Para Chico Buarque e as mulheres de Hollanda

Chico Buarque

...

Quando pequena, boa parte de minha educação musical vinha das estações de rádio que permearam a rotina culinária da minha mãe. Eu gostava de sentar na cadeira e vê-la fazer o almoço, dando intervalos em que se dispunha a me pedir apressadamente que aumentasse o volume, pois Chico Buarque cantava e ela estava ocupada. “E tenho medo de atrasar o almoço do seu pai”, ela dizia. Mamãe me cantava metade da música, faziam assim, ela e Chico, um belo dueto. Na outra metade, ela me contava, de bom grado, a história das músicas. E assim começaram os meus ensinamentos.
Aprendi, por exemplo, que havia uma mãe que muito se orgulhava de seu filho que, apesar de ser bandido, nada em casa permitia que faltasse. Seu moço, olha aí, é O Meu Guri (“e ele chega…”); Que Vai Passar nessa avenida um samba popular, onde até dançaram os nossos ancestrais; ou, quem sabe, o que passava era A Banda, cantando coisas de amor, deixando eu, a moça triste (que vivia calada) a sorrir na sacada – da janela, surpreendentemente alegre, assim como toda a cidade; haviam notícias frescas em um disco, Meu Caro Amigo; o homem que caíra, ou mesmo suicidara-se em uma Construção (e que “beijou sua mulher como se fosse a única…”); um que adivinhava ou deduzia O Que Será; e outro que falava de sua amada, tão preucupada, puro Cotidiano.
Mas um dia eu ouvi Geni e o Zepelim. Estranhei que mamãe estivesse tão séria, olhando-me de soslaio, sem cantar, com o volume baixo. Não resisti e perguntei que história era aquela. Ela fingiu não ouvir e derrubou uma panela. Insisti. Ela me olhou, hesitou, respondeu: “É sobre uma cortesã, que salvara uma cidade de um comandante insaciável que chegara em um zepelim”. Eu sabia o que era “zepelim”, mas  “cortesã”, como vim a consultar no Aurélio (Buarque de Hollanda, por ironia), era apelido bonito para mulher da vida, prostituta. Adjetivos mencionados aos cochichos em conversas de adultos. Criança não podia ouvir.
Com o tempo, fui me aprofundando em outros ensinamentos – os literários. Às escondidas, devotava certa afeição às cortesãs, que eram dóceis como Manon Lescaut; provocadoras e insensatas como Marguerite Gautier; que tinham segredos como Lady Roxana; que escreviam seus infortúnios, tal como Moll Flanders; às vezes meninas, apenas Lolita, ou aquelas que seduziam Shakespeare, com seus treze, quinze anos. Flores puras e ingênuas. Damas de cabaré, outras que mereciam perdão, tal como Maria Madalena.
Alguns anos se passaram e ontem eu ouvi a música da Geni. Não sabia, mas a composição havia sido bastante criticada. De conservadores até liberais. Mas ontem eu ouvi e chorei. Chorei pela coitada, tão singela, mas que também tinha seus caprichos e não era perdoada pela cidade – tão péssima em agradecimentos. Aquela que já foi namorada dos avarentos, dava-se atrás do tanque, no mato. Era quem fazia sonhar os moleques do internato. Ontem eu chorei por Geni. E também pela moça que se debruçava no corpo do amado, que agarrava os teus cabelos, “sem carinho, sem coberta, no tapete”, Atrás da Porta. Aquela mesma, que fora abandonada por quem a mandou ser feliz e passar bem. Olhos nos Olhos “quero ver como suporta me ver tão feliz”. Aliás, onde estará, ela, a Geni e tantas outras damas que Buarque encarnava, suas mais reais personagens, genuínas e solitárias…
Hoje eu cantei Geni, na cozinha. Mamãe fazia o tempero, eu mexia com a mão uma colher na panela, enquanto a outra segurava uma taça de vinho que eu bebia. Aumentei o volume, fiz um dueto com o Chico, mas ele não me ouvia e nem se deixava ser interrompido. Cantei Geni de um disco, já que é difícil encontrá-la nas estações de rádio. Minha mãe me pediu que eu cantasse o restante das canções, diz que acha bonita a minha voz, imagina! Coisas de mãe. A próxima começou como um conselho: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”. Chico só errara na localizão geográfica. As mulheres são de Hollanda.

“Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som.”
:: Essa Moça Tá Diferente – Chico Buarque

Anúncios

11 respostas em “Para Chico Buarque e as mulheres de Hollanda

  1. Nina, você tocou no meu ponto fraco. Chico, meu amado querido e adorado Chico Buarque! Meu cantor preferido nesse mundo, as letras tão lindas e singelas. E até aquelas que são, vamos dizer assim, pouco convencionais, como a que conta a história da pobre Geni, tem uma profundidade, uma sensibilidade tão lindas que é impossível ouvir sem se emocionar. Não me lembro de um dia que não fiquei instantâneamente feliz de ouvir a banda passar tocando coisas de amor, ainda que tenha sido longe de mim. Nunca chorei por Geni, mas já chorei por Carolina, dos olhos cheios de dor de um amor que já não existe.
    Incrível coincidência, mas quando lia esse texto ouvia as Mulheres de Atenas.
    Ah, não tem jeito, amo esse homem!
    beijos

  2. Como é bonita tua prosa :D Tão bom entrar e encontrar post novo, devorei rapidinho.

    Legal pensar q é na cozinha q são dão os maiores ensinamentos q a gente pode ter em casa. Não é possível encarar a cozinha com alguém e dele(a) não se aproximar profundamente. A minha não tinha a presença do Chico Buarque, mas aprendi a amar o rádio e a nutrir a vontade de descobrir mundos distantes enquanto via minha vó cozinhar ouvindo as notícias do futebol.

    Hj geralmente cozinho solitário. Mas gostei da ideia: amanhã levo Chico e Geni pra me ajudar a picar os temperos e conversar.

    Abração!

  3. Nina, você tocou no meu ponto fraco. [2]

    Como é bonita tua prosa [2]

    MeNina (perdoe o trocadilho infame), que coisa, não?! O nome [brega] do meu humilde blogue vem de uma múisca dele: A Bela e a Fera.

    Não existem palavras para descrever Chico Buarque.

    Dessas mulheres que você descreveu (que para mim, por exemplo, ‘Olhos nos olhos’ e ‘Atrás da porta’ são a mesma), acredito que as que eu mais goste são as de ‘Sem açúcar’ e ‘Com açúcar, com afeto’

    Já a moça feia (que ‘pensou que a banda, tocava pra ela’) é a minha madrasta, descobri isso há uns anos.

    Em off 1: pena que tens alergia.

    Em off 2: Que maravilha! O outro assunto era justamente sobre esse ‘Espaço’ novo! Que bom que se anima em participar. Quando estiver pronto (não importa o tema e em ti confio) me manda que é para poder ilustrar (ou fazer uma monatagem, colagem, foto, ‘whatever’), fechado? Que bom, mesmo, que gostaste da idéia!

    Beijo grande.

  4. Você sabe que tua prosa, como disseram acima, é bonita e a gente lê tão rapidamente, que não sente o tempo passar, só sente as carícias das tuas palavras aqui, na nossa alma.

    Muito bonita homenagem ao Chico, às ‘mulheres cortesãs’ e, enfim, a essa parte ‘marginalizada’ por uma sociedade conservadora e tão falsa em praticar suas teorias.

    Adorei o texto.
    Beijo.

  5. Essa moça…

    Cativante e tão singela. Costumo ler as primeiras palavras do texto e decidir se leio ou vou dormir; sempre decido por ler os seus.

    Esse seu jeito singelo e rotineiro de escrever me fascina, Nina. Rotineiro, mas não de uma rotina comum, como a que vivem eu e o restante dos mortais, você parece viver em um outro lugar, onde as coisas lindas — muito mais que findas — são comuns, e vice-versa. Um lugar como a Macondo de García Márquez, ou…sei lá.

  6. Taca pedra na Geni,
    Maldita Geni!

    Lindo o texto, daqueles que a gente lê sorrindo, que de tão aconchegantes, meio que nos convidam a entrar e experimentar o almoço.

    Lindo mesmo.Quero mais.

  7. Chico é um gênio, com uma alma feminina. Ele descreveu toda a geografia da mulher. É sensível, é doce e também amargo. É luz e sombra e todas nós estamos ali nos versos dele.

  8. Gosto de Chico Buarque, apesar de não ser fã de sua música.
    Tens um belo gosto musical.

    beijao

  9. Eu já disse que o Chico Buareque é o meu ídolo. Além de vc escrever bem, ainda falar de Chico e suas músicas, seu texto ficou perfeito. Adorei a frase: “As mulheres são de Hollanda.”

  10. Ah! vc não sabia?! Senta que eu vou te contar, Chico Buarque foi mulher em várias e várias encarnações! Isso mesmo! Não é possível, como é que ele consegue falar do sentimento de um mulher com tanta perfeição sendo um homem?! ele teve experiências em outras vidas. E certamente a Geni, foi ele, em um cabaré francês e toda cidade jogou pedra nele(a)

    Ainda lerei em um futuro não muito distante, tenho certeza, um livro teu. Muito bom te ler. Quando enfim eu montar minha Produtora de filmes me lembrarei de vc pra escrever roteiros hahahahaha

    bjs, Nina! =D

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s