Sissi

“Conhecera a dor e subitamente se transformara em adulta precoce, desconfiada, para sempre distante. E quando reencontrava os lugares do sofrimento, reconhecia esse gosto que não a abandonava mais, o de morrer depressa, da chama sufocada, o risco absoluto, o perigo – a ausência.”
::
Do livro A Valsa Inacabada, de Catherine Clément.
 
Rainha Elisabeth da Hungria, imperatriz da Áustria com suas famosas estrelas no cabelo

...

Na quarta-feira chuvosa, o céu tornara-se vermelho em noite alta. Fazia toda a diferença, pois era o prelúdio de que não haveria aula. Os estudantes eram escassos, o trânsito permanecia em greve de andamento e civilidade. Mas eu estava lá. E ele também. Aluna e professor seriam motivos suficientes para que uma aula de História acontecesse, mas nem toda a turma estava presente e o mestre decidira ir para casa. A principal passagem do colégio tornara-se Veneza e bem que poderíamos tomar um barco para chegar à outra margem. Rimos com a constatação e eu o fiz observar que não era preciso tanto, pois eu conhecia um caminho mais prático. Ele aceitou e agradeceu ao chegar na saída. E, ao me ver de guarda-chuva, pediu-me uma “carona”. Em troca, me levaria em casa, pois considera perigoso que uma donzela como eu caminhe até esse horário sozinha. Concordei como quem sela o propósito “tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar”. E caminhamos.
Divagava sobre assuntos diversos, rimos bastante e eu decidi que lhe faria companhia no ponto perto de minha casa, até que chegasse o seu ônibus. Ele tentou dizer o meu nome mas, como sempre, esquecera. Eu lhe disse e ele repetiu, como das outras vezes:
– Daniele, Daniele, Daniele… É um nome simples, mas incomum. Só conheço você de Daniele.
– Era o nome da minha avó. Um nome antigo mesmo. Mas tenho um apelido que certamente o fará lembrar-se de mim, que é… Veja, seu ônibus se aproxima!
Apontei-lhe o coletivo e ele levantou, desculpando-se. Então, já dentro do ônibus, na escada, lembrou-se de que eu deveria completar minha frase:
– E então, qual é mesmo o seu apelido?
– É Sissi.
– Sissi?
– Sim, Sissi. Amanhã lhe explico melhor.
E o ônibus partiu, enquanto eu fiquei a segurar o guarda-chuva que já não me protegia.
Eu poderia dizer-lhe Nina, mas escolhi Sissi porque esta vem a ser uma personagem histórica. Isabel da Baviera era o verdadeiro nome de Elisabeth – imperatriz da Áustria, rainha da Hungria. Ela recebera o apelido Sissi quando pequena, o que também aconteceu comigo aos quatro anos de idade, quando minha avó começara a me chamar dessa forma. Ela dizia que, assim como a imperatriz, eu também tinha a cintura mais fina da nobreza. A minha magreza, naquela época, começava a se evidenciar. Mas a verdadeira Sissi foi uma mulher doente, sofria de depressão. Passava três horas de cada dia dedicando-se a arrumar os cabelos, em penteados complicadíssimos. Ditava moda e fazia dietas rigorosas, passando dias à base de sopa e frutas ou se recusando a comer alimentos sólidos (que eram, como pedia aos seus criados, espremidos). Pensava que choques térmicos poderiam ajudá-la a emagrecer e, por isso, tomava banhos de vapor para, em seguida, mergulhar em banhos de água fria. Tinha também o hábito de colecionar fotos de mulheres bonitas, a fim de se auto-comparar. Em vida, sua única intenção política era a de ser rainha da Hungria, país de que gostava muito, detestando a Áustria e seus cidadãos na mesma proporção. Teve vários amantes, mas também amou e respeitou o marido. Carregou o fardo de ver o príncipe-herdeiro, seu filho, falecer muito jovem. Conseqüentemente, enlouquecera, dizia que ele iria renascer a qualquer custo, colocava almofadas por baixo do vestido, em volta do ventre e anunciava estar novamente grávida de Rodolfo. Acostumou-se tardiamente a aristocracia e detestou desde o início a presença da sogra e o nome que a arquiduquesa lhe escolhera (sem consultá-la): Elisabeth.
Eu lhe dissera tudo isso no dia posterior da chuva e ele ouvira com atenção muda, sem fazer com que o silêncio fosse algo inconveniente. Ao notar o entristecer da voz que lhe narrava a história de uma outra vida, ele anunciou, de súbito:
– Então serei eu o seu Luis da Baviera.
Eu sorri, lembrando-me do primo Luís, que morrera em 1886. O rei louco das orgias infinitas, quem mais se aventurava nos perigos confortáveis da liberdade. O homem que ensinou Sissi a ter inveja do desprendimento, mas que também a fez conhecer a sensibilidade, enquanto esperança.
Luís era, para Sissi, o seu arcanjo Gabriel, aquele que sempre a protegia, estivessem longe ou perto um do outro. Preferencialmente perto, pois era um casal admirável esses dois que se amavam em segredo e não poderiam ficar juntos, cada qual com sua rigidez burguesa e notória. Era o rei das rosas, gostava muito dessa flor que sempre dava as boas-vindas quando a imperatriz o visitava.
O rei confiava plenamente em sua prima, devotava por ela um amor incestuoso, dizia. Confessou-lhe sua homossexualidade, segredo do qual fora importante que ela tomasse conhecimento, pois ali revelou-se o motivo do seu amor tão grande. Ele não a ameaçava de forma alguma, ele era tão frágil e errante quanto ela e ambos sabiam de suas limitações. Ele era a águia que voava na direção do infinito e ela aquela que se direcionava ao mar. Pura gaivota.
Portanto, era belo o que fazia o professor, colocando-se no lugar do rei para agradar uma aluna. Senti que a solidão ainda era plena, mas não totalmente ao redor, pois se eu necessitava de um amigo, era certo que o possuía agora. Lembrei-me então do fato de que Sissi tinha um dom literário. E, em segredo, escrevia poemas diversos em homenagem ao primo, versos que ele desconhecia, como eu faço, com tal esboço, algo que a águia, o rei, o rei das rosas – jamais irá ler.

