Workaholic

Trabalhando em excesso!

...

Segundo dia de estágio e já me sinto em pleno fracasso. Não é pelas atividades (são poucas, na verdade), mas sim pelo excesso de tudo que me ocorre. Começo às sete da manhã na sala da vice-direção (portanto, devo estar acordada as seis e me arrumar até seis e quarenta, é uma bênção que o meu estágio seja no colégio e eu more perto), recebo minhas tarefas e esforço-me para cumpri-las na frente do computador, enquanto a vice atende ao telefone, participa de reuniões, etc. A cada meio minuto, detalhe, chega um aluno querendo alguma informação, cobrança, assinatura ou carimbo. Enquanto isso sou obrigada a exercer a minha paciência com o navegador do século passado e a impressora que é minha inimiga mortal. Dez da manhã engulo o lanche do colégio que não é nutritivo e nem enche barriga. Em seguida, me encaminho ao protocolo e arquivo informações nas pastas de alguns alunos. Essa parte é divertida, pois eu me sinto como uma personagem de José Saramago em Todos os Nomes, afinal, é incrível o que se fica sabendo dos estudantes só em avaliar suas fichas. Meio-dia saio, mas não volto para casa. Se tiver dinheiro, almoço com alguns professores no restaurante habitual deles. Se não tenho, volto à cantina e engulo outra bobagem que me forre o estômago até as seis. Assim que termino, bebo água e corro para a sala do grêmio. Tomo algumas providências essenciais e espero bater o sinal de início das aulas do vespertino. Quando isso ocorre, vou para a minha sala e espero sentada a chegada do professor. Não converso com ninguém.
Estou gostando das minhas matérias curriculares esse ano. Fora o fato de que tiraram Geografia, Redação, História, Inglês e mais meia-dúzia de importantes disciplinas – tudo têm ido bem com Metodologia Científica, Sociologia, Filosofia de Direito, Estatística, Gestão em Tecnologia, Trabalho de Conclusão, etc. Com exceção de um único indivíduo, os professores são maravilhosos. Tenho aulas freqüentes e produtivas. Compensa os péssimos três anos anteriores.
Então, como se ainda não bastasse, existe a minha dependência de Matemática (matéria que eu fui inventar de perder no primeiro ano e que tento recuperar agora, no último!). A sorte é que o bom e velho professor nunca vai dar aula. O azar é que, quando isso acontece, preciso esperar até dez e vinte da noite para ir embora. Volto para o campo de concentração morrendo de medo de ser assaltada no caminho. E, como se ainda não fosse possível o tamanho da minha loucura, ainda decidi fazer Francês, História e Redação, também no turno da noite. Afinal, são matérias que eu já não tenho e o vestibular está chegando. Os professores são ótimos e as aulas costumam ser dinâmicas. Inclusive, surpreendi-me com o professor de História – um sujeito que me parecia, antes, excessivamente sério e de pouca conversa. Mas ele têm se mostrado ótimo em debates e é um bom piadista.
Com todo esse desgaste (aliás, sinto-me como uma operária em plena revolução industrial, com salário baixíssimo e carga horária pesada), hoje, no meu segundo dia de estágio, acabei por discutir com a professora Lu, de Legislação Aplicada. A aula dela é somente uma vez na semana e nos dois últimos horários. Então, ela decidiu adiantar uma atividade na hora do intervalo. Naquele momento, todavia, eu não estava na sala. Era intervalo (como já mencionei) e eu fui conversar com uma amiga. Ao voltar, encontrei as meninas fazendo o cabeçalho da atividade. Elas me convidaram a sentar e fazer também, avisando-me previamente que a professora colocara para ser feita apenas em dupla. “Mas eu acredito que poderemos fazer em trio”, dissera-me uma delas. Também não vi problema, sempre fazemos isso e os professores não reclamam (até concordam, já que é menos trabalho para se corrigir). Eu já havia respondido três das cinco questões, quando chega a Lu. Comuniquei educadamente que estava fazendo em trio, ao que ela respondeu que não, que eu poderia fazer muito bem individual ou com outro colega. Ainda insisti no argumento de que sobraria uma pessoa de qualquer jeito (senti-me como na expressão “a Áustria é o que sobra”, não me lembro o autor, mas sei que tal citação é relativa a Primeira Grande Guerra), já que a sala estava em número ímpar. Não funcionou. Então, como eu não ia ser idiota de fazer tudo novamente e as meninas não iam colocar o meu nome mesmo (nem que fosse preciso tirar o nome de uma delas, que nada fizera) – levantei, retirei minhas coisas e saí da sala.
A professora Lu veio atrás de mim, chamando-me, ainda por cima, em alto e bom som de “preguiçosa”. Eu me virei e disse-lhe que ela me vê ali os três turnos, todos os dias da semana (entre vice-direção, sala de aula, grêmio, laboratório de Informática e biblioteca). Portanto, ela não pode acusar-me de algo que eu não sou e nem saberia ser se quisesse (já que não faz parte da minha natureza). Eu pedi desculpas à professora pela minha atitude de ter saído da sala, mas afirmei que a conduta dela estava me prejudicando. Havia esgotado a cabeça por conta de um capricho disciplinar.
Essa mesma professora, certa vez, perguntara, em tom de brincadeira, o motivo de eu nunca voltar para casa. Acredito que hoje posso responder-lhe com exatidão que não volto porque lá é pior, porque “preguiçosa” é o tipo de adjetivo carinhoso que costumo ouvir dos meus pais e, sinceramente, o único lugar onde eu me sentia ocupada e satisfeita era na escola. Aqui o respeito é mútuo e eu não sou inferiorizada pela minha idade. Mas hoje, especialmente hoje, eu me senti mal e infeliz por ter sido tratada dessa forma.

