Hoje o dia não está para bossa

Carey Mulligan em cena do filme Educação

...

Esta casca não me cabe, nada aqui me convém. Meus colegas de classe não me são interessantes, canso-me de vê-los, cotidiano e religiosamente, todos os dias. No momento eles me parecem nitidamente infantis, como se houvessem chegado a um extremo que me parecia, anteriormente, inalcançável. Chego em casa tarde, saio cedo. Ao retorno, desabo na cama, um desmaio. É melhor desse jeito. Pior é ver os outros, os que exigem respeito por se considerarem adultos, suficientes e bem-resolvidos. O lado financeiro sempre conta e penso no quanto é ruim ser tão dependente de terceiros. Ao término do estágio, tenho enxaqueca – uma evolução muito maior de problemas anteriores. Não consigo ler o Hermann Hesse, não presto atenção. Os outros continuam a me adjetivar de “preguiçosa”, sem compreenderem que, na realidade, estou distante, ausente, aérea, completamente fora de mim, mas escapando da insanidade. Sinto falta de conversas, de pessoas em geral – algo que jamais pensei que iria admitir. Cheguei a um nível extraordinário de ausência de humanos, pois percebo que calculo o horário em que o professor de História chega e quando precisamente ele não dará aula. Nossas conversas não são complexas e nem utilizam a finalidade do conselho mútuo, mas qualquer palavra que trocamos, de monarquia até eleições me parece um sinônimo de habitação, de presença, de amizade. Mas ele é um professor, e a condição é que eu, enquanto aluna, lhe sou inferior em todos os aspectos. Eu sinto falta da amizade das pessoas, mas não me lembro da última vez em que, de fato, pude ser plena de amizade a alguém. E vice-versa.
Me refugio na biblioteca da escola. O Melhor Amigo do Meu Amor Platônico de Outrora me percebe triste e senta-se ao meu lado para conversar comigo. Foi uma cena idêntica ao meu primeiro conhecimento com o Bibliotecário. Eu respondo que não estou para bossa, que significa não estar bem para conversas. Ele não liga, diz que serei ao menos uma boa ouvinte. Então começa o seu “relato triste” que me faz rir mais do que tudo. Diz que é pai desempregado de cinco filhos e que a esposa o detesta, achando-o um desocupado completo. Sem contar que tem tara por patinhos de borracha e pensa em se matar todos os dias por não conseguir resolver seus problemas. Eu ri da desgraça alheia que também é a minha e acabou não tendo jeito. Conversamos.
Falamos dos problemas habituais de adolescente: colégio, família, independência restrita, Amor Platônico de Outrora… O que me mata é que depois ele chega aqui (o Amor Platônico de Outrora), percebendo o tamanho da minha infelicidade e pergunta se está tudo bem. Eu afirmarei falsamente que sim, não por educação, mas por orgulho e ele vai achar que é isso mesmo. Então me dará dois beijos na face, como é seu hábito e marca registrada em todo o harém que ele montou e ponto final. Ele volta para o seu mundo cor-de-rosa com aquele sorriso cínico que eu tanto gosto, mas que tanto me fere. E ainda me provoca com idiotices como: “quando casarmos…” ou “quando você se tornar minha esposa” e blá, blá, blá. Se eu fosse realmente ingênua, como fui, aos quinze anos (quando o conheci), teria caído nessa. Mas quebrei a cara com a vida e não irei ensiná-lo o mesmo procedimento.
Mês que vem é a porcaria do meu aniversário e a Adolescente Vulgar não me fala em outra coisa. Ela mesma inventou um luau (ou seria um cinema?) no sábado que antecede a data fatídica e convidou meio mundo de indivíduos cuja presença não me interessa e nem me é necessária. Dezoito anos nada me lembra mais, a não ser o infortúnio do título de eleitor que eu ainda não tirei. Estou pensando seriamente em não ir à comemoração alguma. Até porque, não quero ter que ver novamente o rosto da Namoradinha Não-Me-Toques de Olhos Azuis. Outro fato que odeio: meus amigos arrumando namoradas. Eu gosto muito das amantes deles. Mas namorada tem um quê de posse e eu me afasto dos que mais amo (ou sou afastada, na maioria das ocasiões). Namoradas impõe limites. E eu nem posso acusar, também serei assim – algum dia.
A Falsa Centralidade me ignorou hoje porque eu discuti em sala-de-aula com a porcaria do grupo que apresentava (pessimamente) o trabalho de Metodologia Científica, daí ela resolveu defender os mais afetados pela camada não-intelectual da sociedade capitalista em que vivemos e deu no que deu. Odeio ser ignorada, ela sabe disso, mas ignora o fato de que eu odeio ser ignorada. A minha Chefa Loura De Estágio me manda colorir cada letra de enes documentos, achando que isso aqui é jardim-de-infância. O outro me telefona e pergunta se eu vou dançar tango esse sábado. Desligo na cara dele em sinal de resposta. Ele liga de novo e pergunta se o dia não está para bossa. Eu respondo que nem para rock quanto mais. Já deu. Amanhã é feriado e será muito pior – detesto ter que ficar em casa, olhando para a cara daquele povo que só sabe reclamar de sua vida burguesa e aristocrata. Daí me lembro de um vídeo que vi, há muito tempo, de Chico Buarque falando sobre Tom Jobim. Então veio um passarinho, cantando sem parar, interrompendo a conversa do Chico. O mesmo não resistiu e comentou, “olha o Tom aí”. Na próxima vida, serei eu borboleta. Pouco viverei, mas só o prazer de voar e de me desprender já compensa. Então vou me suicidar ali de novo. Já volto.

