O Último Pôr-do-Sol

“A onda ainda quebra na praia,
Espumas se misturam com o vento.
No dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
pensando nós dois.”

:: O Último Pôr-do-Sol – Lenine.

Observo o último pôr-do-sol do ano enquanto relembro que amanhã já é o futuro. A areia da praia é tão macia, meus pés afundam. O mar, bem ali, adiante. Eu aqui, como mera observadora, eu que já quis ser pirata, até.
2010 representa a primeira década deste novo século. Farei 18 anos, enquanto a maioria de meus amigos fará 30. Idades importantes se aproximam. Ficarei mais responsável e vou me despedir da adolescêncoia – mas só na teoria. Na prática, meu ano será atarefado. Terminarei enfim meu curso técnico de colégio, com o estágio (assim espero); farei outros cursos paralelos e responderei aos adultos com frequência a faculdade que pretendo fazer, justificando-me, naturalmente.
Estou na antiga e desabitada casa que pertenceu aos meus avós paternos, nessa cidade que representou as férias de minha infância. Sim, eu tive infância, mas admito nunca ter sido criança. São paradoxos, eu sei. Na minha infância, fui uma mera aprendiz de adulta – até minha educação fora diferenciada, tentaram me alfabetizar em outro idioma, ainda que derivado do latim. Os amigos do meu bairro eram personagens de fábulas infantis, contos de Grimm, mais tarde Lewis Caroll e até Saint-Exupéry – um homem que viveu de solidão e construiu com ela uma amizade imaginária – Príncipe, e pequeno, eu diria. Além de tudo, eu sempre fui demasiadamente reservada, não falava com estranhos por ordens dos meus, nem tampouco com conhecidos, por obediência a minha própria consciência.
Na realidade, parei de me importar com tudo isso desde que dera meu primeiro beijo. Experiência dolorosa que me fez enxergar que jamais valeria à pena ser previsível ou como os outros gostariam que eu fosse, como querem que eu seja. Decidi agir por instinto, sem perder o bom senso. Mas eu vivo mesmo em estágios. E, da infância, não muito aproveitei, embora eu não tenha vontade alguma de retomar àquela época para fazer tudo diferente. Das personagens infantis, a mais amadurecida delas – Wendy – sempre me fascinou. Ela não era adulta, tampouco criança. E não sabia em que fase estava. E seu estágio era justo esse que atravesso agora.
Da adolescência só não passei por sexo e dogas (ainda) – embora o rock’n’roll atravesse de quando em vez nas estações de rádio. Minha primeira desilusão amorosa veio cedo, e cedo ela se foi. Fiz tudo assim, antes do tempo e, antes do tempo, amadureço mais rapidamente. Irei à fase adulta antes de minhas colegas de classe e tudo é, mais uma vez, questão de necessidade e instinto, à minha maneira, naturalmente.
O último pôr-do-sol é também minha despedida em diversos aspectos. E o início de passos que serão dados. Nunca vou deixar alguns de meus comportamentos dos dois estágios pelos quais passei – até agora. São muitos daqueles detalhes que me fazem ter esse brilho nos olhos, vez ou outra. Agradeço e ignoro muito do que vivi, apesar de não terem sido acontecimentos tão significativos para qualquer outra pessoa que não seja eu mesma – senhora da minha própria vida.
Presenteio o mar com um bouquet de lírios-do-vale. Essa calmaria em tons de verde e azul brilhante têm sido bastante paciente comigo, ao longo desses anos poucos. O sol vai embora. Devo voltar e vestir branco, ou côr-de-rosa.

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17 respostas em “O Último Pôr-do-Sol

  1. É assim então? Tu agora vai oficializar de vez o fim de sua adolescência? rs

    Bem nunca te achei tão adolescente, tampouco adulta. O pouco que sei é que tu sempre foi assim mesmo avançada rs

    Isso me preocupa um pouco, mas acredito que tu tenha dosado um pouco. O bom é não tomar uma dose completa de nenhum dos dois lados. Esse meio termo é positivo. Tu não deixa de fato tua adolescência, esse jeito infante, doce e menina, nem deixa de fato esse pensamento maduro que te faz uma pessoa com bastante bom senso.

    Acredito que tu não perderá tudo. E isso me tranquiliza. Porque te gosto e admiro assim, uma mescla dos dois.

    Estarei aqui presente, para comprovar as suas mudanças. E jamais lhe direi para que seja o que eu quero. Na verdade adoro esse teu jeito de ser. Ainda enfativo que tu jamais deva deixar de ser o que és e tudo que te faz de fato feliz.

    Bem, grande beijo no coração.
    Meu afeto sempre.

    :)

  2. Acho que ser senhora de si mesma é um ótimo caminho, mas amadurecer antes da hora nos rouba algumas experiências que a inocência permite. Não no sentido de sofrer e pagar pela inocência, mas na leveza da inocência, de não ver a maldade que, para mim pelo menos e às vezes, é muito pesada.
    Um ótimo 2010 para nós!
    Bjitos!

