Do meu (nítido) problema com best-sellers

“Mas alguma coisa o livro tem de ser, certo ou errado, contra ou à favor da gente. É preferível que seja à favor, então temos de descobrir o que ele vai ser. Só o que vai ser – se descobrirmos para o que vai servir ou que utilidade terá, avançamos demais e caímos na propaganda, na arte social ou na literatice.”:: Trecho de uma carta de Fernando Sabino para Clarice Lispector em Cartas Perto do Coração.

Admito que estou lendo a série de livros de Stephenie Meyer que vem sendo um sucesso de público e crítica em todo o mundo – Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer. Jurei à mim mesma que estes seriam os últimos livros que na face da Terra eu teria disposição para ler, mas recebi-os de presente da minha irmã mais velha que, pelo duvidoso gosto literário, até deveria ser minha irmã mais nova.

Não é tão ruim e torturante quanto parece. Não costumo recusar presentes, por educação. E os livros conseguem ser melhores do que os filmes – óbvio, como sempre. No aniversário de uma amiga eu havia assistido Crepúsculo e fiquei pasma com o péssimo elenco que fora selecionado. Todos são lindos e enigmáticos, características que convém à vampiros, mas a atuação é extraordinariamente péssima. E eu ainda esperava muito de Kristen Stewart, que fez muito bem o papel de filha da Jodie Foster em O Quarto do Pânico, mas a sua atuação como a jovem Bella que se apaixona pelo vampiro Edward me decepcionou por completo. Ainda assim, estranhamente, não consigo imaginar outro ator (ator?) melhor do que Robert Pattinson para interpretar o sedutor vampiro adolescente. Ele me lembra muito James Dean. E é mais charmoso do que aquele que interpretou Juventude Transviada.

Assisti Lua Nova no cinema (não, eu não gastei um centavo, pagaram o ingresso para mim, acho que sou uma boa companhia) e não houve evolução alguma, de modo que nada pôde subir em meu conceito. Admiro a coragem da diretora Catherine Hardwicke, pois ela utilizou de pouca verba para uma produção que chega ao nível de Harry Potter em bilheterias, mas o resultado é evidentemente superficial.

Na realidade, eu tenho um sério problema com best-sellers. Eles invadem estantes de lojas de departamento até livrarias conceituadas, com suas capas sedutoras em destaque maior. Desprezo-os simplesmente. A sedução dos vampiros me fascina tanto quanto o pitoresco dos piratas, mas a literatura de Stephanie Meyer é pobre de narrativa, é melancólico, melodramático em excesso e só o que se salvam são algumas das ironias de Bella – que infelizmente não foram bem transmitidas no cinema.

Conheci minha grande amiga Larissa enquanto lia O Código da Vinci. Ela achava curioso como, no início do primeiro ano de colegial (época típica em que eu não conhecia ninguém e nem fazia questão do mesmo), eu não parava de ler aquele livro, no mesmo lugar de sempre, próxima da grama e dos laboratórios de Informática. Antes disso, em minha oitava série, o filme inspirado no best-seller de Dan Brown estreava aqui no Brasil pouco antes de meu aniversário, gerando problemas com a Igreja Católica e provocando a vontade incessante de meus colegas de classe de correrem ao cinema do shopping. Era um filme que tinha tudo para me atrair: Tom Hanks (um de meus ex-atores prediletos. Desde O Terminal ele tem piorado bastante), Audrey Tautou (ótima atriz francesa), Ian McKellen (o Magneto de X-Men ficara perfeito interpretando o historiador Leigh Teabing, como eu viria a comprovar posteriormente), Jean Reno (o francês com olhos de peixe que vive de pancadaria em seus filmes) e Alfred Molina (um cara que já fez muitos filmes que todos nós já vimos, mas você não irá se lembrar tão facilmente dele). O elenco de peso poderia me deixar extasiada, sem contar com a fotografia de Salvatore Totino e a trilha sonora de Hans Zimmer. Mas eu sou “do contra” e tenho que manter postura de tal. Quando vejo que há um sucesso incrível no cinema ou na literatura, não me empenho nem um pouco para assistir ou ler, não faço questão. Principalmente quando se trata de um livro que se transforma em filme. Muito clichê.

