Conto para Nabokov

“O que me leva à loucura é a natureza dupla desta ninfeta – Talvez de todas as ninfetas; essa mistura, em minha Lolita, de uma infantilidade terna e sonhadora com uma espécie de estranha vulgaridade, derivada dos rostinhos atrevidos que aparecem nos anúncios e nas fotos de revista, das rosadas imagens de criadinhas adolescentes…”
:: Do livro Lolita, de Vladimir Nabokov.

Já imaginara de quantos teria que se despedir, silenciosamente, é óbvio. Não faz parte de sua natureza aventurar-se em lágrimas de inevitável; ela, que não se permitia chorar, considerando tal ato como um sinal de fraqueza.
Mas no caminho, pensava nele. Um bibliotecário com mais de quarenta anos, casado, com um filho adolescente, apenas um ano mais novo do que ela. Não era feliz, contudo. No entanto, bastante conformista. A esposa já não o ama, com o filho já não conversa. Mas a casa não deixa, não pode, está velho e não abrirá mão do conforto. Ela entende.
Como bom nadador (ela supõe, ele se diz ser, ela acredita), não poderia passar outro olhar além de maresia. O olhar dele até aparenta ser vago, mas engana. Ele percebe tudo. Percebeu-a, por descuido dela, que faz tanta questão de andar na ponta dos pés e até respira o mínimo possível para não ser notada. Ele, que já viveu tanto e sugere a ela o mesmo conselho: “viva”, eis uma palavra que lateja. Ele deve ter razão. Ela tem dezessete anos e passa seus domingos lá, onde existem menos pessoas e tantos livros. Ele tem razão quando a diz que é isolada e que não terá para sempre essa mesma idade (ela, que tanto quer que essa idade passe logo…). Ele tem toda a razão. E é pela racionalidade dele que ela se viu tão semelhante a sua personalidade. Apaixonou-se no mesmo dia.
Freqüenta a biblioteca desde pequena. Primeiro com a avó, depois sozinha. Deixou de visitar por algum tempo. No ano passado, aderira novamente ao empréstimo de livros. E ele praticamente a viu crescer. Observava-a ouvindo histórias, desenhando, fazendo parte da companhia teatral, desenvolvendo-se. Mas com ela, nunca conversara. Ela nem fazia questão. Achava invisível aquele homem alto e velho, cujos sapatos fazem um barulho irritante quando caminha, barulho este que se transformara em música, e que lhe dá o sinal de que ele foi trabalhar, porque agora ela vai todos os dias. Fica na sala de leitura, finge ler, escrever. Recusa-se a olhar, para não demonstrar em excesso. O coração batendo acelerado…
Como ela chegava ao meio da tarde, conversavam então ao crepúsculo, quando o frio invadia a enorme sala, e ele acariciava a sua mão, fazendo-a sorrir com as lembranças que narrava, é o adulto mais jovem que ela conhece, faz com que se sinta velha. Ele diz adorar a espontaneidade do seu sorriso, mas reclama da ausência do brilho nos olhos, esses olhos verdes e vagos a fitar o vazio…
Um dia, ela lhe apresentou os olhos brilhantes, os sorrisos convidativos, novidades na ponta da língua. Ele notou e comentou, feliz. Atreveu-se a perguntar se ela estava apaixonada, como perguntou, em sua primeira conversa, se ela já havia namorado. Respondera que não, mentindo agora. Mas na primeira vez, falara a verdade.
Ele adivinhou sua personalidade. Era do tipo que fingia não ouvir cantada, que se utilizava do silêncio e da superioridade para fazer pouco caso e que, no fim das contas, apaixonava-se pelo impossível. E o impossível não é alcançável. Neste dia, ela quase chorou.
Em casa, deitada no quarto, procurou sinais e os encontrou sem demora. Seus olhares ternos, a voz afável e levemente sedutora, as mãos austeras que lhe dedicavam carinho e ainda – aquela vez em que, entre uma estante e outra, ele lhe apontava um exemplar de Vladimir Nabokov, deixando-a quase presa entre os livros e o seu corpo, o quase-abraço, o constrangimento, a espera, a satisfação de um momento.
Agora, sabendo que em dezembro irá embora, procura distanciar-se. Mas dele quer se despedir, porque já não é tão próximo, porque o carnaval passou, acabaram suas férias; os demais funcionários da biblioteca notaram, principalmente a ausência dela, que não viera, já que o outro ali não estava. Eles sabem mais que esses dois.
Ela não faz o mesmo itinerário, não pode esperar até o pôr-do-sol. Senta, em silêncio. Ele ergue o olhar e sorri, surpreso. Começam as perguntas habituais, comentários sobre as férias de ambos. Ela vai escolher um livro, ele espera. Ela volta e comunica de súbito que nem sempre poderá estar ali, a conversar muito com ele. Ela queria lhe dizer tudo, porque sente que é recíproco, mas trava. Fazem um longo silêncio. Ela olha para o chão, ou para dentro de si, sentindo o olhar dele preso e repousado nela. Ele responde que compreende, que faria o mesmo em seu lugar. Beija sua mão pela primeira vez, sentindo que é a última ocasião em que a vê como amiga. Ele, bobo apaixonado por uma ninfa, sente-se adolescente de novo. Ela sabe dos horários dele, que não está lá pela manhã. Planeja justamente voltar apenas neste turno. Sente o coração apertar, a garganta fechar, a boca fica seca e necessitada. Os olhos inundam-se enquanto ela se despede, descendo a escada, despede-se do gentil porteiro e corre, direto para onde ainda é sua casa.

