Une histoire de guerre

Cena do Filme Desejo & Reparação

...

Ele era um judeu. Um jovem, ortodoxo e errante judeu. Com seus cachos judeus e sua longa barba, típica de um judeu. Vestia-se de preto, assim como um radical judeu. Era alto e magro, o tipo de porte que convém a um judeu. Também tinha um nariz longo e horroroso, assim como um judeu. Nascera na França e, logo pequeno, mudara-se para a Polônia, onde sua família (de judeus, lembremos) juntara-se à comunidade judaica mais tradicional e ortodoxa daquele país. Eram tempos de prelúdio quanto a Segunda Grande Guerra.

***

Ela era uma francesa do campo, de alma e religião pagã, que brincava na lama com os irmãos e se comportava como uma adulta quando tinha a necessidade de ir à cidade comprar fitas de cetim para enfeitar os cabelos curtos e lisos, como qualquer outra francesa de época. Como a maioria das moças francesas, passou a freqüentar cedo a sociedade, desde os quinze. Sua boca, que possuía o formato de um coração, era naturalmente avermelhada e seus olhos eram de um verde esmeralda, olhos misteriosos, olhar que convém a uma francesa. Era pequenina, miúda. Fazia cachos no cabelo com a mão que era protegida pelo seu único par de luvas no tom azul da Prússia, de renda e cetim. Gostava de café e croissant. Típica francesa. Quando os empreendimentos de seu pai melhoraram, mudou-se para Londres, onde ela aprendeu os bons costumes de etiqueta e o valor que possui a melodia de um piano. Aprendeu a ter modos finos e a beleza dos gestos que a diferenciava das demais francesas e inglesas. Gostava de retratos e pinturas. Sabia contar histórias. Sua mão estava prometida a um jovem alemão, filho de portugueses lusitaníssimos. Era a mais velha dos cinco filhos S.C… Entediou-se quando soube que deixaria tudo para trás porque seu pai expandira os negócios para a Polônia, em pleno prelúdio da Segunda Grande Guerra.

***

Ela já se acostumara com a vida de professora, mas os tempos ficaram mais difíceis e a Guerra a chamou. Casar já estava fora de cogitação, apesar do fato de que seu ex-futuro marido também colaborava com nazistas (tornou-se soldado), assim como ela (tornou-se enfermeira), em um dos campos de concentração. Era vítima e auxiliar da Guerra. Conheceu-o quando ele fora um dos primeiros a ficar doente, deduziu que ele não agüentaria. Cuidou de sua febre, mesmo sabendo que deveria ignorá-lo e por ele apaixonou-se. Ele a retribuiu com o mesmo afeto. Ambos planejaram fugas, sem muito sucesso. E ele corria ainda mais o risco de morrer do que ela. Outro grande impedimento era a família ortodoxa dele e o conflito religioso que os entrelaçava e desunia ao mesmo tempo. A família dele – muitos mortos em outros campos, poucos vivos em porões e demais esconderijos -, não concordavam com o casamento entre uma pagã-nazista e um legítimo Filho de Deus. Ele foi expulso da já sua extinta comunidade judaico ortodoxa. Mas a oportunidade surgiu – e quem a concedeu fora seu ex-futuro marido – pois eles conseguiram lugares clandestinos em um navio – não sem antes ele ter mudado a aparência de judeu – e nele embarcaram. Vieram ao Brasil e ela já estava grávida de um menino. Aquilo ocorreu em meados da Segunda Grande Guerra.

***

Eu não posso ser absolutamente precisa no que é realidade e ficção. Não conheci o meu avô para ter dele sua versão dos fatos. Ele morreu no ano em que eu nasci. Minha avó, como eu disse anteriormente, era boa contadora de histórias e me deixara muitas respostas vazias, assim como não mantinha um limite claro entre real e imaginário. Mas se pedir uma prova viva de que eles existiram e viveram tudo aquilo, conte com esta que vos escreve. Minha personalidade e meu tipo físico (alta e magra como um certo judeu, de olhos verdes como uma certa francesa) comprovam boa parte do que eles passaram. Eles merecem um livro inteiro, um romance que deverá ser escrito. Mas, por enquanto, procuro homenageá-los com esta crônica.

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11 respostas em “Une histoire de guerre

  1. AVISO AOS NAVEGANTES : Não consigo comentar em nenhum blog que utiliza o servidor Blogger. Não sei o que acontece. Aparece uma porcaria de caixa laranja no canto inferior do meu monitor, mas nada vem escrito.

    Porém, continuo lendo os blogs de vocês.

