Ouço Debussy

Além de passar todas as minhas manhãs em uma bioblioteca de colégio, ainda faço quase que o mesmo itinerário aos domingos – visito a biblioteca que fica ladeira acima de minha casa, com o intuito de estudar e ler um pouco – coisa que a minha nova vida de gremista e traça arrumadora de livros empoeirados e nada higienizados não mais permite.
Hoje eu ouvi Debussy. Ao som da flauta transversal de um garoto chamado Rafael, que não parece ter mais do que quinze anos de idade. Eu tinha um ano a menos que ele quando sai da escola de música sem nunca ter aprendido sequer um trecho de um tango de Piazzola, que dirá…! Mas estou sendo injusta, completamente insensata, ao tentar aliviar minha culpa. Nunca fui uma boa flautista em meus três anos de iniciante. Mas devo àqueles estudos o meu atual bom gosto para a música e a minha capacidade de reconhecer – em um auditório de biblioteca – as frases codificadas em partitura, notas diversas, um pouco da sutileza impressionante de Debussy.
Não posso dizer muita coisa com relação ao grêmio. Tantas águas rolaram, houveram tantas pedras no meio do caminho (no meio do caminho haviam tantas pedras!), que até Drummond se utilizaria de uma frase de Clarice Lispector: “A vida é inenarrável”. Eu apenas afirmo como fez Lermontov em momentos tediosos: “A vida é um gracejo vazio e estúpido”. Mas como eu não posso viver sem um bocadinho de prosa, adianto que passei três meses conturbados – sem comer, sem trabalhar, sem estudar e sem dormir direito – a minha carência afetiva era, na verdade, ausência de rotina. Quebrei aquela que muitos querem ferir ou fugir, fui mais além do que o meu próprio corpo poderia suportar. Aguentei brigas, choros, explosões de raiva, estratégias, manipulações e, Deus meu, nunca fiz tantos cartazes em toda a minha vida! E, no dia da contagem dos votos, à favor da chapa que montamos – vitória esmagadora – ainda assim não senti tranquilidade. Os problemas só começarão daqui para a frente: É um colégio, afinal, enorme, já foi o maior colégio da América Latina; ainda preciso recuperar notas das aulas que perdi; preciso fazer um discurso para o dia da posse… Preciso, além de tudo, voltar a escrever. Cansaço mental é até sugestivo.
Pode parecer pouco, mas os fatos já se complicaram por já estarmos em Novembro e, mês que vem, mais um ano de curso acaba para que outro venha em março de 2010. Uma década termina. Eu, com quase vinte anos já não planejo fugas, saio de casa em janeiro para dividir um apartamento com amigos. Isso já é certo. Preciso apenas de um trabalho. Faço curso de empregabilidade e tecnologia, talvez não me seja tão difícil conseguir um.
Vou para Minas muito em breve. Ouço Debussy. Camaçari Primeiro. Trata-se de um congresso de grêmios estudantis. Leio Saramago, um maravilhoso narrador. Descubro em Graciliano Ramos tanto Angústia quanto Insônia. Antes, eu o recusava. Mas não é tão ruim quanto o estereótipo que lhe deram. Cem Anos de Solidão mudou a vida de um amigo meu, mudou a minha, pode mudar a sua – simplesmente deixei de me preucupar com algumas coisas, a vida segue e é breve, logo, ouso recomendar (o livro e a filosofia). Ouço Debussy. Me pego questionadora, me pergunto “por quê o céu e azul?” e por qual motivo eu não consigo gostar de Crepúculo e toda a epidemia de literatice, enquanto minhas amigas se deliciam com a história de um amor tanto clichê quanto impossível – é que  elas ainda não quebraram a cara com a vida, tá explicado. Ouço Debussy. Preciso fazer um resumo de Química, preciso fazer um trabalho escolar sobre a ditadura militar, de 1964 à 1985, individual e manuscrito. Lembro de 1968, tenho um projeto de livro com relação a este ano. Leva muita pesquisa, mas não tanto tempo. É um projeto prático e literário, na verdade. Não deve demorar tanto. Ouço Debussy. Meus amigos, não vejo a semanas. O dos olhos azuis é o que mais me visita, é o que mais me diz verdades face a face, apesar do pouco tempo que me conhece, mas eu gosto de gente sem-vergonha e, por ora tão sutil. Estou aprendendo a ouvir críticas, me avaliando, retirando delas algum aprendizado. Só não sei ainda fazer o mesmo quanto a mocinha exagerada, de olhos de jabuticaba, que muito fala, mas pouco ouve. Porém, é a minha melhor amiga. Ouço Debussy. Ouço Djavan “sair do nada dos meus horizontes”. Nada ouço do Caetano, seu disco outonal é sinônimo de verão, mas estou pouco disposta. Ouço a diretora ordenar: “Põe a farda, menina”. Amo aquele colégio, mas o meu patriotismo não chega à tanto. Ouço o cair de pratos, as brigas deles e a ameaça de separação. Ouço, mas nada tenho a ver com isso. Estou muito mais egoísta, importa meu futuro agora, mas por enquanto, ouço Debussy.

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13 respostas em “Ouço Debussy

  1. Se ausência de rotina te quebrava, talvez à mim, servisse de conserto>.<

    É legal como o tempo pode ser legal com alguns e mal com outros…no final, é básicamente tudo sobre administração das próprias oportunidades e experiências, né?

