Você

Me cansei de vocês e de tudo aquilo que ainda nem começei. Me cansei das conversas e conselhos de um, dos exageros da outra e da falsa centralidade daquela. Me cansei porque tenho me consumido e me absorvido desse amor estranho, este desgovernado incesto, esse quadrado amoroso, que me faz querer afastar-me e estar perto de vocês ao mesmo tempo e em sentido contrário.
“Bacanal!” – Exclamei em nossa primeira conversa. E você adorou minha idéia de “novos-caras-pintadas” e o fato de que ouço Caetano. Não confiei em você em momento algum. Pela militância e pelos olhos azuis também. A minha querida Jane Bennet/Elinor Dashwood confiou-lhe até os escritos de seu mais recente livro fictício que está sendo passado à limpo; e a adolescente vulgar obriga-o a dizer que a ama todos os dias. Você, maldito, já viu em mim características que ainda não pude enxergar. E talvez eu realmente me subestime e me culpe pela existência de enes problemas entre Deus, o mundo e o espaço dentro e ao redor de meu umbigo, abaixo de meu nariz. Adorei suas verdades, ultimamente, tenho aproveitado críticas (e isso não é ironia).
Ou talvez eu tenha me cansado de mim mesma, desse meu falso moralismo antiquado. Estou, na verdade, me achando e me sentindo insuportável, tendo aversões às versões de mim – eu que tanto sou várias dentro de uma só. Estou fora de si, ou fora de mim, porém, dentro de mim mesma, quero me virar do avesso.
E agora, danado, viajaremos juntos. Será muito melhor do que aquele dia em que deixamos o cineminha de lado para deitar e rolar em grama de espaço público, sem ter medo de sentir felicidade. Mas eu quero só ver quem agüenta e quem se descontrola, guri. Eu não posso mais com tanta responsabilidade, nem com a cobrança da mesma. Quem me subestima são eles, “o inferno são os outros”, disse Sartre, certa feita em que não regulava muito bem da cabeça. Agora, a sua entrada não é mais permitida aqui, precisamos de outro ponto de encontro para os nossos devaneios e eu sugiro a pracinha com vista para o mar, que fica depois da casa da moça obra de Da Vinci.
Cara, que inferno. São os outros? Eu não sei. Talvez o problema seja mesmo comigo. Essa porra desse grêmio têm testado os meus limites de tempo, espaço e paciência. Um dia, eu explodo e tudo se esgota. Mas no momento, não devo desistir. Você quer montar uma república, só vou morar contigo porque sabes cozinhar. Porém, não pense que irei lavar tuas cuecas – afinal, eu não queimei sutiã em praça pública na outra vida para ser hoje sua escrava – nem putas, nem submissas!
Eu comentei que morreria na frente de um fuzil, com uma tulipa na mão, se for possível. E provavelmente será, sendo eu sua amiga e com o espírito libertário que tenho de quem adora arrumar confusão. Aquele idiota do turno da noite me tira do sério, não ouso dirigir-lhe a palavra; lembra daquela briga/escândalo que tivemos na frente de todo o colégio? Sou eu a mais nova “barraqueira impulsiva” do ambiente.
Talvez eu perca de ano ou fique na recuperação de alguma matéria de Informática, isso já é certo. Não há nada nem ninguém que me sirva de consolo. Meu emprego de bibliotecária já era, podes crer. Vejo um bando de gente alienada cobrando o que não deve. Acho que vou “reinar” sozinha. Acho que vou fazer tudo sozinha. Isso é Lei de Murphy, fatalismo. Destino previsto e declarado anteriormente. E sem muito alarde.
Tá bom, não sou conformista. Mas aí também seria o sujo falando do mal-lavado. Ora, quem você pensa que é? Somos idênticos, esqueceu? Das três, sou eu quem possuo o mesmo espírito de “não tenho medo de morrer” e “pra não dizer que não falei das flores”. Ou seja, você é a mesma coisa, com um pouco mais de experiência e conhecimentos. Mas não, eu não vou me filiar ao seu partido, me deixa fora disso ou eu te “xingo” de comunista.
Vai embora logo que eu já não agüento mais essa tua infantilidade tão amadurecida. Você precisa apenas tomar um sorvete, na lanchonete, andar mais com a gente, para me ver de perto, enquanto ouvimos uma canção da Gal ou do Roberto. Baby, apenas finja que nada disso aconteceu.