“O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração…”
:: Desafinado – Tom Jobim.

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17 respostas em “Hoje o dia não está para bossa

  1. Nina, pegue esse monte de colegas inúteis e os transforme em personagens…use-os como matéria prima da habilidade que lhe é mais cara: e s c r e v e r.

    Todas as histórias precisam da banda podre!

    Dei boas risadas com o seu texto. =)

  2. Oi!
    Voltei!
    Vou escrever pouco porque tou com sono… e não vou comentar esse texto porque miséria por miséria eu também tou na mesma!
    Visita lá e dá a nota. (É, eu me importo com a opinião alheia)

  3. ah nina! sei como é sentir falta de pessoas, e em outros momentos sentir por elas repugnância, um desejo por distância, enfim…
    tb odeio as namoradas dos meus amigos. não, não as odeio. odeio essa condição. sim, tb sou SEMPRE afastada. e as vezes eles mudam, ficam cheio de dedos, parece q têm medo.

  4. Nina, as pessoas, por mais que façamos o nosso melhor, irão nos criticar, achar defeitos em nós ou no que fazemos.
    O negócio é ir vivendo, sabendo de si e do que se faz. Sem cair na pilha de ninguém. Ao contrário, incomodemos bastante, hehe.

    “Pouco viverei, mas só o prazer de voar e de me desprender já compensa. Então vou me suicidar ali de novo. Já volto.”
    Gostei!
    Mas não se suicide, rs. =P

    Beijo.

  5. Dear

    Eis que nossas diferenças começam a aparecer. Ao contrário de você, não me importo em ter que me relacionar ou conviver com pessoas que julgo desagradáveis ou pouco interessantes. Há muito aprendi a me adaptar a isso. Muitas pessoas se impressionam com minha facilidade de me entrosar com grupos desconhecidos, com minha falta de inibição para me aproximar de alguém e com a forma com que aprendi a me comunicar com todo tipo de gente. Creio que seaj algo que me levou a carreira de comunicólogo, e que muito me ajuda. Há quem diga que se eu não fosse um jornalista, eu seria um diplomata. Nisso concordo.

    Não sei se você tem essa pretensão, de mudar seus hábitos. Acredite, um há um mundo novo por trás de todas essa regras que inventamos para nós mesmos. Conhecendo sua vocação de vitoriana à frente de seu tempo, quebrar regras combinaria muito com você. Inclusive aqueles que você criou. Sugiro que tente.

