Ao seu útero

 

“Pelo canto do olho, quase pude ver minha mãe de pé na sombra do eucalipto grande onde eu brincava quando criança. Ou ajoelhada junto ao pequeno trecho de terra em volta da caixa de correio, o cemitério de todas as flores que ela tentou cultivar. As lembranças eram melhores do que qualquer realidade que eu veria hoje. Mas corri delas, para a esquina, deixando tudo para trás.”
:: Do (terrível livro) Crepúsculo, de Sthepenie Meyer.

 

Georgiana Spencer Cavendish - Duquesa de Devonshire

...

Da mesma forma que não reconheço o rosto triste no espelho, também constato que não é meu este lugar. Hoje eu lhe gritei: “esta casa não é sua!”, simplesmente porque o dono, seu marido e meu pai, sempre deixou-nos claro isso. Você tenta recuperar a felicidade conjugal e familiar que nunca existiu, enquanto mil vezes já fiz as malas sem que você tomasse conhecimento. Vai embora em dezembro, levando-me junto como bagagem, mas eu não quero – nem aqui, lá tampouco -, quero a liberdade que nunca me foi concedida; quero a minha opinião a ser exposta e considerada; quero traçar um plano, mesmo que depois você responda que é loucura, que não dará certo, mas quero que você ouça e que eu ao menos tenha tentado. Você nunca teve vez e voz porque sempre aceitou que o gênero masculino estava acima e podia impor o que bem entendesse para quem vive nessa condição tão medíocre e estúpida que é a nossa, pois somos mulheres. Segundo você, devo obedecer e respeitar. Por quê? Ah, sim, claro, vocês são meus pais. E eu pergunto: e daí? Que tenho com isso? Pedi para nascer, por acaso? E nessa família, ainda por cima? Nem a chance de escolher com quem conviver, como e por quem eu seria educada eu tive. Mas aceitei. Afinal, era isso ou ser uma criança abandonada (como se a diferença fosse muita). Crianças nunca têm escolha, é por isso que eu sempre detestei ser uma, como venho sendo tratada e, ao que parece, isso não mudará tão cedo. Minha idade revela que iniciarei a vida adulta e você não me deu rumo algum, a não ser o desejo e o anseio de que eu estude em excesso para tornar-me “independente”. É por sua causa que eu jamais irei me casar, é por sua casa que eu não sei mesmo amar e é por causa daquele que você escolhera para ser o meu pai que eu irei estudar mesmo, e muito, para sair daqui em breve sem olhar para trás e sem lembrar lá na frente.
Eu sou um silêncio inenarrável. E agora me vem essas dores aqui no peito, a cada briga, a cada conflito e devaneio. Eu lhe dissera uma vez e você se importara pouco. Ali enxerguei minha absoluta centelha de esperança, pois pensei que devia continuar assim, sem revelar das tantas vezes que na rua passei mal e de quantas tive vertigens e desmaios. A maneira mais difícil de morrer é aquela que se sofre lentamente, é esta, portanto, dolorosa. E eu desejo, como eu desejo, o suicídio puro.
Sua única decisão de livre arbítrio na vida fora a mais errada possível. Deveria ter me abortado quando teve a chance. Mas não. Pois até de você herdei os dilemas e as torturas psicologicamente suicidas.     

“Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado.”
:: Cálice – Chico Buarque e Gilberto Gil.

   

 

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11 respostas em “Ao seu útero

  1. Nem sempre é fácil conviver com aqueles que te puseram no mundo. Eu também já passei por maus bocados com meus pais, mas depois percebi o quanto é bom estar de bem comigo mesmo e com o mundo. Experimente!

    Beijos.

  2. Olha dona Nina, não me vem com essa história de que viver não te interessa agora. Por favor anjo. Essa atitude não. Não quero te ver assim. Não desista assim, na primeira dor. Tente se superar. Encare anjo. Pense nas poucas coisas que te fez feliz. Não fique martelando no que te faz ficar estressada e desanimada e triste com a vida. Pense no que tu gosta, em quem te gosta.

    Vamos, vamos aumentar essa auto-estima tá bom? Te quero ver radiante.
    Conte comigo meu anjo.
    Sempre.

    Ainda vou vir aqui comentar o texto.
    Mas ó, peço encarecidamente. Sorria um pouco.
    Alguém aqui (mesmo estando longe) te ama.

    =)

    Beijocas.

  3. Segredinho: a vida é assim… E a tendência é piorar!

    Triste? Claro que não! Agora sim… Vague mundo!
    O poder está em você.

    Parece Star Wars demais, não? Mas é verdade.

  4. Que bom que ela não abordou pessoa tão bonita em essência e com tamanha revolta.
    Tristes mesmo são os acomodados, que acham tudo maravilhoso, ou ainda aqueles que acham que está tudo péssimo, mas não se movem e tentam mudar isso. Por achar que são incapazes, que não é tarefa deles.
    Já que até aqui, a vida não teve tanto brilho e sentido, faça o daqui pra frente ser como tu queres, com o brilho que tu tanto desejaste…
    COMA as delícias da vida!
    Um abraço.

  5. como eu já te disse: adolescência é uma merda. vc tem todos os sonhos do mundo e não pode realizá-los se não for a vontade dos seus pais, que continuam te tratando como criança, pra sempre.

  6. Muito corajosa você, de postar um texto forte assim, que como sempre está impecável.
    Quem sabe um dia, já longe do domínio dos seus pais, você não venha a se entender melhor com eles. As coisas funcionam um pouco melhor quando não estamos mais na condição de crianças embaixo do teto deles.
    E você é uma garota por demais especial pra se arrepender de ter nascido, dona Nina, pare de dizer essas coisas!
    Beijos

  7. Quem luta uma hora ou outra acaba perdendo…é tudo mei osem sentido e sem motivo e sem razão…Talvez fosse mais fácil contentar-mo-nos com o que temos e agradecer ao invés de reclamar e tentar fazer as coisas possívlmente ficarem piores…pois há gente que não tem metade do que temos sequer…e mesmo esse pensamento sendo tão pequenino e bobo…tlavez seja menos trabalhoso, e menos doloroso…no mais…não deve haver muito a ser feito…a não ser esperar…ou correr…ambas opções são uima merda.Só pra variar…

    :)

  8. Ai, Nina… nem sei o que dizer.
    Realmente os pais a gente nunca escolhe… nunca escolheremos!

    =/

    Melhoras para seus males… é muito grave isso que você tem e que anda surtando?
    Kiss

  9. Não quero, não preciso e acho que não consigo dizer nada.
    Só lhe desejo um caminho mais saudável que o meu.

  10. Primeiro, como sempre um ótimo texto vc escreveu.
    Segundo, conviver com os nossos pais não é fácil. Eu já tive fases piores com os meus, hoje brigamos dia sim, e dia não. E vamos vivendo assim…
    Terceiro, eu espero que vc continue lutando por aquilo que vc acredita, pq pelo que vejo nos seus textos, vc é uma pessoa de fibra, e isso me causa tamanha admiração!
    Quarto, espero que vc seja muuuuito feliz! =)

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