Ensaio sobre a beleza (interior)

“Inclusive os adolescentes, que eram de rosto puro, à medida que iam vivendo fabricavam a própria máscara. E com muita dor. Porque sabem que de então em diante se vai passar a representar um papel que era de uma surpresa amedrontadora. Era a liberdade horrível de não-ser. E a hora da escolha.”
:: Clarice Lispector, em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.

Cena de Orgulho e Preconceito - Jane e Elizabeth se arrumam para o baile (sempre acabo retornando a este filme...) 

Em minha infeliz dignidade, ser invisível sempre foi um problema, ao mesmo tempo que, diga-se de passagem, também era o meu sonho secreto. Por possuir o “dom” da beleza, nunca me permitiram o privilégio de ser humana, apenas errante. Meu objetivo em início de colegial era não provocar a atenção de meus colegas de classe. Porém, como o destino costuma ser irônico, ele me viu. E, pela minha inexperiência e imaturidade, procurei ignorar quem amava minha falsa e momentânea beleza. As conseqüências de tal ato feriram a todos nós – e acabei tornando-me mais fria e inabitável para quem quisesse me conhecer melhor. Tudo para que, recentemente, eu acabasse descobrindo que o meu Amor Platônico de Outrora é aquele que têm me analisado mais profundamente. E ele havia dito apenas três características minhas, tão despropositadamente: que eu sou muito magra (óbvio), que ele gosta de mexer com o meu cabelo e que o meu timbre vocal agradam-lhe os ouvidos. Foi assim que, pela primeira vez desses quatro tempestuosos anos que convivemos, ele havia dito, sem perceber, e de maneira quase infantil, que ainda me ama, que ainda me quer, e eu, novamente, não sei como lidar com isso.
Por tentar a tática de mulher invisível, olhares sempre me incomodaram. Mês passado havia o jovem de louros cachos e verdes olhos a me fitar, incessantemente. Era bonito. E, por isso mesmo, eu não lhe devotava o menor interesse, já que o meu senso de crítica costuma estereotipar em forma de preconceito os belos como os menos inteligentes – da mesma forma que, curiosamente, o resto dos mortais costuma fazer comigo. Fui subestimá-lo, sem saber que com freqüência eu o encontraria. Por não mais conseguir conviver com a dúvida, tivemos nossa primeira conversa, por espontaneidade minha. Cativou-me nele a ausência de artifícios para me impressionar, pois ele é um ser natural que só necessita de seu caráter íntegro para chamar a atenção. Cativou-me porque, no decorrer do diálogo, ele se confessou recluso, talvez até ingênuo, bastante tímido e que gostaria de ser reconhecido não pela imagem que passa, mas sim pelo conteúdo que obtém. O que era, naturalmente, um paradoxo. Nosso flerte involuntário se deu em uma agência de modelos que freqüentamos. E a máscara, o nosso produto, a nossa face é o rosto que nos compromete e que nos impede a liberdade. Dias depois, conversávamos sobre nossas aparências quando eu me dei conta de que tenho inveja dos olhos dele, ao que ele respondera que aquilo não fazia o menor sentido, já que no tom de verde estávamos empatados, olho a olho. “Mas não é a cor ou o formato, nem mesmo o modo de olhar em diferentes ocasiões” – eu lhe dissera – “Trata-se da expressão. Os seus olhos passam o convite de uma amizade duradoura, os seus olhos sorriem. E os meus, repara, apesar dos elogios que recebem, só refletem o vazio”. E veio a revelação de que é isso a minha existência: um nada que fita a ponte entre esse nada e o vazio. Mas ao me ver também nos olhos dele, percebi que não estava de todo só no mundo.
Com todas essas percepções, quero chegar ao ponto de minha mais recente constatação – amo muito os que vejo e conversam comigo, mas deixo-os rápido, talvez pelo tédio que a beleza me expõe. O homem que eu amo agora, é um rosto que pouco conheço e que se desvanece como retrato em branco e preto, pois somente uma única vez eu o vi (acreditem). Conhecemos-nos através da escrita e nossas vozes é também o nosso elo de contato. E me sinto completamente privilegiada desse amor ter nascido sem a necessidade do visual, mas com a simplicidade da beleza interior. Porque, mais importante do que enxergar um ser invisível é poder, além disso, ouvir a sua voz tão rouca e tão fraca e ver, através dessa pessoa, a sua alma literária, sua beleza extrema e sagrada, pois essa é a beleza que se guarda e se liberta.  