    Falando em administrar, bom mandato^^

    [Abre parênteses.](Quem gosta de Iron Maiden também gosta de KLB.Quem gosta de Debussy também gosta de Kenny G.)[Fecha parênteses.]

  2. Acho que nunca ouvi Debussy!
    Admiro o jeito como escreve e as palavras fluem.
    Sinto orgulho em dizer-lhe que sinto os mesmo sentimento que voc~e em relação á Crepúsculo.
    E feliz estou porque voltou a escrever.
    Se cuide. Boa sorte com as provas e trabalhos.
    Kiss e boa semana.

  3. Ninaaaah!
    Eu morri anteriormente, mas agora ressuscitei e hoje vivo por amor.

    Fico feliz que tenha voltado a postar.
    Nunca ouvi Debussy, mas me deliciei com suas palavras que correm naturalmente.
    Leio, que nem sinto a extensão do texto, mas sim procuro extrair sentimentos e aprendizados de cada palavra.

    Te desejo força, persistência e descaramento para continuar aguentando toda a correria e lutando pelo o que quer.

    Espero uma nova postagem em breve, viu?
    Beijo grande.

  4. Que bom que pôde postar!
    Geralmente, quando alguém some do blog é porque está preocupada com muitas coisas e cuidando do próprio futuro. Parabéns pela vitória esmagadora, viu?! Espero que tudo o que alcançar te faça feliz e realizada!
    Nunca postei nada ouvindo música, a não ser quando o post era uma música. Eu gosto de Debussy! Ainda não li “Cem anos de solidão”, tenho que ler.

    Obrigada por sua cia!
    Beijos

  5. Ahhh que linda, está de volta!!
    Minha amiga.. ontem queria ter aparecido pra retribuir seu comentario e comemorar o retorno como se deve aqui… e deixei pra fazer td na parte da noite, com a vida mais calma… em paz…. leve!
    E não deu, pq veio o apagão!
    Então to por aqui apenas hj…. e não, não estou ouvindo Debussy.
    Mas é engraçado, ouço desde sempre… conheci faz tempo, bem antes dele aparecer em filmes ou ficar conhecidão.
    E tem horas que realmente eu ouço.
    Enfim mas o que é preciso comentar é que valeu a pena demais ‘esperar’ teu retorno.
    Vc está ainda melhor e com o talento de sempre ao msm tempo pra escrever e envolver com suas letras e pensamentos!
    Adoro.. simplesmente me perco… e vou ouvir mto Debussy hj na hora de criar!! Beijooo

  6. oi nina vi um coment seu no blog da anne.Sabe, peço desculpa por nao poder comentar com fluencia em seu blog. Mas sao as precisoes do destino. Muita coisa mudou, vejo que vc continua escrevendo belamente e contando com entusiasmos sobre sua vida.
    Te desejo sorte.e por favor, nao se esqueça de mim.

    Sobre as tarefas de bibliotecária. Bom… nossa quanta inveja viu… tudo que eu queria… tudo…

    beijao

  7. Olá…
    Parece obra do destino,também tenho visitado seu blog. mas sinto um grande responsabilidade ao comentar sobre, seu blog nao é qualquer blog e passar por passar me deixa um pouco descontente comigo mesmo.
    Fiquei muito feliz com a sua passagem, estou feliz em saber que deve a dedicacao de ler parte do que escreve (o que pra mim é muito imporante, pois nao importo se ninguém venha ler, mas visto que voce leu, fico feliz!!!)
    Bom… é sempre bom saber por onde anda os velhos amigos, e pode acreditar você é minha amiga, pois tenho uma consideracao muito grande por ti.
    Mais uma vez lhe desejo sucesso…

  8. Realmente, fazia tempo que eu não vinha aqui também.
    Nunca gostei de me envolver nesse tipo de coisa, sabe? Até tinha vontade, quase arrisquei ser representante de sala uma vez, mas é muito estresse para pouca coisa, na minha opinião.
    As pessoas cobram como se fosse sua obrigação, dependendo do caso, às vezes esquecem que você está ali fazendo um favor e não que é empregado delas. Uma amiga na faculdade fazia parte da comissão de formatura e vi o estresse que era.
    Bjitos!

  9. que bom que voltaste…
    estava com muuuitas saudades de teus textos!
    *-*
    que continue a blogar.
    =*

  10. Na verdade, eu gosto de rotina. Consigo ficar uns 9 dias sem ela, depois disso eu já começo arquitetar todo o meu tempo com muita antecedencia. Eu continuo recusando Graciliano Ramos, acho um pouco dificil de entender, mas quem sabe um dia quando eu já tiver uma grande bagagem literária eu mude de ideia. Tenho vontade de ler “Cem anos de solidão”. Eu te respondo pq vc não consegue gostar de Crepúsculo? Vc já deve ter lido livros demais e com qualidade. Eu tb não gosto de da série vampiresca.
    Gostei muito do seu texto, vc escreve muito bem!

  11. Voltou com um desabafo. Voltou com o verde, cor da germinação. Voltou com Claude Debussy, que no seu texto é tão somente uma metonímia, evocando todos os bons como Amadeus, Ludwig, Pyotr Ilyich Tchaikovsky…

    Ouçamos todos Debussy!

  12. Ah, Nina, que saudades que eu estava das suas crônicas, de saber das suas opiniões literárias misturadas com reflexões incrustadas em gotinhas de dia-a-dia, que saudade!
    Espero que tenha voltado de vez, ouvindo Debussy ou não.
    beijos

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