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20 respostas em “Conto para Nabokov

  1. Nina, ao invés de comentar o de sempre (“lindo”), te digo que esse especialmente prendeu muito minha atenção.
    Daria um bom livro, com certeza.
    Sempre tive vontade de ler Lolita, um dia eu pego, na biblioteca daqui, para onde adoro ir e ando um pouco ausente.
    Um beeijo!

  2. Ainda bem que não é platônico.

    Nina, já que é baseado em fatos reais, só posso dizer:
    “Que sentimento intenso!”.
    Você escreveu isso de forma tão envolvente, tão encantadora, que me apaixonei pela história.

    Beijo.

  3. Acredita que não consegui ler “Lolita”? Estava achando muito chato, acho que é daqueles livros que de tanto falarem bem criam tantas expectativas que acabam decepcionando.

  4. Amor costuma fincar suas raizes em solo infértil.Como se gostasse de dificuldades, de dor.Quanto mais impossível, mais fácil de se apaixonar.e não é que acontece?

    No fundo, provavelmente ninguém ame ninguém a não ser a si mesmo.E um pouco de dor às vezes faz bem, é bom pra pensar…

    Coldplay ajuda nessas horas ;D

    “Nobody said it was easy
    Nobody said it would be this hard”

  5. mocinha escrivinhadora:
    tenho uma nova seção no meu blogue e gostaria muito que a senhorita fizesse uma participação um dia!

    posso te mandar um e-mail?

  6. esse é o tipo de texto que você sente as referências pulando, claramente dizendo a realidade dele. apesar de eu não achar que a solução seja a melhor, é a vida se pondo.

  7. Esse conto mais me lembrou Degaldina — de García Márquez –, talvez por eu não ter lido Lolita.

    Histórias de garotas de tenra e de homens de avançada idade me angustiam desde o primeiro parágrafo. Não, desde quando eu sei do que se trata a história. Elas nunca terminam bem… Ainda quando os amantes terminam juntos, ainda parece haver algo errado incomodando, e ambos parecem sentir isso… Ainda assim, adoro o tema, sinto a possibilidade de um final diferente…

    Muito bom
    Parabéns
    Beijo

  8. Já vi o filme Lolita e tenho vontade de ler o livro.
    Sobre o seu texto eu gostei muito. Narração e detalhes perfeitos da história. Igual a pessoa acima escreveu daria um livro essa história, e eu com certeza leria tb.

