Escritoras e obras que eu amo

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Muitos autores me inspiram para a escrita. Mas quero homenagear algumas de minhas autoras favoritas, pelo grande potencial que elas tem, em suma.

Simone de Beauvoir – Ou Monot, como eu gosto de chamá-la (clara referência também à irmã de Antoine de Saint-Exupéry em Cartas ao Pequeno Príncipe, que também se chamava Simone e tinha esse apelido), foi, além de esposa de Jean Paul Sartre (como ela é mais conhecida, infelizmente), uma grande feminista que deixou a burguesia logo cedo para se dedicar aos estudos. Conheceu Sartre na Sorbonne, em Paris, e ambos sempre tiveram uma relação fora do comum cujo princípio era a liberdade individual. Gostei bastante do seu livro O Sangue dos Outros, porque praticamente me vi como a personagem Hélène, claramente inspirada na própria autora: uma moça “pequeno-burguesa” que se lança por causas sociais antes da Segunda Grande Guerra e é apaixonada por um jovem pacifista/comunista. Monot escrevia sobre o amor e o desamor enquanto agressivos, mas sem perder a sutileza dos detalhes que inspiram saudade e confiança. Sua escrita é do tipo que prende e surpreende o leitor, sem a necessidade de finais que felicitem o mesmo. Ela falava abertamente sobre sexo e o papel da mulher na sociedade atual, sendo este o foco da maioria de suas personagens.

“O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso.”
:: Simone de Beauvoir.

Emily Dickinson – Uma moça solitária e poetisa. Assim foi Dickinson, que vestia-se de branco para isolar-se no campo, assim como seus escritos permaneceram isolados dentro de uma gaveta até depois da sua morte. Thomas Higginson era uma espécie de agente literário na época dela mas, não compreendendo seus versos, desprezou-os e aconselhou Emily a deixar de lado a poesia, julgando não ser esta a sua vocação. A autora parecia ter grandes dificuldades de se relacionar, mas suas poesias (um pouco desconcertantes) falavam principalmente do amor platônico, das dores, da morte e, principalmente, da natureza. Um Livro de Horas, sob seleção de Ângela Lago, exibe alguns de seus versos com ilustrações delicadas.

“Todas as cartas que eu escrever
Não serão bonitas assim:
Sílabas de veludo,
frases de cetim,
abismos de rubi, submersos.
Impossíveis, ô lábio, para ti
Faz de conta ser um colibri
Que sorveu a mim”
:: Emily Dickinson.

Jane Austen – Minha escritora favorita fora bastante rejeitada em sua época. Suas obras, hoje clássicos, tratavam dos hábitos da sociedade inglesa rural, da fortuna e do comportamento leviano de muitas donzelas. Mas suas personagens tinham uma vivacidade incomum que as tirava por completo da mediocridade, como é exemplo Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito e Anne Elliot em Persuasão. Não eram dramáticas, nem tão estonteantes, mas mantinham um equilíbrio na transição entre ser jovem e adulta. Jane caminha pela evolução da mulher e seus livros não podem ser considerados de modo atemporal (infelizmente) porque são destinados apenas aos costumes do século XVIII, que não se aplicam atualmente.

“A infelicidade da poesia é que só podia ser apreciada com segurança por aqueles que admiravam integralmente; e que os sentimentos sinceros que podem em verdade valorizá-la, eram justamente aqueles que deveriam experimentá-la com comedimento.”
:: Jane Austen.

Fernanda Young – Ela é uma espécie de Simone de Beauvoir moderna. Sem pudores, Fernanda também focaliza personagens femininas e a relação do cotidiano com fatores como amor, trabalho, sexo, convivência. Vergonha dos Pés, seu primeiro livro, consegue ser irônico, divertido e dá um aperto enorme no coração ao tratar do relacionamento entre Ana e Jaime, dois jovens que se conhecem em uma festa de ano-novo e se vêem fragmentados em um complicado romance. Enquanto ele prepara sua monografia, ela “escreve mentalmente” livros vários que jamais chegam a se concretizar no papel. Assim como a personagem de Monot em O Sangue dos Outros; neste romance de Young, Ana também parece sair de dentro da autora, como uma versão dela escrita.

“Eu sou escritora. Sou poeta. E serei tudo que eu puder ser…”
:: Fernanda Young.

Inês Pedrosa – Não conheço muito dela, mas sei de sua sensibilidade muito bem expressada em seus livros criativos. Fazes-me Falta, por exemplo, uma obra em português-lusitano, trata do amor, mesmo após a morte, quando um casal se corresponde através de cartas e vivem (e morrem) assim, de lembraças casuais, retratos de um amor que se evapora prematuramente. É uma obra que, nota-se, foi escrita com todo o cuidado, como se fosse algo dedicado à outrora.

