Ao Pã

“Enquanto as pessoas são ainda mais ou menos jovens e a partitura de suas vidas está somente nos primeiros compassos, elas podem fazer juntas a composição e trocar os temas (…), mas quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras musicais estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo de diferente na partitura do outro.”
:: Do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milar Kundera.

Lembra-se de quando eu me abrigava no teu abraço? Aquilo não durava mais do que alguns segundos e, ainda assim, eu fazia o possível para prolongar ou para armazenar em minha memória algo em ti que me fosse inesquecível.
Tratava-me com a mesma cortesia de sempre, e me repreendia docilmente quando eu teimava em errar uma nota. Por muito tempo fui sua única preucupação e nos ocupávamos com a música erudita nordestina ou com o tango de Piazzolla que você me apresentou, mesmo sob o pretexto de que eu ainda era muito jovem para compreender aquele estilo. Não diria o mesmo, porém, se conhecesse os meus escritos. Trataria-me como um “prodígio”, como muitos me vêem e talvez você mesmo passasse a me ver com outros olhos, era o que eu queria. Até hoje me arrependo de não ter lhe mostrado um rastro de maturidade. Mas eu tinha catorze anos. Era muito menos corajosa e com o dobro de insegurança.
Quando as novas alunas chegaram, alegrei-me porque teríamos companhia. Quanta ingenuidade, a minha. Veio uma tão desinibida, mas tão carente quanto eu. E a outra era sonsa, sabia atrair os holofotes unicamente para si, em sua eterna futilidade, passando por cima das pessoas. Ao seu redor, professor, uma certa hostilidade havia sido criada, mas mantínhamos o pacto de parecermos sociáveis para não decepcioná-lo.
Quando você se trancava com a sonsa no fim de cada aula e a desinibida vinha me contar sobre as últimas conversas entre vocês dois, senti que já não havia muita importância se eu estava presente ou não. Não havia mais tempo para nós, o pôr-do-sol era menos frequente às sextas-feiras, lembra? E você tinha a sonsa como companhia para os grandes concertos nos melhores teatros daqui, apresentações que eu adorava ir, mas que ela não entendia, se impacientava e, por fim, sentia sonolência conforme o que ela mesma havia me narrado posteriormente. Sentindo-me trocada, passei a faltar aulas e esforçava-me cada vez menos, eu que tanto queria acertar e ganhar um sorriso seu. Já nem me importava retroceder dois anos de curso por causa das novatas, de fato, não importava. Chamou-me então a atenção na frente delas, dizendo que eu não estava dando o exemplo como líder e aluna mais velha. Quando a sonsa iniciou a faculdade de Nutrição e, consequentemente, começou a faltar, você a parabenizou pelo importante passo de maturidade que ela estava dando. A desinibida fazia ballet, e você assistia orgulhoso as apresentações, tal como um pai coruja. Suas duas novas favoritas estavam crescendo, enquanto a sua filha do meio sequer saía do lugar, aos seus olhos. Porque a verdade era que eu escrevia, e queria dizer-lhe isso, mas não sabia se importava tanto.
Um pai. No teu primeiro dia de aula, entre nervosismo e formais apresentações, você mesmo havia dito que seria como um pai e um amigo para todos nós. Mas já no fim do curso, perguntei-me se todos os pais eram iguais àquele que eu tenho em casa. Um pai sempre deveria fazer sua filha chorar?
Por uma vez apenas chorei por você, algo que oscilava entre felicidade e angústia. Já com a tua indiferença em quase desprezo, sentei-me ao teu lado naquela viagem de apresentações musicais. Por um momento fingi dormir e pousei minhas mãos no livro que estava lendo. Você retirou o livro para o meu conforto e segurou minhas mãos. Notou-as frias. Lembro ainda das tuas mãos, tão macias, pequenas e gorduchinhas, quase as mãos de uma criança que ainda não chegara na Idade da Razão. Quando percebi sua ausência, vi-me livre para chorar. Mas, ao olhar para o fundo do ônibus, pude vê-lo a conversar com a sonsa, a trair-me mais uma vez e a convencer-me de que aquele era apenas um amor platônico de início de adolescência. “Isso passa”, me diria você, em sua filosofia vaga. Será mesmo que passa?
Abraços,
Syrinx.

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20 respostas em “Ao Pã

  1. Que texto lindo, Nina. Mas é uma pena como essas paixões platônicas de começo de adolescência sempre terminam em nada. Parece um rito de passagem para a vida adulta. Anyway, na pior das hipóteses, nos rendem algumas lições importantes e alguns bons textos.
    Também tive um professor de música – na verdade, de piano – especial à sua maneira. Mas isso eu tinha uns 7 pra 8 anos, então não foi um personagem assim tão marcante, haha. Mas lembro com saudade da paciência que ele tinha comigo. Nunca mais tive notícias dele.
    Beijos!