  9. As vezes tudo parece torturar mesmo. Sensações que desanuviam diante dos olhos das pessoas envolvidas. Não se torna apenas um intervalo de anos, mas um espaço vazio separando impulsos. um abismo tornando o pulo algo mais arriscado. Mas o sentimento pulsa bonito, como que embalando o piscar dos olhos. Fica subentendido. Fica resplandecente naquele silêncio tão suavizado, mas inteiramente revelador. Poucas chances? Nada se torna invariavelmente possível. Mas impossível seria relativamente exagerado. Escolhas podem ser feitas. Mas vidas não podem ser desfeitas.

    Há um medo presente. Uma lânguida preocupação. O que há de errado em amar? Não há. É um grande erro em procurar se martirizar por algo que nem sequer foi ainda. Sofrer sem mesmo ter acontecido.

    Mas a dor fica assimilada justamente no pensamente de como teria sido. E se o fosse, jamais seria… como esperariam.

    Essa menina é inteiramente sensível. Se acha fraça, ora se sente confusa, se acha madura, se declara infantil. Soa dois lados, penetra em vários mundos. É no olhar que a qualifica como uma sonhadora, que perdeu avisos na vida que deixou de conhecer. E acha que tem problemas e que não consegue persistir. Esse é um erro comum…
    E por isso se equivoca toda vez.

    **
    Só você é capaz de escrever assim. Você está anos-luz de distância de mim Nina. Não me venha com papo que não tem talento. Se aqui eu sempre me encanto e aprendo. Você está mais que muita gente. Embora você é inconstante, e natural na sua forma de ser as vezes é menos. Não de inferior, mas carente de certas lições. Das quais vêm na hora e momento certo.

    Você é uma dádiva minha.
    =)

    ps: e desculpa se insisti tanto no assunto do casamento. Senti que extrapolei. Não quis ser impertinente e desrespeitar seu espaço. Sempre vou querer te ajudar, mas também sei que as vezes meus braços não alcançam certas razões, das quais só seus olhos enxergam. Desculpe.
    Sempre vou querer seu bem. Mas isso não quer dizer que tenho que me meter na sua vida.

    beijo enorme. De um amigo que te ama.
    =)

  10. Antes de ler seu comentário já desconfiava mesmo da veracidade do que você havia escrito.
    Canso de dizer que acho incrível tudo que leio por aqui, mas de novo preciso dizê-lo.
    Nunca li “Lolita”, pra ser sincera. Na verdade eu tinha uns 10 anos quando comecei a lê-lo, porque achei o nome divertido. Mas fui censurada pela minha avó, dona do livro.
    beijos

  11. este texto pareceu um tanto com minha vida,serviu para abrir mais o olhar… bela escriita :)

    bjoos

  12. Acabei de ganhar Os Originais de Laura. Já disse antes, mas fico contente em saber que nos são caros os mesmos autores. Compartilhamos boas leituras, então.

  13. e esse meu terceiro comentário (?!?!?!) nesse texto é pra te avisar que está tendo promoção lá no blogue!
    passa lá e vê como vocÊ pode participar!
    bjs…

  14. Nina, que maravilha de texto!!
    Você escreve divinamente bem. Que desenvoltura, sensibilidade e capacidade de sensibilizar.
    Mil parabéns..
    muita qualidade por aqui,
    estou adorando fzer essas visitas.
    Beijos.

  15. Pingback: Hoje o dia não está para bossa « sobre fatalismos

  16. Nina, meus parabéns! É a primeira vez que entro nesse endereço e, confesso, se todos os seus textos forem assim tão bons, não sei como vc ainda não saiu do anonimato. Meus parabéns, garota.

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