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13 respostas em “Ensaio sobre a beleza (interior)

  1. Quisera eu qualquer restinho de beleza e qualquer pedaço de inteligência, pois por aqui, o que tem de sobra é arrogância e preconceito.Gente bonita demais costuma ser burra…mas os feios, as vezes conseguem ser mais burros ainda.
    E quem começa a amar, mesmo que sem querer, não está sendo um burro também?

    Adorei o texto.E não sei o que dizer.25 anos não é nada mal.Depende de quanto se quer viver.Espero que seja bom por aí.Tão bom quanto puder e conseguir ser.

    Um beijo.

  2. o que ue posso dizer? pasmo!
    vou me deter na parte que me arrepiou até à nuca:

    “O homem que eu amo agora, é um rosto que pouco conheço e que se desvanece como retrato em branco e preto, pois somente uma única vez eu o vi (acreditem).”

    sem mais!

    =***

  3. Belíssimo, Nina!
    Não tenho dúvidas ao concordar contigo que é sim um dos melhores textos seus!
    Gosto tanto dessa tua capacidade de falar de si mesma como se fosse vista por outrem que simultâneamente te analisa por dentro!
    Beijos

  4. Pensaste bem!
    É um dos mais belos que escreveste!

    “Era a liberdade horrível de não-ser. E a hora da escolha.”
    Acho que está quase passando da hora de eu escolher…
    Só não sei o quê.

    :*

  5. ‘“Trata-se da expressão. Os seus olhos passam o convite de uma amizade duradoura, os seus olhos sorriem. E os meus, repara, apesar dos elogios que recebem, só refletem o vazio”.’

    O.O
    com certeza você é uma de minhas leituras obrigatórias, a cada vez que venho aqui vc me surpreende com um texto melhor que o outro!
    LINDO.

  6. Além de boa a historinha da sua vida, a escrita é que me impressiona! Amo esses textos. Kiss

  7. Daniele, meu anjo, eu juro, por tudo quanto é mais sagrado. Abri a caixa de comentário com a impressão de que esse é o texto mais belo que pude ler de ti. E o espanto meu, quando vejo a sua própria constatação no primeiro comentário seguindo a mesma opinião. Gente, sintonia total.

    Leio você há um tempo e posso dizer com honras que nos entendemos bem. Mesmo dentro de nossas peculiaridades tão distintas acerca de personalidade, comportamento, modo de pensar. Nossa amizade é assim, porque o que existe entre nós é um elo de imenso respeito mútuo. =)

    Eu também te percebo além, mais profundamente. Você é bela sim Dani. Desde a primeira vez que li aqui e de todas as leituras para cá, eu fui percebendo além das palavras um pouco de como você era. Não há nenhum mistério. Aprendi a te entender. Como você és. E sempre te considerei alguém assim inabitável sim. Mas jamais deixei de vir aqui te conhecer e descobrir um pouco a cortina que te cobre.

    Ler você é sim um ensaio à nossa beleza interior, porque finalmente estabelecemos um contato maior com esse nosso invisível. Não sei porque você se esconde, fica tão escapista. Tem uma coisa tão bonita dentro de si. As vezes o que está externado não reflete bem o que somoso, como uma casca não consegue demonstrar como é o recheio e o seu sabor.

