O espelho da dor expressada – Breve estudo sobre a arte de Sophie Calle

Eu deveria publicar esse texto logo após o meu comparecimento a palestra e a exposição mas, com tudo o que me ocorreu, foi praticamente impossível publicar essa meu “treino de reportagem” na data prevista. Em todo caso, aqui está.

sophie
Sophie Calle

A pergunta foi: “Como você se sente usando a dor das pessoas para expressar a sua arte?”, a resposta, já nem lembro. A pergunta, indiretamente, veio até mim.
Sophie Calle havia sido a palestrante daquela noite. Fez o Teatro Vila Velha lotar de jornalistas, escritores, alguns músicos, estudantes de Belas-Artes e outros tantos curiosos, como eu, que lá estava.
Sophie me pareceu comum: Uma francesa de meia-idade, cabelo curto (tipicamente francês), roupas leves e de cores claras. Sua esperteza estava nos olhos – janelas da alma que tudo expressam. Vi ali as respostas verdadeiras de tudo o que ela respondia com certa ambigüidade. Estava ali a artista que se mostra de forma infinitamente pessoal, mas que se embaraça facilmente, que procura não responder “aquilo que não interessa ao público”. Mas aquilo que Sophie julga não nos interessar, certamente é a intimidade de sua arte. Logo, aquela palestra fora desnecessária – Sophie não precisava dizer o que é obviamente explícito, ela não precisava se desviar de perguntas que malmente se acostumara a responder. Todos sabemos, que uma pessoa que utiliza a arte para expressar a dor, nada tem a dizer, apenas aponta aquilo que se pode enxergar.
A exposição Cuide de Você é terapêutica e vingativa, apesar de Sophie ter negado. Toda a arte dela, de caráter experimental e inovador, tem por intuito tocar na ferida íntima e adormecida do expectador, ela quis trazer o intocável que quase caiu no esquecimento.  Sophie Calle é esperta o suficiente para saber a dor que provoca nas pessoas.
Falou sobre a sua trajetória enquanto artista, que resultou na pergunta inicial do texto. Suíte Veneziana (Suíte Vénitienne, 1979), tratava da perseguição que ela fazia a um homem. Em A Perseguição (La Filature, 1981), a própria Sophie teve vontade de ser perseguida – pediu que a mãe contratasse um detetive para faze-lo. Caderno de Endereços (Lê Carnet d’Adresses, 1983), é uma série de entrevistas que Sophie fez com pessoas listadas em uma agenda telefônica que encontrou na rua. Enquanto falava com essas pessoas, tentava construir o perfil do dono da agenda e publicava tudo em um jornal. O perfilado involutário ameaçou processa-la. O Hotel (L’Hotel, 1983), foi o disfarce de camareira que a artista fez em Veneza, trabalhou em um hotel de luxo, onde esteve a fotografar os quartos, os pertences dos hóspedes e até o lixo que produziam. Dessa forma, tentava imaginar como eram, como viviam e como se relacionavam aquelas pessoas. Sem Sexo na Noite Passada (No Sex Last Night, 1992), é o convite que a artista fez ao namorado Greg Shephard, “com quem já mal falava”, a viajar em um carro por quase todo o Estados Unidos, com a intenção de fazer um filme. Ambos utilizaram câmeras separadas e expressaram seu ponto de vista sobre aquela relação quase que inexistente. Quarto com Vista (Chambre Avec Vue, 2003) é a história de uma cama instalada no último andar da Torre Eiffel, onde ela passou, em claro, a noite da primeira virada cultural parisiense. E essas são apenas algumas das mais interessantes exposições de Calle, das quais ela falou em sua palestra.
Aqueles que Dormem (Les Dormeurs, 1979), exposição que julguei mais ousada, trata-se de 28 pessoas que Sophie convidou, ao acaso, para dormirem em sua cama, em turno de oito horas, por uma semana. Enquanto esses homens e mulheres dormiam, ela os fotografava. Não resistindo a isso, precisei fazer uma impertinente pergunta, durante a palestra, na frente de todos, que era exatamenre assim: “Quem você levará para a cama hoje, Sophie?”. Ela sorriu, assim como todos os presentes, e respondeu que voltaria sozinha para o hotel, mas chegou a me convidar para ir junto, ao que eu respondi: “Então, combinaremos melhor lá fora”. A platéia riu de contentamento.
Aquela noite encerrou-se com Impossível Capturar a Morte (Pas Pu Paisir La Mort, 2007), quando Sophie decidiu filmar onze minutos da morte da mãe, porque ouviu dizer que os parentes doentes costumam ir embora nos intervalos em que seus familiares se ausentam. E Cuide de Você (Prenez soin de Vous, 2009) foi a exposição que inaugurou no dia seguinte. Que trouxe a carta de rompimento que Gregóire Bouillier escreveu, como ponto de partida para a exposição. Sophie convidou 107 mulheres: Atrizes, atiradoras, dançarinas, escritoras, cantoras, palhaça e até papagaia, para interpretarem a carta que ela recebeu. Houve quem rasgasse a carta em pedaços, quem a transformou em partitura, sistema binário, palavras cruzadas, jogo de xadrez, ballet… Um enorme jogo de criatividade esteve em foco nessa exposição que não foi feita apenas por Sophie e suas 107 personagens – mas também pelo público, homens e mulheres de idades diversas, que puderam sentir o que Sophie sentiu. Quando se chega ao Museu de Arte Moderna da Bahia, o visitante recebe a carta traduzida e senta-se em um banco para ler a dita cuja. Enquanto isso, o chão vibra. Um efeito que caracteriza o sentimento da artista no momento em que esta leu a carta, pois sentiu o chão tremer e o seu mundo cair.
Cuide de Você é frase irônica de efeito e também é um conselho. É a forma que Sophie encontrou para cuidar de uma ferida que quase todos nós já passamos e, por ser uma comum situação, pode-se dizer que ela utiliza a dor como a solidariedade que necessitamos. Então, respondendo a pergunta inicial: Ela não se aproveita da dor alheia para transformar tais vidas em arte – Sophie Calle me estendeu a mão para que, juntas, possamos compreender e cuidar uma da outra. Cuide de Você, até que enfim esta frase faz sentido de novo.