Um amigo que escreve críticas literárias para um jornal local havia me dito que o livro de Dan Brown é surpreendente, que poderia chegar a mudar minha visão de história religiosa e tal. Ele disse, na verdade, as palavrinhas mágicas: simbologia pagã – meu tema predileto em perseguições religiosas. E, a cada dia que passava, eu me via cada vez mais inclinada a espiar o que havia de tão empolgante neste best-seller.

No ano seguinte, então, decidi comprar livro (a primeira edição normal) e filme (versão estendida e cheia de extras). De fato, achei impressionante a ousadia do autor, tratar de um tema que envolve séculos de cultura religiosa ocidental. E tratá-lo com tanta sutileza e precisão. Em um enredo fascinante, apesar de clichê – a busca pelo Graal enquanto pessoa, mulher; o conflito entre humano e divino – indiscutivelmente, tornei-me admiradora do autor.

Best-sellers são livros que vendem e rendem bastante na sociedade capitalista em que vivemos. Tal como Sidney Sheldon, Danielle Steel e até mesmo Ágatha Christie, são livros que prendem o leitor da primeira à última página e nos permite querer mais. Mas é também um círculo vicioso de literatice na maioria das obras.

A pobre moça inglesa Emily Brontë escreveu um único livro em toda a sua vida, intitulado O Morro dos Ventos Uivantes, e este vem a ser hoje um clássico da literatura universal, apesar de ter sido bastante criticado e bastante lido em sua época. Uma época em que o título de “best-seller” sequer existia. Shakespeare, Balzac, Alexandre Dumas – esses também foram grandes autores de best-sellers em suas diferentes épocas, apesar das dificuldades inúmeras e das críticas que vieram a sofrer naqueles tempos.

Fico imaginando o futuro da literatura mundial. Iremos venerar o talento de Meg Cabot, responsável pela série de livros O Diário da Princesa, enquanto vários outros escritores bons de verdade vão sendo esquecidos e massacrados?

E olhem que eu ainda nem cheguei a mencionar Paulo Coelho. Mas isso fica mesmo para outra crônica. Para terminar, deixo duas boas dicas de best-sellers que ganharam o Prêmio Nobel de Literatura e viraram filme – Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez e Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Esses sim, literários de verdade!

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15 respostas em “Do meu (nítido) problema com best-sellers

  1. Bem…aí você terá mais argumentos do que eu para sustentar os teus preferidos. Eu que não li a saga.

    O novo visual me recebeu muito bem. Obrigada pela acolhida.

  2. Bem, os Best-sellers estão aí para quebrar paradigmas. As vezes eu me pergunto se é preciso uma boa história ou uma boa literatura pra vender. Sabe, os dois são essenciais, mas acredito que uma boa história supera isso.

    Como você eu resisti a ler essa saga por um bom tempo. Depois que peguei pra ler não consegui desgrudar. A história, convenhamos é muito boa. O caso da Saga de Crepúsculo tem isso. De fato concordo que Stephanie Meyer tem horas que dá muito pano pra manga. Tem horas que fica como você falou, chato e muito melodramático. O que prende não é a forma como ela escreve mas a história que há por trás do envolvimento entre vampiros e humanos. Tratada numa ótica fascinante.

