Minas com Bahia

“Todo caminho é para dentro. Todo caminho é absolutamente para dentro e isso não se discute, eu não discuto, eu me recuso a perder tempo ruminando contrários. Foi bom ter sido difícil como foi, porque é, e por ter sido penosamente difícil como é que pude chegar ao lugar onde estou, justamente à estrada por onde eu vou, o caminho exato que devo seguir se eu quiser compreender clara e profundamente quem sou eu, e eu quero.”
:: Do livro Bebo Chá Enquanto os Patos Grasnam, de Leida Lusmar.

“A vida é inenarrável” – até esse certo ponto eu concordo. As paisagens, manequins que posam nuas para as lentes fotográficas, janelas desse ônibus (janela da alma, olhos), também são inenarráveis. Mas como sou eu cronista, cronista amadora (e egoísta), é de minha função narrar o tempo, a estrada, o sol que malmente nos acompanhou. Companhias certeiras foram, além dos amigos e do rapaz que toca violão – Drummond, Sabino, Rubem Braga, Mendes Campos e até Mário Prata. Eu estava indo para a terra dos nossos melhores escritores e havia livros na bagagem pouca. Mal sabia que terminaria a viagem com a inglesa Jane Austen a me narrar todo um romance do tempo da regência. Presente dele. Livro que não vai para a estante, mas ficará guardado na Caixa de Lembranças – cápsula do tempo que mantenho escondida dentro do armário.
Minas, suas serras, seu frio que recorda a infância, seu verde esplendoroso, sua atmosfera límpida e rarefeita, suas placas que indicam um horizonte belo que nunca se aproximava. Seus retratos invariavelmente variáveis, seu suplício incessante de retrospectiva. Tudo bem, eu faço. E nem me dei conta do quanto esse ano me foi importante, do quanto conquistei, do quanto lutei, das pessoas maravilhosas que conheci e de como aprendi a confiar. Do meu empenho. Mudei tanto interiormente que isso, de alguma forma, se refletiu aqui fora. Olhos Azuis que o diga. Evoluí, assumo. Cresci. Não permito mais que me digam mentiras, que me prometam falsos amores para errar depois, como sempre. Trato justo comigo mesma. Agora posso me dedicar livre e espontaneamente a quem me ama de verdade. Eu retribuo. Essa estrada, na verdade, levou-me a esse encontro que não fora acaso como quando eu encontrei seus escritos certa vez e pude me apaixonar, enfim. Sou eu correndo atrás de quem eu quero.
Meu ano ímpar se faz presente de janeiro até agora enquanto ainda é madrugada. Se o pôr-do-sol da Bahia é um dos mais belos do mundo, o nascer do astro-rei em Minas Gerais é simplesmente divino, maravilhoso e inacreditável. Detrás da serra, ele surge, tão sutil, anunciando nossa chegada. O céu de lá (daqui?) é repleto de segredos, surge anil, mesmo que tons de laranja e lilás se aproximem. Aquarela. A brisa é leve e o frio aquece. Olhos Azuis senta ao meu lado. Seu sorriso é o nosso bom-dia mútuo. Ele elogia a vista, eu concordo, alguns acordes de violão se fazem presente. Nossas mãos estão frias. Atemporal, paradoxal. Assim é Minas.
Belo Horizonte é de manhã cinzenta, lembra São Paulo. E no entanto, ao longo do dia, torna-se parda, dourada, outonalmente esverdeada – mesmo sendo quase verão. São os olhos da minha avó e outros resquícios da infância. Estranho. Nunca estive aqui e parece até que conheço! Árvores diversas. A natureza é o charme principal.
É domingo. Talvez, por isso, a cidade pareça de província ou regência, em alguns aspectos. Monótona, aparentemente. Tranquila com certeza. Engraçado, sempre tive vontade de conhecer esse lugar de nome bonito, presente na biografia de tantos escritores brasileiros, agora até possuo motivos mais fortes para aqui estar. Não me arrependi. Belo Horizonte é um quadro de Van Gogh. Tinta, óleo e carvão. Cores vivas, de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores.
O ar puríssimo, o frio torturante (para uma baiana, assim foi), um encontro (há muito esperado e, como previsto, em dezembro). Os sorrisos, as lágrimas nos olhos azuis de outra pessoa que ouviu de mim algo importante, a trilha sonora (Cazuza, Legião Urbana…), o espírito e a típica agressividade adolescente, o tédio em confronto com a serenidade. Não, não haverá momentos assim, nem lugar como esse. Essa saudade verde, dourada, parda e cinzenta. Esse declínio suave de leve percepção que é a volta. A vida real, o eterno domingo que é finito e o caminho que deixamos para trás.

