cada um, e eu até gosto de ser/estar sozinha, mesmo nem sendo tão introspectiva assim. Eu sinto falta de um monte de coisa. Até daquele moço que me prometeu o mundo, e por hora está sumido, e tbm daquela época em q eu gostava mais de mim mesma, ou quando as coisas pareciam mais simples.

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