Feliz ano-velho (letivo)

(Devia ser publicado antes, mas… não pude.)
 
Expressando o meu incrível tédio para as aulas

...

Estou aqui no colégio porque sou a típica boa aluna que também é gremista e prepara cartazes informativos e de boas-vindas para quando chegarem calouros e retornarem veteranos. Quarto e último ano de um curso técnico que não dera certo. Fomos cobaias. Parece faculdade, mas é só um treino (“Parece cocaína, mas é só tristeza…”).
Quem ao último ano pertence e carrega nas costas e na consciência todo o peso de martírios anteriores, até passa por uma vantagem: A de “liderar” o colégio. Quando eu cheguei aqui, quem era do quarto ano exalava mistério atraente e medo por todos os lados. Em suma, nenhum novato era suficiente para impressioná-los. Disso eu tirava sarro, mas agora estou na mesma posição, se tratando de um círculo vicioso que não pode ser ignorado.
É no último ano também que nos damos conta de que isso aqui parece um ovo, mesmo que já tenha sido “o maior colégio da América Latina” – e fato foi. Também tenho a impressão de que ficará melhor daqui para frente, por uma série de fatores – e nós já não estaremos aqui para desfrutar de tais oportunidades. Mas também iremos nos vangloriar de que nunca houve turma como a nossa, nem determinados professores tão marcantes.
Borboletas no estômago e na cabeça também. As águas de março fecham o verão e abrem os cadernos e demais materiais escolares com odor de chiclete. A resposta quanto ao vestibular está na ponta da língua. Escolhi este curso técnico de Informática na certeza de que me seria importante caso as coisas dêem certo e eu faça Jornalismo. E, no pior dos casos, o diploma ainda me serve para, sei lá, operadora de telemarketing. Haverá o restante dos livros que leremos na biblioteca e uma multidão de alunos a serem cumprimentados e a quem deveremos perguntar e responder sobre a entediante temática “férias”, que piora a cada ano que passa. Em colégio público, são raros os que vão para o exterior (cerca de dois alunos a cada cinco anos). Quem tem poder aquisitivo diz que foi para a ilha ou para outro estado (no geral, os mais comuns são Rio de Janeiro e Minas Gerais); quem não tem tanto assim, responde que esteve no interior, na casa da tia gorda cujos abraços esmagam ou dos avôs que ainda pensam que os netos têm sete anos de idade. E a minoria, apenas uma pequena parcela anti-social (como eu), prefere o silêncio ao tédio da resposta.
O garoto do primeiro ano que me fazia palpitar o coração hoje nada mais é do que aquele que atende pelo título de “Amor Platônico de Outrora”. Ele estará lá, com seu sorriso encantador, rodeado de meninas calouras com maquiagem excessiva e roupa curta. Vou imaginar o de sempre, que ele não tem critério, a não ser “bonitinha, mas sem cérebro”, critério este que o fez errar comigo. Passarei por ele, duas, três vezes, fingindo que não o vejo. Depois vou me dar conta de que uma de suas ninfetas é amiga minha. Vou até lá falar com ela e ele me dará um beijo em cada maçã do rosto, exigindo que eu faça com ele o mesmo procedimento, pois “reciprocidade” é o nosso lema, nós, que sempre fomos um casal bastante unido. Não mesmo. Ele é orgulhoso e despreocupado. Orgulhosamente despreocupado ou despreocupadamente orgulhoso, eu não sei ao certo qual dos fatores vem em primeiro lugar. E eu sou aquela atípica que não se permite à felicidade. Até penso que daríamos certo.
Então me virá a adolescente vulgar e a de falsa centralidade e inocência, ambas para me relatar minuciosamente os amores de verão que conquistaram, enquanto eu tentarei formular em minha mente a grande técnica que será prestar atenção na conversa e inventar uma situação parecida, afinal, não se pode ficar por baixo. Haverá ainda a ansiedade para saber quais serão os novos professores, que matérias foram excluídas e/ou adicionadas ao currículo escolar, que novos cursos paralelos terão inscrições abertas. A secretária da direção (que quer ser a diretora) continuará com o seu ar de insuportável superioridade e a “tia” da cantina ainda será um amor de pessoa. Tudo, em suma, absolutamente normal para um início de ano letivo: Banheiros imundos, gritos de histeria adolescente em corredores, meus cartazes semi-prontos rasgados com seus restos mortais pelos cantos do colégio. Somos pessimamente educados e, ainda assim, o futuro da nação. Nada novo de novo. Vamos nos jogar onde já caímos.

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15 respostas em “Feliz ano-velho (letivo)

  1. Este blog fez dois anos no último dia 15 de março. Obrigada por todos que passam por aqui. Não, isso não é uma despedida. Eu continuarei escrevendo, babacas.

  2. “Somos pessimamente educados e, ainda assim, o futuro da nação.”
    Que ironia, não?!
    Futuro besta!