“No meio da rua
Lá de longe eu vejo
Minas com Bahia
E o samba ía
Juro que ía…”

:: Minas com Bahia – Chico Amaral

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5 respostas em “Minas com Bahia

  1. Oiee Nina!
    Olha eu aqui comentando dois em um!
    Primeiro este… aliás, quase nada a comentar a não ser o desejo latente de me mudar pra bela cidade mineira de nome Belo tb! De Horizonte feliz!!! =)
    No mais.. texto irreparavel… prende, conquista, energiza.. dá vontade de ler mais! Pra variar vc com este poder de combinar sensações e emoções apenas usando palavras e letras mto bem pensadinhas… adoro isso!
    O post ali em cima .. do Natal.. ah sinceramente eu amo o Natal justamente pq não vejo como a festa do consumo!
    O Natal de papai noel eu aceito mas pela mensagem.. adoro o clima, as luzes, a alegria q me vem ao coração ouvindo músicas e vendo sorrisos. O lado desesperado das pessoas … de gastos, comércio excessivo e loucuras eu passo!
    Feliz Época de Natal pra vc minha amiga blogueira maior!

  2. Daniele, te ler nos faz viajar. Coisa linda essa tua fragrência suave depositada na maneira doce de descrever as sensações. Minas tem uma magia encantadora mesmo. Algo infante, inocente. Tão bom.

    Pelo visto acertei o fato de que tu fosse encontrar alguém que ama. Não posso agir de outra maneira, a não ser ficar imensamente feliz por ti. Fico feliz.

    Bem, tenho que discordar de um fato, o pôr-do-sol da Bahia é lindo, mas o mais belo do mundo é o pôr-do-sol no Rio Madeira, aqui em Porto Velho (rsrs).

    Quanto ao natal, compreendo bem o que dizes de ser uma época de imenso capitalismo. Isso também me deixa triste. Por isso também não vejo a hora de isso passar. Em compensação, temos que reconhecer que em alguns aspectos é positivo. Cria uma sensação de união com a família, que você jamais vê no ano inteiro. Você não pode gener, por mais que existam os loucos capitalistas, também existem pessoas que tomam atitudes reais, sinceras e de coração. São essas pessoas que agem assim o ano inteiro, não apenas no Natal. Ao invés de pensar nas pessoas hipócritas que vivem (e não são poucas), prefiro lembrar das que realmente tratam a data com uma importância substancial na vida de cada ser humano.

    Espero contar novamente com a sua presença no meu blog, agora que voltei.

    Beijos Nina, Feliz natal pra você.
    Te adoro!!

  3. Quero saber quando você vai deixar de ser uma controladora mimada que não me deixa aproveitar minha jovem vida!

    Tou brincando.

    Aquele texto realmente se trata de uma amigo, sério mesmo.

    Aquele site é o da moda, onde vc faz um cadastro e qualquer um chega e te faz uma pergunta, você responde e as respostas ficam em seu perfil, sem falar que você pode perguntar pra outras pessoas tbm!

    Olhou o blog comunitário? Um Oscar Por Mês?
    —————————————————————-
    http://duventublog.blogspot.com/

    Levi Ventura

  4. Apesar de tantos amores e de tanto quanto amo essa cidade, o calor em BH me faz vislumbra terras ao sul. Curitiba ou Foz, não sei. Qualquer que lugar que me deixe mais perto de minhas origens. Quero voltar tanto quanto quero ficar.

    E de um domingo que se passou, passam tantas coisas em mimha cabeça que não sei o que dizer. Alguma coisa ficou no ar, sem ter uma resposta e uma proposta pra se entender. Não rezo ao tempo, espero do vento a promessa de dias melhores.

  5. Nina! Temporada boa. Guardaste na lembrança, no coração, gravaste na alma. O tudo.

    Viagens assim servem pra a gente rever muita coisa, pra a gente perceber muita. Tem coisas que só nos damos conta quando estamos longe.

    É isso. Um beijo.

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