“Assim me apaixonei pelos livros – pela noite que neles nos invade, quando os abrimos, pela noite que neles nos resiste, depois de lidos, relidos e fechados. Pela noite que prossegue, incansável, entre as palavras, as palavras sem dono, escritor da ausência para a ausência.”
:: Inês Pedrosa.

Nina Lugovskaia – Ela nunca fora uma escritora, apesar de sonhar com a profissão. Era apenas uma menina que viveu antes do terror stalinista, tal como Anne Frank frente ao nazismo. Mas a escrita de Nina em seu único livro, O Diário de Nina Lugovskaia, é surpreendente pelo cuidado que ela possuía com as palavras, apesar de sua precocidade. Uma criança que amou e sofreu, que teve freqüentes mudanças de humor, como qualquer adolescente, mas que vivia com a intensidade de quem sentia que o fim estava próximo. Tratava do suicídio e da beleza que nunca chegara a possuir, culpava o estrabismo por conta disso. Seu diário é um achado arqueológico e exemplo de evolução no amadurecimento.

“Não sei escrever. Isso é talento? Não tenho condições de escrever uma só página como se deve. Devo trabalhar sobre cada frase, uma por uma, e tentar compreender como compô-las. Desse jeito não se obtém grande coisa.”
:: Nina Lugovskaia.

 

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15 respostas em “Escritoras e obras que eu amo

  1. Estu tentando ler “Orgulho e preconceito”. Me falaram tanto, mas tenho achado uma linguagem tão chata!

  2. É tão bonito ver uma pessoa tão nova, com tanta estrada pela frente, se referir às grandes escritoras do passado com esse carinho e admiração. São todas, de fato, bruxas. E que saudades me deu de ler de novo Fazes-me falta. Inês tem mesmo uma voz linda.

    Mais do que o novo visual, tenho gostado de passar aqui e ver tantas cores novas, e surpreendentes.

    Em tempo: li outras seções da sua página e desconfio que você possa se interessar pelas pin-ups de Gil Elvgreen, o melhor ilustrador que já houve para essa estética pop americana.

    Beijos, Ana

  3. Nossa, com esse post fui em busca nas minhas memórias de algum livro que li escrito por uma autora. Admito que não achei nenhum muito interessante. Com exceção, é claro, de Clarice Lispector.
    Morro de vontade de ler Jane Austen, mas sempre acabo comprando um outro livro…

    Você achou Julie e Julia nas locadoras? Acho que não né, ainda está no cinema!

    Quando assistir diz o que achou.

    Beijoocas.

  4. Bacana, gostei da apresentação. Conheço muito pouco delas, vou tentar ler alguma coisa.
    “Vergonha dos pés” é ótimo. Tenho no meu o autógrafo da Fernanda. Ainda ganhei um beijo no dia ^^
    E a Simone de Beauvoir não é mais conhecida por ser mulher do Sartre. Talvez tenha sido na época, mas hoje ela é bem reconhecida, mesmo com a sombra do vesgo :P
    (Seu comentário tinha aparecido como spam no meu blog. Só hoje vi. Mas já está aprovado)

  5. Sua paixão pela Jane Austen e Emilie Dickinson já me eram conhecidas, mas não sabia que você gostava da Fernanda Young! Dela li somente textos aleatórios em revistas, os livros são difíceis de serem encontrados por aqui, o que é uma pena, já que ela tem todo o jeito de escrita que me agrada.
    Simone de Beauvoir é outra que me desperta grande curiosidade, estudei um pouco dela ano passado e gostei do que aprendi.
    Enfim.
    beijos

  6. Senhoritas admiráveis.
    Eu gosto de escrever tb, mas normalmente saem umas coisas impublicáveis que ninguém iria entender, e as explicações tomariam tempo demais… XD
    Bjo

  7. escritoras femininas tristes, muitas mulheres escritoras se inspiram nelas. quase todas, eu diria. é quase como bukowski, fante e miller pra homens boêmios solitários.

  8. Das escritoras que você citou eu só conheço por nome, mas as obras nunca li. Quero muito ler algum livro de Jane Austen e Fernanda Young, porque li alguns trechos de livros delas e gostei muito.

  9. Viu, eu chego aqui e me perco nessa tua erudição fantástica.
    Mas vem cá, tu não se inspira em nenhum escritor masculino?

    Fernanda Young?????
    Se for assim não faltou a Stephanie Meyer?

    rsrs

    Aos poucos vou te conhecendo melhor.
    hehe

    Beijos

  10. Que lindo, a maneira com vc descreve cada uma dessas autoras… Muito obrigada por compartilhas seus nomes, fiquei muito interessadas em conhecê-las melhor também…

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