  3. Me vi um pouco nesse teu texto. Apesar de ter pulado, lido histórias infantis e passado intermináveis tardes vendo clássicos da Disney, sinto que nunca fui criança de fato. O engraçado é que agora que oficialmente posso me declarar não criança, sinto uma saudade enorme desses meus dias de fábulas e princesas, como se um dia eu tivesse vivido aquilo como minas amigas.
    Arrisco dizer que você pode se despedir dessa fase agora, e até viver outra que muito se difere desta, mas ela vai te acompanhar pra sempre.
    Ei, Nina, fiquei felicíssima de ver um agradecimento à mim no seu post de agradecimentos, feliz mesmo. Teu blog foi um belo de um achado, e eu não me canso de ler e reler teus textos que fazem as palavras parecerem infinitamente bonitas. Me deliciei com seu post sobre Minas, os adjetivos, as cores, me dei conta de que não conheço Belo Horizonte! Uma lástima.
    Enfim.
    Um bom ano pra você.
    beijos

  4. Voltei depois de uma longa viagem e achei esse seu blog que ja conhecia segui alguns passos e aqui estou cheio de novidades e desejos … feliz 2010 vc lembra de mim nè?

  5. Amadurecer mais depressa, para quem o realiza é motivante, mas para quem observa é preocupante. É ótimo estar no período em que ser adulto não nos fascina, mas atrai pelo desejo de querer ser ‘grande’. E estar na infância, ah, é incrível! É estar sempre no paraíso, se preocupando em quando o papai noel vai chegar… :)

    beijos e ótimo 2010!

  6. Belo texto, moça! Eu fui gostar de ler bem tarde. Os livros obrigatórios no colégio eram demasidado desanimadores. Tinha tanta coisa chata. E meus pais até q me incentivavam, mas era pra ler livros em inglês, o q pra mim era ainda mais difícil.

    Eu sempre fui criança e acho q serei eternamente imatura em relação a certas coisas. Meu pior defeito é a ingenuidade, o q tbm pode ser chamado de burrice às vezes.

  7. Ninaaaaaa!!!! Tinha um tempinho que eu não passava por aqui, mas hoje fiquei um tempão lendo diversos posts. Até fiquei sabendo que você esteve aqui em BH, veja só!
    E, pelo visto, gostou.
    Não sei se parabenizo pela maioridade que se aproxima. Só por formalidade, não farei. Ainda tenho dúvidas se é uma boa ser “de maior”. E, no seu caso, essas fases se entrelaçam, né?
    Mas, depois de tanto tempo, o que posso comprovar é que a senhorita escreve melhor a cada dia.
    O que é muito bom para nós, leitores.
    E um bjooooooo!!!!!!

  8. Olá! A primeira coisa que me encantou no post foi a citação da música do Lenine porque, bom, eu amo o Lenine, hehe.
    Achei lindo o que você escreveu, suas palavras se mostraram muito preciosas.
    Eu tinha muitos amigos imaginários e os livros era meus amigos também, mas quando a minha irmã chegou, pude ser criança de fato.
    Aproveitei a minha infância, tenho vontade de voltar no tempo, sim, por causa da falta de preocupações e da inocência que se não perdemos normalmente, nos é roubada quando crescemos.
    Enfim, belíssimo post. Adorei mesmo! Espero que seus caminhos sejam bonitos e que você cresça cada vez mais os percorrendo.
    Beijão =*

  9. adoro pôr-do-sol…adoro mesmo.
    Acho lindo, indescritível…

    Que esse novo ano te presentei como por-do-sol lindos…
    ^^

    p.s: o lay ficou ótimo… ;)

  10. Nina.. é estranho isso… apesar de saber que vc ainda é bem novinha … ler que tua idade é 18 sempre me espanta.. Talvez pela maturidade, pelo seu modo de escrever e pelos temas do blog. Por outro lado, acho q numa primeira vez vou discordar da opinião da Lusinha.. acho que amadurecer antes pode até fazer a gente perder em termos… uma parte da vida ou vivê-la de modo diferente!
    Mas amadurecer antes da hora pode tb fazer a gente perceber a vida de outras formas e com isso, viver diversas experiências… inclusive redescobrindo a beleza da inocência ao lado da sabedoria adquirida!
    Mas .. cada um, cada um!!!Né?
    De toda forma o blog mais uma vez tem um texto precioso… parabéns pela forma sempre intensa que vc descreve as situações e publica seus pensamentos!
    Te admiro muito!! Um beijo e bom ano Nina!!

  11. Amei o texto *-* Consegui até me imaginar sentada na areia da praia refletindo como vc.. haha
    Que 2010 seja realmente cheio de realizações importantes pra gente :D
    Beijo

  12. Ai, adoro Lenine! (:

    Acho que a vida são muitos estágios e de cada um a gente acaba pegando algo… Me vem tanta coisa da minha infância, às vezes. Em outras, me vem coisas da minha não tão passada adolescência.

    E no futuro, quando eu for velhinha o que vai sobrar é um conjunto do que ficou de cada fase dessa… Que na verdade é o que me define, o que me forma, me compõe e completa.

    Quando era criança eu gostava mesmo era de ficar só. Não gostava muito de brincar com outras crianças, eu me bastava. Fui filha única por muito tempo… Minha mãe, coitada, me “ajudava” a fazer amigos.

    Hoje em dia, acho fundamental outras pessoas pra minha felicidade, ainda bem que isso mudou. Mas vez ou outra, quero ficar só, “brincar só”, como quando era criança.
    Adorei o texto!

  13. Coisa que nem sempre faço, me identifiquei com parte da sua vida.

    Cheguei a ser criança mas tive que parar logo.

    Que jeito tranquilo de escrever você alcançou, hein?!
    Fala tranquilamente assim também?

    O mundo anda bem agitado e confuso ultimamente, sem espaço pra tranquilidade… — ou sou só eu?

    Ps: foto triste…me lembra “Encontros e Desencontros”

  14. Pingback: Para um Amor-Bethânia | sobre fatalismos

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