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14 respostas em “Você

  1. a gente sempre cansa de tdo, até de respirar.Mas é tão óbvio que acabamos fazendo tudo de novo.
    (linkei voce ♥

    bejoos

  2. Nina,
    Fico tão feliz de poder voltar aqui frequentemente pra ler esses seus textos, sempre tão sensíveis e ao mesmo tempo cheios de uma “raiva”, por assim dizer, que parece ressoar nossas próprias frustrações em relação ao mundo, sempre com uma autoironia incrível e recortes de poemas.
    “Ou talvez eu tenha me cansado de mim mesma, desse meu falso moralismo antiquado. Estou, na verdade, me achando e me sentindo insuportável, tendo aversões às versões de mim – eu que tanto sou várias dentro de uma só. ” Me identifiquei muito!
    E simplesmente adoro a música do finalzinho.
    Um beeeijo!

  3. Oi Nina… puxa vida, vc sempre consegue colocar uma dose de intensidade em suas letras que parece ser possível sentir vc falando frente a frente… olhos nos olhos, com respiração ora pausada, ora acelerada…
    Não sei bem o que comentar sobre tudo q vc escreveu mas fica sempre na minha cabeça uma coisa… que devemos tentar ser pacientes antes de qualquer coisa na vida!!!
    Obrigado pela visita e comentário…. te admiro demais viu!!
    Bjos.. se cuida!

  4. “(…)tendo aversões às versões de mim.”

    Adorei.

    Adorei a intensidade em cada palavra expelida aqui. Você é boa!

    beijos.

  5. Oi Nina!

    Nina, quando comecei a ler seu testo pude imaginar as palavras, e vc falando em praça publica de forma revolucionaria mudando nao o mundo mas a mante daqueles que vivem aliernados.
    De fato, uma biblioteca nao é o suficiente para saciar sua habilidade de inventar e criar. Talvez, vc possa se aliar um partido politico maior, bem maior que o gremio. uma coisa que sempre gostei em vc; sua autenticidade que sao bem vista em suas palavras.
    ah! obrigado por ser minha amiga. No post anterior no qual me referia aos poucos amigos que ainda me restam mas que nao podem fazer nada por estarem longe, estava pensando em vc.
    Temos uma alma literaria que poucas pessoa nao entendem. somos artista da vida, e mesmo assim, nao recebemos a justa recompensa. ou recebemos mas ainda nao as notamos por estarmos tao injustiçado com tudo.

    beijao… e até logo!!!

  6. me cansei de mim, do meu falso moralismo antiquado. me achando e me sentindo insuportável (eu mesma não to me aguentando). nada mais me consola – mesmo, (nem um bom pedaço de torta com refrigerante, ou um tablete de chocolate). (Ser cult é tão difícil, que vou voltar a ser uma qquer alienada, mas eu sei que não vou ser mais feliz.)

  7. [eu falo “cult”, pensando em pessoas que não são diferentes por serem, ou por moda, etc, mas por ideologia.]

  8. Não sei se entendi mas às vezes eu também me canso e tenho aversão às minhas versões… e sinto isso pelo outros também.
    Fingir que nada acontceu… não sei se consigo.
    Você e seus textos, eu e minhas leituras! ;D
    Kiss

  9. Nina é uma flor, sou sua fã, juro que sempre que to na bad e venho aqui e melhoro… é mágico, super compreendo tudo o que fala e tomo como exemplo e vejo que não estou pirada auhauhauha.
    :x
    beijos
    bom fds florzinha.

  10. Gostei muito. Me vi em vários trechos, principalmente quando você diz que as vezes tem aversão de você mesma, de uma das tantas Ninas que existe dentro de uma só. Sei bem o que é isso.
    E “Baby” é uma das mais lindas canções nacionais que eu já tive o prazer de ouvir.
    beijos

  11. Pingback: Minas com Bahia « sobre fatalismos

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