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13 respostas em “O espelho da dor expressada – Breve estudo sobre a arte de Sophie Calle

  1. gostaria de ter visto essa exposição e ver como ela abordou a temática da dor.
    Deve ter sido fantástico…
    Fcio aqui na vontade!
    ;)

    beijos

  2. lembro do dia q teve essa palestra, e q vc me perguntou se eu tinha ido, algo assim… lembro tb q tinhas dito q fostes dormir com ela rs. e lembro q bem antes de lançada a exposição você já havia escrito sobre ela, há muito tempo.

    acho bem interessante, toda a questão da ressignificação. q foi o que ela fez nessa exposição.

    Cuide de você é uma frase linda, e ela faz efeito. Eu sempre pensei assim… naqueles momentos em que não tinha mais ninguém pra cuidar de mim.

  3. Ah!
    Tb odeio sapato, odeio gente chique, odeio gente pop, gosto de gente que anda de chinelo. rs
    Danço remexendo o corpo. Nao sambo, não sei fazer nada de mais. Mas danço do meu jeito. E gosto!

  4. Ah, como eu gostaria às vezes de estampar minha dor para que os outros a entendam e a dimensionem…
    Mas mesmo que chame mil pessoas para interpretar minha dor, ainda continuará sendo minha e doída, talvez, só pra mim. ;)
    Bjitos!

  5. Só pelo seus relatos eu fiquei afim de ver esposições dela.
    Eu acho maravilhoso esse tipo de criatividade e soltura de sentimentos, capazes de nos fazer ver coisas que já conhecemos de um jeito diferente … curioso.
    Kiss

  6. Além de ser mais gostoso, ser sistemático mesmo quando se faz arte é bom; saber exatamente onde você quer atingir costuma machucar (ou curar) com bem mais velocidade e eficácia.Apesar de a dor(assim como a felicidade ou qualquer outro sentimento) ser de certa forma inexplicável e intransferível, dá-se para ter uma breve noção das coisas quando mostradas com a aparente eficácia que essa moça faz.Me interessei, vou colocar procurar por aqui.

    Cuide de você.Não só de você, mas principalmente de você.

  7. Poxa, adorei seu texto! E a Sophie Calle parece ser uma pessoa q vive mt intensamente sua vida. Todo trabalho dela envolve muito sentimento. Eu vi o site dessa última exposição dela, mas não vai dar pra eu ir. Ela não vem à minha cidaade.

  8. Fiquei me imaginando observando e fotografando 28 pessoas diferentes dormindo em minha cama!!

    A obra dela parece ser interessantíssima!
    bjs

  9. Nina, que tino pra jornalismo cultural que você tem! Me deixou mordendo os dedos de tanta curiosidade para conhecer mais dessa incrível artista, que parece que adora abordar em seus trabalhos diferentes pontos de vista acerca da mesma coisa. E esse trabalho da agenda telefônica? Achei INCRÍVEL!
    BEIJOS

  10. menina nina , que amava vovo vivi
    me perdoe o longo tmepo de silencio deixe no meu e mail uma mensagem, ou no orkut. QUe lhe mdigo oporque desse silencio quase espectral.
    me perdoe viu.
    Mas não esqueci de suas cartas
    nem as do Vidal
    fico feliz que você continua a escrever

  11. Seu ultimo parágrafo , para mim, traz aquilo que a Arte, de Walter benjamin à Theodor Adorno, diz, nosajudaa entender melhor nós mesmos. Uma vez eu vi uma entrevista com Drummond, onde ele comentava como uma pessoa que se identificou com a dor descrita em um dos seus poemas, se sentiu ao perceber tal identificação. Aquilo lhe fez bem. A arte, quando é feita para comunicar, para dizer a todo mundo (como Drummmond bem disse: “Por isso me dispo/ por isso me grito/ por isso gosto tanto de me contar: preciso de todos”) aquilo se se sente, apenas por dizer faz isso: faz olharmos a nossa dor no outro, nossa esperança se dilui na necesseidade de todos e a nossa vida, num estalo , se torna muito íntima e ao mesmo tempo coletiva, pois muitos passam por aquilo que você passa também.

    A arte , menina Nina, só é arte ,porque faz isso: olhamos na percepção do outro, traduzida em linguagem, aquilo que para nós é amargo, expectante e indizível.E quando isso acontece nasce “o belo”

  12. Essa Sophie me intrigou.
    Queria ter estado nessa exposição.
    Deve ter sido, no mínimo, interessante.
    Vou procurar mais coisas sobre ela.

    Muito obrigada pelos comentários, viu? Fico muito feliz de te ver no Sacudindo Palavras.
    Beijo, Nina ♥.

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