    Você é magra sim. Fato. Mas o que isso tem a ver menina? Que coisa. Mas olha, adorei esse texto. Eu consigo captar uma delicadeza mais intensa sua. Lá dentro, a essência que te faz. Você mostrou doçura. Tu parece afirmar essa questão de ser dura e de olhar vazio como um estigma. Olhos dizem muito. Mas não são absolutos. Nem por isso cegos sentem menos do que quem consegue passar sentimentos olhando. A questão está na expressão. Mas a expressão que vem de dentro. E você pode nem demonstrar que algo te afeta. Mas sempre há uma ponta de luz lá dentro acusando algo. eu perceço isso em ti.

    E acho bonito isso de amar sem se prender à uma imagem.
    Nina, você se exige tanto e escreve isso? A frase final é uma das mais lindas que eu já pude ler de ti.

    “Porque, mais importante do que enxergar um ser invisível é poder, além disso, ouvir a sua voz tão rouca e tão fraca e ver, através dessa pessoa, a sua alma literária, sua beleza extrema e sagrada, pois essa é a beleza que se guarda e se liberta.”

    Poesia tão doce, tão pura e singela. Sorri encantado aqui. Continuo te achando uma pessoa única e maravilhosa. Sei que o é. Mesmo que nem tu se acredite nisso. Enfim. Mais importante do que enxergar um ser invísível é poder, além disso, entender toda a sua alma e sua beleza extrema e sagrada. Essa é a sua beleza que eu guardo. Num cofre a sete chaves.

    =)

    Respondendo lá o coment…

    Ah, querida, Deus está tanto ti do que em mim. Vou te explicar. Você não acredita nesse estereótipo e imagem de Deus fabricada pelas Igrejas. Eu sei. E respeito.

    O fato é que para mim, todo mundo tem um Deus pessoal. Entenda essa definição como por exemplo a personalidade. É o deus que te orienta. A sua personalidade alfa. Como algo que que estimula. Pode ser um estado de espírito ou uma meta ou objetivo. Um estilo de vida. Deus nesse sentido você tem.
    Não encare Deus como essa entidade que apregoam as religões, mas como o “deus” da sua beleza interior que enriquece você.

    Falo isso não pra impor algo, mas pra te mostrar que de alguma forma você acredita em um “deus” sim. Talvez não com esse nome, nem com o estereótipo feito pelas religiões, mas sim pelo que o teu coração vê, pede e necessita. A imagem que fazemos por fora não importa, se dentro dela estiver o que procuramos. Afinal, pois essa é a beleza que se guarda e se liberta.

    Não sei se tu me entendeu, mas resumindo. Não falo de Deus, desse que tu diz não acreditar. Falo desse “deus” pessoal, essa essência e aflição que estimula nossas reflexões. Nesse sentido tu o tem sim.
    O nosso “deus” é como o que procuramos ao olhar pro céu para refletir. Um Pequeno Príncipe talvez. O que importa não é o que os outros acreditam ou impoem para você, mas o que você acredita para si mesmo (o que inclui até não acreditar).

    Tudo isso só pra dizer que o que você, APENAS VOCÊ vê é importante também.

    =)

    Beijo.

    ps: e dedicididamente esse é o teu texto mais belo.

  8. Nina, querida!

    Sim, é muito lindo o texto.
    E esse pré-conceito com pessoas bonitas ou feias, é a maior besteira.
    Não é disso que depende a inteligência, infelizmente.
    E sermos presenteados com uma bela forma, é prazeroso. Mas ninguém deve se preocupar com isso, afinal, até o belo é relativo.

  9. “Eu não sou eu nem sou o outro
    Sou qualquer coisa de intermédio
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim ao outro”

    Mário de Sá-Carneiro

  10. Idem, idem.
    Só gostaria que as distâncias entre nós fosse menores e nossas conversas mais frequentes. Mas de tudo, o que mais odeio é sentir falta de abraço que nunca recebi.
    Te amei antes mesmo que meus olhos pudessem ver.
    Adoro essa história. Minha história.

    BEIJOSDEQUEMTEAMA

  11. Pingback: Adaptação | sobre fatalismos

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