    Há um outro lado de toda essa minha desinibição e facilidade de me aproximar de outras pessoas, em especial de mulheres: eu desperto rumores. Muitos pensam que sou gay. A maioria das mulheres me vêem como um homem de uma supereducação respeitosa, despretensiosa e rarissíssima. Muitos me admiram, outros me detestam e há quem pense que sou gay. Eu nunca entendi essa de julgar que educação é sinônimo de homossexualidade. E também, eu simplismente não me importo com isso.

    Mudando de assunto, há poetas que defendem a idéia de é possível se acostumar com a tristeza e com a infelicidade. Eu as acho necessárias para que saibamos reconhecer o que há de bom no mundo, mas não me conformo com ela. Eu dou cor a tudo ao meu redor, sem muita dificuldade. Não sei o que você pensa, mas, pelo pouco que te conheço, sei que você é capaz de colorir um mundo inteiro. Pelos seus relatos, tenho medo que você passe a achar a tristeza algo normal. Estar a frente do seu tempo, ter conceitos diferentes, opiniões, filosofias, gostos e intelecto ditos superiores ao da maioria que te rodeia não há torna melhor. É apenas diferente. Só irá aprender a conviver bem com isso quando entender tal coisa: “Sou apenas diferente”. Acredite, também há muito o que se aproveitar entre grupos diferentes. Sugiro que tente também.

    Ciúmes. Afff! Tenho pavor dessa palavra. Nisso, creio que eu seja único nessa planeta. Não tenho ciúmes de nada, nem de ningúem. Nunca censurei meus amigos ou amigas. Nunca privei em nada as namoradas que tive. Minha ausência de ciúmes sempre foi vista com falta de amor, embora eu tenha feito serenatas e poesias para elas. Eis uma equação que também não entendo. E, todas que tentaram me “controlar” de alguma forma, acabaram por me perder. Não por menos, sigo como um dos poucos de minha geração de amigos que ainda está solteiro. Não nasci para ser ‘”prisioneiro”. E não espero que alguém entenda isso.

    No mais, ocupar-se para esquecer, destrair ou fugir. Há uma grande perda de tempo nisso. Sou do tipo que, embora seja chamado de “pai da paciência”, não gosto de deixar nada para depois. Principalmente problemas! Sou bem prático. Se me incomoda ou me atrapalha, dou um jeito. Eu sempre me viro. Volto a dizer, não há nada como estar em paz. Onde está a sua?

    Boa sorte

    Beijosdequemteamamuito

  6. Faz tempo que o dia não está para bossa pra mim.

  7. Meus Deus!
    Calma, os 18 anos não podem ser tão ruins assim.
    Melhor agradecermos por estarmos vivos. =)
    Um passo para a independência??? Talvez… faça sua parte. Não espere nada de ninguém. Foi isso que aprendi naquele tempo.
    É que 18 anos já foi há muito tempo para mim.
    Kiss
    ps: sobreviveu ao feriado? hehehe

  8. Mais um texto maravilhoso..
    Identifiquei-me com várias partes (e confesso que queria não ter me identificado) haha
    Beijos

  9. O que você tem meu anjo?

    Fiquei preocupado com a sua mensagem lá. Infelizmente ando com pouquíssimo tempo. Estou trabalhando até a noite agora. Aff!
    Mas ó, estou sempre aqui vi. Sempre! Vou passar pra ler com mais calma.
    Se for a respeito disso, prometo deixar minhas impressões aqui.

    Se quiser mande um email pra mim. Respondo logo.

    Eu volto. Guenta aí tá?
    Eu aqui não te abandono não.

    Beijo.

  10. E olha só quem voltou ao meu blog, rá!
    Fiquei mui feliz, viu?
    chegar em casa tarde e sair cedo tem sido meu lema esse semestre, esse negócio de estudar de manhã e de noite é loucura, insanidade puuuuuura!
    Estou rindo à beça do 1o comentário, e super concordo!

  11. A sua seguinte frase, transparece o que eu estou sentido no momento, com os meus amigos: “Meus colegas de classe não me são interessantes, canso-me de vê-los, cotidiano e religiosamente, todos os dias. No momento eles me parecem nitidamente infantis, como se houvessem chegado a um extremo que me parecia, anteriormente, inalcançável.”

