Eu, enquanto impaciente paciente

"- Espere sentada, mocinha!"

"- Espere sentada, mocinha!"

A paciência não é uma virtude concedida à mim, embora pareça, em muitas circunstâncias. Detesto cheiro de hospital, ar quente e frio se fundindo, náusea constante, uma sensação ausente de conforto e proteção. Sinto-me mais ansiosa na fila de espera (como qualquer mortal, aliás), do que se estivesse em casa a lamentar essas dores incessantes na coluna. Preciso deixar de dormir de mal jeito, mas nunca fui nem vaidosa, nem ciente de que o meu físico constantemente me traz problemas na estrutura óssea.
Crianças choram, berram alto por suas viroses características de verão, mães consolam (na mesma proporção em que perdem todo o controle), idosos resmungam, mulheres reclamam a demora no atendimento, homens observam impacientes e silenciosos, adolescentes lêem e se entediam. É típico. E, como se já não bastasse, a recepcionista parece ser a humana mais fria da face da Terra, sendo indiferente com nossas dores, blasé. Deve estar acostumada, o cotidiano deve ter-lhe ensinado a desprezar pacientes que não são seus.
Enquanto observo as paredes brancas e o teto azul (clichê), dou-me conta de que este é um teste de resistência e limite. O médico, que já não viera pela manhã, também decidiu estender seu horário de almoço até as duas da tarde. O nome dele é Inocêncio. Fico imaginando (ironicamente, é claro), se o Dr. Inocêncio vem a ser um pervertido, do tipo que ataca as pacientes. Ainda me permito fazer a constatação óbvia de que todo médico que já passou da casa dos sessenta tem um nome arcaico, geralmente inspirado em poetas ou filósofos de séculos retrasados. E toda médica daqui se chama Ana. Sempre é uma moça bonita, muito mais jovem do que qualquer Inocêncio, alta, esguia, elástica como uma criança, branquíssima – do tipo que cora o rosto a cada expressão de constrangimento -, cabelo longo amarrado por uma fivela infantil, olhos caídos que aparentam cansaço, a boca de um risco sutil retorcido e o nariz – arrebitado -, todos em um hospital costumam ser por demais previsíveis. Sem contar com os enfermeiros – sempre impacientes, correndo de um lado para o outro, como se fossem anjos libertários que quisessem salvar qualquer um da morte inevitável.
E caso a minha paciência se esgote, serei encaminhada para a ala psiquiátrica sem mais demora.

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14 respostas em “Eu, enquanto impaciente paciente

  1. Como mero moratl, odeio esperar. Pior ainda é se for para ir embora e você depende de alguém. Péssimo.
    Hospitais… Nem me diga! Só entro em algum deles se for em última necessidade. É o caos.

    beijoos :*

  2. Vou te add lá no skoob, então! Eu tb odeio hospital e seu cheiro caracteristico. Gostei muito do seu texto, as suas descrições ficaram perfeitas!

  3. “Fico imaginando (ironicamente, é claro), se o Dr. Inocêncio vem a ser um pervertido, do tipo que ataca as pacientes”

    Também tenho a mesma impressão!
    aheuiruaerhiaer

    Não gosto de hospital, é um lugar tão triste e de triste já basta eu! ;)

    Quanto a perder a paciência, cuidado mesmo para não ir parar na ala de psiquiatria! iauheurhuaeru

    bjao

  4. Odeio salas de espera! Me deixam tão ansiosa a ponto de sarar e poder voltar pra casa sem nem ter visto o médico (ou dentista).
    Nina, encomenda aí uma mandinga (super do bem) pra minha chefe, enquanto eu vou passar essa semana me descabelando, ela está curtindo o sol aí da sua terrinha. XD
    Eu tinha me esquecido que vc é da Bahia, já estive aí duas vezes e foi excelenteeee!
    Beijos

  5. (Também gostei bastante desse theme.)
    Nina, eu me vi tanto nesse texto que quase nem sei o que falar. A falta de paciência em situações como essa, o observar as pessoas que é inevitável, imaginar a vida dos funcionários sem coração, pensar coisas terríveis dos médicos e tudo mais…

    Kissus =**

  6. Conseguiu transformar uma espera tediosa no hospital numa crônica muito bem escrita (as usual) e interessante. Gostei bastante das considerações acerca do Dr. Inocêncio e das médicas bonitas. As daqui não são todas Anas, mas são sempre muito bonitas. Acho que nunca conheci uma médica feia nessa minha vida.
    beijos

  7. Homem, por mais paciente que se considere, é, por natureza, imediatista. Se não fosse, não haveriam tantas parafernalhas cujo emprego reduzem o tempo de conquista de objetivo.

    Enfim, num hospital ainda…a impaciência fica ainda pior.

    Parabéns pela crônica e pelo blog.

  8. Homem, por mais paciente que se considere, é, por natureza, imediatista. Se não fosse, não haveriam tantas parafernalhas cujo emprego faz reduzir o tempo de conquista de objetivo.

    Enfim, num hospital ainda…a impaciência fica ainda mais acentuada.

    Parabéns pela crônica e pelo blog.

  9. Rará.

    Hospital não é um dos melhores locais pra ficar encostado. Ainda mais numa fila de espera de um quilômetros.
    Gente, é um lugar triste. Tu só enxerga a dor.

    Aff…

    Atendimento péssimo, estresse alto. Tantos pontos…

    Tu falou em cheio.

    ps: Gostava mais do antigo template. Aliás, de todos que tu já teve e eu conheço, esse é o que menos gostei. Muito insosso. Enfim, é bom mudar às vezes né.

    Beijos

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