Anúncios

10 respostas em “Sissi

  1. Primeiro:
    Obrigado pelas felicitações! De verdade! Fico tão feliz com isso!
    Não sei se você chegou a ver, mas o meu ‘lado’ da história é esse aqui: http://coracaodepoeta.wordpress.com/2010/04/26/o-que-e-o-amor-e-o-que-ele-significa/

    Então, que bom que fizemos você acreditar! A verdade é que acho que pra termos conseguido isso contigo, antes, fizemos conosco. Eu andava meio descraditado, sabe? E meio sem saco, também… Mas a doce Isis surgiu… Como a calmaria, sabe?

    E quanto ao convite, será um prazer enorme chamá-la, mas não faremos festa nem nada… Apenas será uma cerimônia civil, e sem data prevista, ainda… Algumas coisas a resolver, mas claro que chamaremos!

    Não sei nem se você se lembra, mas, seguindo a conselho seu (conforme já te disse uma vez), estamos juntos de novo… E agora, com fé, carinho, cuidado e determinação (emprenho, paciência, e dedicação, também), para todo o sempre!

    Beijo grande

  2. Invejável seu conhecimento da História e das histórias.

    Simples e culto.

    Ensine-o a fazer renda, então.

  3. Ótimo o texto…. E fica evidente o seu fascínio por história. Mas isso todo mundo já comentou, né?!!!

  4. Oi! Vim retribuir sua visita e ganho um presente tão bacana, uma história que prende atenção do início ao fim… Vc tem intimidade com as palavras, isso é fato! grandes beijos, voltarei, sempre!

  5. Amei a históri-comparação com sua vida.

    Amei mesmo!
    Melhor texto ever que já li aqui, Nina! =)

    Amei as fotos do seu flickr, também a achei super magra e LINDA… Acho que já elogiei mas eu acho linda a cor de seus olhos.
    Kiss e bom final de semana.

  6. Você, como sempre, nos brinda com um belo post. Aproveito pra recomendar, se você ainda não viu, o filme Sissi, feito na década de 50, se não me engano. Vi há muitos anos, mas lembro de ter gostado.
    Bjooo!!

  7. Pode repetir o comentário da Erica Ferro?
    Ele com certeza gostaria (e ainda ficaria orgulhoso com os conhecimentos históricos)!

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s