    Estou em um momento que eu não gosto da presença das pessoas que estão disponíveis e não sei quem é quero perto de mim.

  12. Sou obrigada a concordar com o que Onze Palavras comentou: pegue esse monte de pessoas e transforme-as em Literatura! Henry Miller dizia que é o melhor jeito de se esquecer uma mulher, certamente também é o melhor jeito de esquecer, ou fugir, dessas pessoas que incomodam e fazem mal simplesmente por existirem e serem quem elas são.
    Beijos

  13. Te sinto triste sim. E toda essa situação constrange um pouco, porque é um embate conosco mesmo. As coisas poderiam ser diferentes não? Mas não meu anjo. A vida parece cruel às vezes. As pessoas tanto quanto. Mas a verdade é que centralizamos demais o mundo ao nosso redor. Isso tudo atrai uma parcela enorme de aflição. O que está ao nosso redor é independente de nossas decisões ou desejos. Eu sei como é, porque já tive essa sensação numa intensidade insuportável, que me afligia como te aflige agora. Porque tudo parece ir contra a gente. É difícil você andar na contramão, quando a multidão na rua andando na outra direção vai te empurrando. É difícil ser esse avesso. Viver com esse outro lado da moeda.
    O importante é que tu demonstre mais liberdade. Essa dependência causa desconforto na gente, porque tentamos a todo custo estar inserido num contexto onde as pessoas nos notem, nos amem. Tudo parece mais cinza quando somos ignorados. Mas não anjo. Não tanto quanto imaginamos.

    O certo é nos desprendermos mais disso. O que é difícil pra quem tem uma personalidade assim que procura em tão pouco, coisas para se encantar. Fico preocupado contigo, por você estar assim. E acredite Nina, eu me identifico muito contigo. Muito na forma de sentir e ver o mundo ao redor, e isso me faz ficar mais sensibilizado. Temos semelhanças em alguns aspectos, e isso me permite te enxergar com mais respeito. É claro que temos milhões de diferenças também, e quando discordo de tu, eu falo aqui, na cara dura mesmo.

    O fato é que é necessário sermos borboletas mesmo, a fim de termos mais essa liberdade de encanto sabe. É isso que é essencial. Não adiante nos atermos em pessoas que não somam pra gente e só deixam a gente pra baixo. É melhor se ater a laços mais reais e cientes do que sentimos. Nâo vamos ligar se as pessoas ao redor nos cansam. Deixe eles com as caras de pasteis. Viva com a sua colorida. Você é mais você. Você tem mais. É você, exclusivamente que persegue seus caminhos, você que almeja as metas e anda com os seus pés. Seja ciente da sua responsabilidade a da importância que você tem pra si. E logo tu se desvirtuará mais dessas externalidades que te sugam energias necessárias a ti.

    Eu entendo a aflição. Esse negócio de ser prisioneiro também não dá. Mas tu não pode ser de sim também. É sempre complicado entender a gravidade e extensão das coisas na nossa vida. Mas é mera ilusão. Só precisamos ser livres deixando os outros livres. Controlar é uma coisa que perpetua um aprisionamente absurdo e prejudicial. Não podemos controlar a gente mesmo.

    Embora, não se desespere anjo. Você sempre terá pessoas como eu na sua vida. Encontre as pessoas certas para se amparar. As pessoas que te amam e te consideram, te respeitam e te dão auto-estima, que encontram suas melhores qualidades. Foque seus pensamentos nas pessoas que te importam, nas que se importam contigo. Para que ficar seguindo a sombra de pessoas que sequer ligam pra ti. Olhe pela janela e encontre o horizonte mais bonito. E que te pertença.

    Fique bem meu anjo. Sorria um pouco. Procure ficar em paz.

    Beijo de quem te ama.

    =)

  14. Muito bom, seu texto.
    Não sei quem é seu amor, nem quem é ela que fala o final do texto, mas o contexto em si, gostei muito.
    Leva jeito pra escrever, eim guria?
    ;*

  15. Muito bom, seu texto.
    Não sei quem é seu amor, nem quem é ela que fala ao final do texto, mas o contexto em si, gostei muito.
    Leva jeito pra escrever, eim guria?
    ;*

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