Anúncios

16 respostas em “Workaholic

  1. Eu gostei, mas vá experimentando, que para mim é uma surpresa todas as vezes que aqui chego.

    Seu texto me fez ter saudades da época da escola, faculdade, pós…Preciso voltar, preciso.

  2. Gostei do novo layout. Ficou chique!
    Eu tenho muitos traumas com escola, de tanto que tive que discutir com professor. Já passei por essa situação de o prof. não deixar fazer trio.

  3. Nunca sei se o que escreves é verdade ou mais uma crônica. Por um lado acredito que é verdade, por insistires nesse tema. Por outro, desacredito, a vida que descreves a mim parece inverossímil.

    Mudas tanto de layout que quando por aqui passo já espero a mudança.

    Diferentemente dos outros, o texto não é surpreendente mais continua escrevendo bem.

  4. Oi Nina,

    à priori, gostei do seu novo layout. A cada visita é uma nova surpresa, seja em aspectos estéticos, como nos textuais.

    Admiro sua rotina. Demasiadamente corrida, mas que desperta saudade das minhas épocas pueris de escola. Obrigado por me proporcionar essa nostalgia.

    Parabéns pelo blog. Sempre passo pelo `sofre`. Ele, sem dúvida, é um de meus prediletos.

    Beijos

  5. Nossa, eu imagino o ritmo frenético que você deve estar mesmo. Me sinto um pouco assim agora que tô estagiando.
    Compreensível perder a cabeça, apesar de não ser a saída mais legal.
    Boa sorte, espero que você encontre alguma paz nessa loucura toda! ;)

  6. Escrevi sobre o mesmo tema no meu canto.
    Ás vezes (para não dizer na maioria das vezes) sou mal interpretada e não me sinto valorizada mesmo tendo um monte de atividades, maaas… nosso esforço valerá a pena no final, eu sei que sim.

    beijos e ótima semana! :)

  7. Que loucura, Nina!
    Admiro você por dar conta desse monte de coisas, fico me imaginando no seu lugar, já quase surto com as aulas e minha rotininha medíocre de estudos…
    A gente tem que se acostumar, porque no mundo tá cheio de gente que não sabe nada sobre nós e ainda por cima vem falar besteira. É o mal da humanidade. Um dos.

    Respondendo ao seu comentário lá no blog, concordo mesmo que a Audrey só fez papéis medíocres na sua carreira. O talento dela engrandece o personagem, mas ainda assim sao todos muito bobinhos. Só de historinha estilo moça-feia-que-se-transforma, como Cinderela, são uns 3! Na verdade, creio que o papel mais profundo dela – e olha que nem é tão assim – é a Holly.

    Beijos

  8. Acho que você deveria por o pé no freio. Na faculdade, meu curso duraria quatro anos. Fique um semestre a mais para poder cursar matérias optativas que me agradavam. E, além disso, fiquei em situação mais confortável para poder estudar, trabalhar e fazer estágio. Não perdi e sim ganhei um semestre. Até daria para ter feito tudo nos quatro anos, mas creio que o aproveitamento não seria tão bom quanto foi.

    Então, sugiro que você repense sua agenda diária e não se ocupe tanto. Prolongue os seus dias na escola com horas vazias. Conhecendo-a como conheço, creio que este tempo “vago” poderá ser muito produtivo e prazeroso.

    No mais, se ocupar pra “fugir” de algo é carregá-lo sem saber.

    BEIJOSDEQUEMTEAMA

  9. Cacilda! Você acorda às seis da matina e os pais ainda te chamam de preguiçosa?
    Eu também ia preferir ficar na escola.
    Obrigado pela presença lá em nosso niver.
    Bjooo!!!

  10. a doce realidade se apresentando…

    mas pq q vamos nos ter que nos acostumar? se não gostas… mude até achar… são quase 80 opções (nem todas viáveis ou boas, é verdade), vais achar uma!

  11. Eu não precisaria ler este texto para saber o quanto tem sido dificil para você. Percebo pela sua expressão o quanto anda cansada tanto fisico, quanto psicologicamentente, Lu pode ser classificada como a nova carrasca, mas você já passou por outras piores (nossa querida Jalma, que saudades!). Sei que está passando por dificuldades… Poderia dizer muitas frases clichês, mas creio que você já as conhece. Apenas estou aqui.

    P.S. Amei o layout, ficou muito melhor que aqueles outros.

  12. Cara, você, sim, é que uma pessoa ocupada! :D

    Detesto injustiças, sabe?
    Mas não deixe que coisas assim estraguem seus dias futuros.

    E eu gostava mais do outro tema, rs.
    Se bem que eu gostava ainda mais de um tema lilás que ficou por um tempo no blog, lembra?

    Beijo.

  13. vc tem corrido bastante, Nina.. muita força pra ir até o fim. beijo beijo, e eu vou torcer por você esse ano.

  14. Pingback: Workaholic revisited | sobre fatalismos

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s