    “Nada novo de novo. Vamos nos jogar onde já caímos.”
    Joguemos-nos; se tivermos sorte, conseguiremos sair do buraco.

    Beijo, Nina.
    E parabéns pelo blog; é um prazer te ler.

  3. Parabéns pelo aniversário!

    ah, o colégio… me lembro bem, gostava… hoje, olhando pra trás: que merda!
    Não tinha autonomia, não trabalhava, era obrigado a fazer coisas das quais 10 anos depois (tá bom, 11) não usei [e se for, será para contracenar em um texto só para dizer que a memória é boa], aquela gente chata, grupinhos, injustiça, segregação… Ou a minha escola era uma meleca, ou depois de passado o tempo adquiri essa ojeriza… Até era um cara bem pop no último ano, esse é o meu olhar de hoje, pois a época eu adorava…

    Mas não quero desanimá-la, pelo ao contrário, tudo melhora depois!

    Reclamei demais, né?

    Mas passa!

    E, mais uma vez, parabéns ao blogue! Adoro esse seu espaço aqui! Receito-o a muita gente!

  4. Tinha acabado de escrever meu primeiro texto pro jornal da escola e tava me achando quando resolvi vir aqui ‘dar uma olhada’ e me deparei com um “Somos pessimamente educados e, ainda assim, o futuro da nação”. Agora estou desprezando meu singelo texto! Enfim, você sabe que escreve bem e não precisa que eu lhe diga isso.

    Se você disser que está em casa pela manhã em qualquer dia da semana eu passo aí pra te ver. Pra ver seus gatos(tou me dando melhor com eles agora), a bagunça do quarto e constatar que não és mais aquela menina que eu conheci há 4 anos atrás no meio daquele monte de gente que eu nunca tinha visto.
    Esse comentário tá virando um texto digno de post. Quando voltar pro blog(sim, eu voltarei, só preciso de um nome decente) eu dou um final merecido a ele.

    Até mais!

  5. Eu sempre fui empolgada com o ano letivo, e é engraçado que esse ano foi tudo tão tediosamente previsível, que meu relato não seria tão diferente dos seu sobre meu primeiro dia de aula.
    As calouras irritantes que estão se achando a última bolacha do pacote porque estão no colegial, a nata da escola se gabando de que conheceu a Europa, a Disney, o Chile… outras se gabando do namoro recente, outras chorando pelo fim de um…
    ai que preguiça desse povo!
    ainda assim, bom retorno pra você!

  6. Opá!!! Fico lembrando da minha epoca de aluno,e de fato quem está no ultimo ano,realmente tem aquela moral toda,chama a atenção mesmo,mais não tenho saudades, escola é um rodizio de rotina, mais o que fica de bom, são os amigos,quando o ano acabar, todo mundo segue um caminho e o que parecia inseparavel, torna-se possivel, e os encontros são uma eventualidade, algo raro. É nesse momento, que percebemos que estamos crescendo e descobrindo um novo mundo e descobrir um novo mundo, é não ter elo de quem está nele. Depois disso, o proximo passo é sair da casa dos pais, ai é hora de descobrir um novo mundo denovo, então até o fim do 4° ano.

  7. Oi, Nina.

    Que boa surpresa seu blog. Gostei de sua prosa forte, cheia de personalidade. Também já gostei de Caetano, até descobrir que ele dava entrevistas. Mas ainda temos no Saramago uma paixão em comum.

    Obrigada pela visita ao Estrada.

    A gente vai se vendo, aqui e lá.

    Beijos,
    Rita

  8. Até agora é o texto mais sincero que li sobre retorno às aulas. Boa sorte… bons estudos. Sei lá o que dizer. =)
    Kiss e ótimo final de semana, com certeza!

  9. Do colégio eu sempre gostei. Adorava os retornos, os reencontros, tudo! Senti muita falta quando me formei. Já a faculdade, não via a hora de acabar. E não sinto falta até hoje!

  10. Nossa, já estou a quase dois anos sem esse ambiente escolar, ás vezes me faz a maior falta. Mas, agora eu tenho de olhar para frente e para entrar em uma faculdade.

  11. Taí. Se tem uma coisa da qual eu não sinto saudades, é do último ano do colégio.

  12. Bom, início de ano, sempre, sempre será igual. E com o passar do tempo, menos empolgante.
    Apesar disso, esse ano pra você, dita mudanças, desde o início.
    Muito boa sorte, bom ano letivo!

  13. Olá, minha querida.

    As redundâncias da vida são inevitáveis. Os mesmos carros passam, o mesmo ar é respirado, amores parecidos acontecem e, sobretudo, os mesmos erros são cometidos. Por isto, digo que não considero burro aquele que erra a mesma coisa mais de uma vez. Isto se aplica ao amor geralmente. E o amor nos prega estas peças.

    A propósito, o seu título é o nome de um livro do Marcelo Rubens Paiva…=)))

    Beijos

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