    Na verdade tenho que discordar de tu. As ironias de Bella são ótimas, mas o que salva a saga é o Jacob. As tiradas dele são muito melhores. Você morre de rir com o sarcasmo dele, e as ironias. A melhor parte da saga é no último livro quando tem uma parte que é narrada por ele.
    Aí tu reflete e chega numa conclusão: Se o Jacob contasse a história seria bem melhor kkkkkkkkk

    A melhor parte da saga que eu acho é quando ele está narrando. É perfeito. hehe

    Enfim. Nem todos os best-seller tem literaturas perfeitas, mas histórias envolventes. O mistério está aí. Dan Brow tem uma fórmula muito previsível. Consegue ser mais objetivo, menos melodramático (porém o tema abordado é diferente do da Stephanie Meyer). Embora sejam apenas boas histórias, altamente ricas em pesquisa.

    Sabe o problema Daniele, o tempo passou e a forma como a literatura é tratada sofreu mudanças. Nesses tempos modernos a criatividade está sendo encapsulada um pouco. Antigamente a escrita era muito mais que uma das alternativas de trabalho. Era um estilo de vida, uma opção extrema. Por isso talvez ela tivesse uma entonação mais poética. Algo que exigia mais da mente. De fato antigamente existem obras eternas, de qualidade criativa da qual não se encontra hoje.

    A literatura hoje está procurando uma forma de se adaptar a tempos tão modernos, tão livre de informações.

    Vamos torcer pra que ela sobreviva.

    Beijos
    :)

  3. Obrigada pela visita no meu blog, e por me linkar também. Vou fazer o mesmo e voltarei aqui mais vezes, pois gostei de seus escritos. E sobre o post de hj, com certeza o filme nunca chega aos pés dos livros. Nada como um bom livro, aliás!

  4. Cara, eu tenho problema é com Paulo Coelho, os grandes “intelectuais” diziam que era uma merda, como eu sou meio do contra e acho que esses ditos “intelectuais” não são de nada, resolvi ler, mas que merda! eles estavam certos… depois disso deixei de lado essa picuinha que eu tenho com eles, e passei a ler as criticas e confiar mais, segundos as criticas que li, os livros do Meyer não são muito legais e os filmes um lixo, então nem perdi meu tempo… quero me arriscar, não! hahaha

  5. Ai, Nina… só li os do David Brown… porque de resto eu não sinto um pingo de motivação para ler…
    Nem sei explicar a indiferença que sinto com relação a Crepúsculo… sem desmerecer é claro mas não sinto vontade. Nem posso dizer se é bom, ruim… se gostei ou odiei… Kiss

  6. Gosto de best sellers. E, ao mesmo tempo, tenho pavor. Não é muito fácil entender. Por exemplo, li O caçador de pipas por ter se tornado um best seller e me apaixonei. Já a saga Crepúsculo, li antes de se tornar best seller e me apaixonei. Depois, quando ela ficou famosa, detestei os filmes e, quando tentei reler, não encontrei tanta graça nos livros que antes me deixavam fascinada. Sei ler desde Meg Cabot á Clarice Lispector e não gosto de rótulos: Não ligo que o livro seja um best seller ou um chick-lit, contanto que tenha uma escrita agradável e uma história envolvente. Espero que tenha dado pra entender, beijo.

  7. Gosto de best sellers. E, ao mesmo tempo, tenho pavor. Não é muito fácil entender. Por exemplo, li O caçador de pipas por ter se tornado um best seller e me apaixonei. Já a saga Crepúsculo, li antes de se tornar best seller e me apaixonei. Depois, quando ela ficou famosa, detestei os filmes e, quando tentei reler, não encontrei tanta graça nos livros que antes me deixavam fascinada. Sei ler desde Meg Cabot á Clarice Lispector e não gosto de rótulos: Não ligo que o livro seja um best seller ou um chick-lit, contanto que tenha uma escrita agradável e uma história envolvente. Espero que tenha dado pra entender, beijo..

  8. olá, Nina!

    Muito interessante as dicas do blog. Uma verdadeira lista de indiações literárias… Conheci seu blog devido ao seu comentário no blog de Antonio Prata. Lá, cliquei em seu nome e me seduzi pelas suas sugestões tecidas em crônicas. Meus parabéns! Ganhou um leitor!