  2. Ninotcka!
    Já sei pra quem foi essa carta (pro Raiden…)
    NOITE CARIBENHA! Não se esqueça! Você será meu “par romântico” quando eu voltar de viagem, nunca mais dançamos! Volto semana que vem. Breno, por incrivel que pareça, tah doido pra voltar. A feira literária aqui de Sampa foi belezinha.

    Gostou da minha ultima crônica? Mas to saindo do jornal, snif…!

    Bêjócas!

  3. Eu não sei se passa, mas o que com crteza não vai faltar é o seu talento. Agora, de resto,eu ainda to descobrindo.
    Beijo.

    vou postar o meeme

  4. Acalma o coração e aquece as mãos…virão ainda muitos outros, com olhos de nunca mais. Viver é despedir-se, e despir-se.

    Gosto do estilo do teu texto, fluído.

  5. Oii Nina!
    Para variar vc sempre com textos preciosos, limpos, bons e gostosos de ler!! E sempre com mta emoção e narrativa de conteúdo!
    Te admiro demais viu!!! Bjos e parabens pelo seu talento!!^^

  6. “Mas eu tinha catorze anos. Era muito menos corajosa e com o dobro de insegurança.”

    Talvez se tivesses a maturidade de hoje e não a ingenuidade de ontem talvez não tivesse se encantando tanto assim…ou não, eu posso tá falando besteira!
    Apenas sei que o texto ficou lindo, como todos os outros que você escreve!!
    bjos

  7. Esses amores platônicos, ingênuos, sempre parecem ser os mais sinceros, os mais difíceis de esquecer.
    Quase todos tivemos que ter um dia alguém como este teu professor de música, tão amado e tão impossível.
    Triste, de uma certa forma, mas ao mesmo tempo leve (o texto, digo).
    Um beeijo!

  8. Tive um amor platônico, também aos 14 anos. Era meu professor de inglês, 11 anos mais velho (no meu caso, acho q era recíproco, mas, enfim, eu tinha 14 anos e nunca tinha nem beijado na boca rs).

    Beijos, moça.

  9. Ah, achei tão lindo esse texto, Nina.
    Bom, eu não sou apaixonada, e acho que nunca fui, por nenhum professor.
    Mas sinto ciúmes do meu técnico. Sinto a necessidade de que ele me elogie e me enxergue. Tenho ciúmes de qualquer outra novata, sei lá, acho que vou ‘perder’ meu lugar. Não sei, pode ser devaneios meus, mas não consigo mudar isso. Até agora não consegui.
    Mas tudo bem, é uma característica minha que, talvez, mude com o passar dos anos.
    Teu blog é muito legal, Nina.
    Muito mesmo.
    Adoro passar por aqui. Você sempre escreve coisas que me tocam e que fazem lembrar de mim.
    Beijo.

  10. Se for platônico e adolescente, vai passar… se for maduro como a personagem comentou ser, não vai passar não. Ou cresce, ou vai matá-la pelo coração.

    O blog tá de carinha nova. depois vai lá conferir.
    Kiss e bom findes.

  11. Gosto tanto de suas cartas, Nina! Aliás, tenho tentado escrever cartas por influência sua, algum dia desses eu posto.
    Amores platônicos são uma constante na minha vida, me apaixono tão fácil, até parece que gosto de sofrer. No mais, amores assim fazem parte da vida, o ciúme, essa sensação de troca que dói tanto… mas depois, sempre aprendemos algo.

    Kissus =**

  12. Nina, cansei de ser a nerdinha que diz que é sua fã número 1, eu sou a fã numero 0 tá? :P uhasuhahusahusa.
    fiz o quiz ali do lado. deu que sou Elinor Dashwood of Sense & Sensibility! (acho positivo :P)
    beijos
    boa semana.

  13. Belo texto, apesar de triste.
    Acredita que eu nunca me apaixonei por um professor, nem cheguei perto desse carinho enorme?
    Beijos

  14. Jesus, ascende a luz =)
    Vc escreve bem pra caceta menina… inda usa essas referências mitológicas.. .aí eu não aguento =)
    Fiquei pensando em quantas vezes (por outros motivos) eu fingi dormir com um livro nas mãos.

    Bons escritores constroem imagens na mente de quem lê.

    Sim, isso foi um elogio ;-)

  15. menina…
    bom, bom
    bom demais

    belo título

    essas marcas ficam, para o bem ou para o mal
    doem, mas acho que até fazem bem

    o bom de envelhecer é tornar-se mais experiente, né?
    beijo

  16. Pingback: O grego mito indizível « sobre fatalismos

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