  2. Ai, que linda história!
    Adoro quando minha avó ou meu pai começam a contar histórias da família ou mesmo de vizinhos, amigos ou gente desta terra. Gostaria muito de conhecer uma legítima francesa… Elas são encantadoras!

    Beijos e uma ótima semana! :)

  3. Caraca! Meu Deus, pirei em ler essa história. Você deve ter muito orgulho de poder dizer que teus familiares viveram tudo isso, viu? Uma história linda, de verdade.
    Beijo.

  4. Tava lendo o seu comentário no blog. Ô Dani, que baboseira das grandes. Claro que confio inteiramente em ti. Cegamente até. Não duvide disso nunca. Você é um talismã para mim. Você é mais que especial. Não pense assim. Você é uma das poucas e raras pessoas que são VIP. Esqueça isso tá?

    A verdade é que não estou na fossa anjo. Pode se tranquilizar. Eu participei de uma brincadeira, em que uma garota me propôs o tema “dor” para um texto. E então escrevi aquele poema. Eu até explico rs.

    Embora eu estou um pouco pra baixo sim. Mas não em total prostração rs relaxa. Mas vou te deixar a par da situação.
    Mas não tem muito o que falar mesmo. Me desentendi com uma amiga, mas muito amiga mesma, tipo assim uma amizade como a sua. Era uma amiga de blog. Mas nos ultimos tempo ela tem se distanciado e ficado estranha. Porém ela continuava presente para muitas pessoas. Mas não pra mim. não sei o que aconteceu para ela se distanciar. Quando mandei um email tocando no assunto ela meio que se estressou pela insinuação e achou ridículo. Depois sumiu. Não responde mais meus emails e estamos assim, meio que separados. E confesso que me causa muita dor. Gosto muito dessa pessoa. De coração aberto, posso dizer que mantenho por ela uma amizade muito forte. Mas ficou assim… Por isso que ando meio pra baixo. Mas não estou procurando me deprimir ou ficar na fossa. Estou lidando bem. É claro que essa situação é ruim, mas fazer o quê. Estou deixando o tempo passar. Já mandei outros dois emails para ela. Ela não respondeu nenhum. Não vou ficar implorando nada. Já entrei em contato. Se ela quer ficar muda problema dela.

    Eu prefiro o diálogo. Sempre. Embora eu tenho alguma impressão que as pessoas ao me conhecerem temem em falar comigo certas coisas para não me magoar. Sei lá. Talvez eu seja sensível demais (e sou). Mas sei lá. Prefiro escutar a verdade e sofrer por alguns dias, do que a dor da indiferença. É pior. Quando sei da verdade, posso ao menos procurar me corrigir, mas assim, indiferente só piora.

    Sou sensível, mas não fraco. Choro muito, mas não pra sempre. As feridas doem que só, mas cicatrizam rápido.
    Tenho aprendido bem. Só falta aprender a passar essa imagem de que posso ser mais forte. Enfim…

    É isso Dani. Não tenho mais o que falar. Tudo que me aflige está nessa situação. O resto está bem, está ótimo, graças à Deus.

    E obrigado pela preocupação. Confesso que é bom sentir esse aconchego de alguém tão querido como você. Foi bom pra me sentir melhor. Nunca duvidei de que posso sempre contar contigo. Obrigado por ser importante e especial para mim. Obrigado mesmo.

    Estimo muito a sua amizade. Só a quero ter para sempre. Sempre!
    =)

    Valeu meu anjo.

    Beijo doce.
    Tudo de bom.

    TE ADORO!!!

  5. Se o livro for assim, no estilinho da crônica, vai ficar ótimo. A história sozinha já é bonita, se escrita desse jeitinho vai ficar lindo!
    :)

  6. Fiquei de queixo caído com essa história. Sensacional! Meus avós maternos tb tem ótimas histórias, mas eu só as conheci atraves da minha mãe, então eu não sei onde é ficção ou realidade.

  7. Meu Deus, que demais, Nina!
    História digna de um loooongo romance, e de um bom filme! Linda a história, e incrível, por ser real! Gostei muito, e você com tua boa escrita deu a ela formas lindas, lindas!
    E a foto que ilustra o post é só um toque a mais, amo o filme Desejo e Reparação.

    Ah, falando do seu outro post, adorei! Gosto muito de todas as atrizes que citou, em especial Keira Knightley e Natalie Portman, umas queridas cuja filmografia sou muito fã! Não acho muito justo ficarem especulando sobre uma possível nova Audrey, pois acho que comparações sempre podem ser vistas como um desmerecimento ao trabalho de algumas. Mas adorei o post!
    Beijos

  8. Acho importante saber da onde viemos para saber para onde vamos.
    Adorei a história, sendo ela parte imaginária e outra real.
    Kiss e bom final de semana

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