    Visite este: http://daprosaapoesia.blogspot.com

    será uma honra recebê-la por lá!

    Abraços!

  9. Gosto de best-sellers. Prova disso é que muitos dos citados por você nesse post eu já li.
    E sou suspeitíssima para falar sobre Ensaio sobre a cegueira…
    Bjitos!

  10. Também tenho certa má vontade com os best seller, principalmente se eles viram mania entre os adolescentes. Mania é eufemismo, em se tratando de Crepúsculo, é doença. As vezes eu até me rendo, porque não gosto de sair criticando aquilo que eu não conheço, mas eu tendo sempre a não gostar, e muito disso devo atribuir àquela má vontade que já confessei. Li Crepúsculo, achei envolvente, achei açucarado, me pegou. Li Lua Nova, achei lamentável e não consegui passar da metade, e peguei um verdadeiro ódio pela série, tamanha foi a aflição que Lua Nova me deu. Dos filmes, vi só o primeiro, e achei tão ridículo como você mesma já disse, e eu fiquei seriamente decepcionada com o Robert Pattinson, ele é lindo, ele é charmoso, mas trabalha tão mal o coitado, quando ele fala, fica com uma cara de sofrimento que dá a impressão que ele está no meio de uma crise de apendicite.
    Quanto ao Dan Brown, li Código da Vinci e Anjos e Demônios e fiquei feliz. Gosto dessas coisas conspiratórias, enigmas, coisas proibidas e escondidas, etc. Já do filme, do primeiro eu achei MUITO ruim, e do segundo, achei melhor, mais bem feito, mas ainda não me surpreendeu.
    Já dos best-seller literários, confesso que sou fã, pelo menos desses que você citou. E gosto muito de Meg Cabot também, óbvio que não a considero um exemplo de exímia escritora, que se preocupa em fazer todo um trabalho literário em cima de suas obras, mas gosto muito dos dramas adolescentes, são tão melhores de os da Stephanie Meyer…
    beijos

  11. Eu não gosto do jeito que a escritora vampiresca escreve, acho que ela enrola muito. Mas como não gosto de ler as coisas pela metade acho que vou continuar a serie, p/ eu poder fala mais mal ainda! hahaha
    Dan Brown eu gostei de 2 livros dele, normalmente a gente gosta dos primeiros livros que lemos dele, pq depois nada dele nos surpreende. Parece que ele escreve por fórmula pronta.
    Adorei Ensaio sobre a cegueira!
    Desde que eu leio o seu blog eu reparei que vc le muitos livros, vc tem skoob?

  12. Normalmente eu só descubro que são best sellers quando os filmes já estão no cinema. Apesar de gostar muito de ler, eu nunca prestei atenção nas livrarias. Eu sempre encontro alguma indicação na internet, e vou procurar o livro em uma biblioteca – que, pelo menos a da minha faculdade, não tem essa necessidade de atrair você para os livros pops do momento. Acabo assistindo os filmes por pura curiosidade, e sempre falo assim ‘se for bom, leio o livro’, mas nunca é, então, eu nunca leio, HE.

    Tenho que concordar com você. Cem anos de solidão é uma relíquia da literatura! Eu já li, reli, fiz árvores genealógicas (que ficam indecifráveis, rs)… E continuo me supreendendo com ele sempre. Esse é um livro que eu gostaria MTO que fizessem um filme – muito mais que Amor nos tempos do cólera – só por curiosidade de VER aquilo que eu imaginei, mas, óbvio, não seria a mesma coisa e não teria como contar cada passagem do livro!
    Gosto muito do Gabriel Garcia Marquez, ele é MUITO bom!

  13. É…. Eu tentei, sabe? haha
    Comecei a ler Crepusculo mas não aguentei a lenga lenga e desisti :S
    O filme me deu sono, mas bom…. Talvez os livros realmente sejam bem melhores e se eu tivesse paciencia notaria isso né?
    Beijo

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