Conto para Lispector

É a continuação de Conto para Saramago.

Cena do filme Educação

Era um dia frio e ela ironizou que queria mais do que um bom lugar para ler um livro, já que o pensamento estava nele mesmo e, sem ele, ela não vive. Julgou errado que faria sol e, no dia anterior escolhera meticulosamente o que iria vestir, ensaiou o que falar e como iria andar. Queria parecer mais “adulta”, por ocasião da data em que marcara o encontro.
Era cedo ainda. E ela permaneceu naquela inquietação adolescente, de quem tem pressa e pouco tempo a perder. Ouviu música, leu algumas páginas de um livro de Clarice Lispector e o relógio jazia evoluindo pouco em seus ponteiros. Tédio. Ela saiu do mesmo jeito.
Meia hora antes da biblioteca abrir, ela já estava lá. Começara a chover, mas permitiram sua entrada ao menos na recepção, onde ficou sentada, esperando. Abriram o portão principal, já era hora. Ela subiu as escadas sem fôlego algum e ele a abraçou, parabenizando-a. Sentaram a fim de conversar. Ele havia mesmo saído, já estava trabalhando em outro lugar, numa função completamente distante da que ocupava até pouco tempo atrás. Tudo bem. Contaram-se as novidades, as difculdades e a comédia da vida privada. Riram com as mãos entrelaçadas. Desceram e comeram um lanche: uvas, biscoito e iogurte. Ele deixou de fumar na semana anterior, diz que sente falta e que o café o ajuda quando é preciso. Ela lhe transmite apoio, afinal, ele está se dando a uma nova chance com tal espírito de motivação. Voltaram. Conversaram mais, parecia que os assuntos jamais terminariam – e as mãos permaneciam entrelaçadas.
Pouco sabia sobre seduzir. Não era especialista nisso, nunca estivera antes com alguém, afinal, criara para si e para os outros essa barreira de quem é inalcançável, inacessível. Mas ele não a conheceu assim. Ele descobriu, na realidade, o seu lado mais frágil. Adentrou seu universo de maneira bastante sutil e lá ficou. Desde então, ela se achou no dever absoluto de lhe retribuir. Então, desistiu das mãos entrelaçadas e começou a afagar-lhe os braços e o rosto, até que ele fechou os olhos, beijou levemente os seus dedos e confessou suas vontades, afirmando que ela não sabia o que provocava. Ela riu. E lhe falou da sua vasta coleção de amores platônicos, tão diversificada, que colocaria inveja em qualquer cortesã. Ele sugeriu um motel. Ela concordou, inundada no medo e na expectativa. Perguntou várias vezes se era isso mesmo o que ela queria, até que esta o convenceu e ambos desceram ao estacionamento.
Entrar no carro dele a fez pensar que não haveria volta. Tomou-se de um pânico quase claustrofóbico, enquanto o seu coração batia descompassado e suas mãos tremiam e suavam frio. “Era a liberdade horrível de não-ser. E a hora da escolha”.
Por isso, ficou calada e imóvel durante todo o trajeto – e ele percebeu. Perguntou mais uma vez se era isso mesmo que ela queria e, novamente obteve a confirmação como resposta. E o “sim” latejou na cabeça dela, até que o nervosismo se foi. Acostumou-se a idéia de gostar de alguém e de querer estar tão perto.
Passaram pela recepção de um motel vazio e ele recebeu a chave do quarto 131 – e lhe entregou. Saíram do carro e se abraçaram. Ele sentiu o seu coração e pediu que tivesse calma, que não iria forçá-la a nada, que poderiam apenas deitar e conversar.
Entraram no quarto e ele parou na porta, enquanto ela caminhava pelo minúsculo aposento, sentindo seus olhos acostumarem-se a uma paisagem clichê: paredes vermelhas, cama redonda, espelhos nos quatro cantos e também no teto (para servir de estímulo, presumiu), televisão (provavelmente com uma infinidade de canais pornográficos), ar-condicionado e iluminação ambiente, além de um banheiro pequeno e todo branco.
Era exatamente do jeito que ela imaginava. E dizia isso, ao que ele também riu e foi quando notou o quanto já estava perto, mas tão perto, que já não havia escapatória. E ela não queria que houvesse.
Ele soltou-lhe os cabelos e beijou seus lábios e pescoço enquanto tirava-lhe a blusa, a saia, as roupas de baixo. Mordeu-lhe o bico do seio direito, ao que ela lhe agarrou as costas, a nuca e levantou as pernas – sentindo-se flutuando. Confessou estar com medo e ele lhe beijou mais vivazmente a boca, beijos intermináveis , como quem sugasse dela todo o veneno que é o medo – e funcionou. Ela já estava toda nua e ajudou-o a tirar sua roupa também – a camisa, o jeans, a cueca. Jogaram-se na cama e ela deixou de ser criança ao experimentar todas as posições que o prazer lhe proporcionara. Parecia e merecia um ritual com tamanha beleza de gestos e movimentos.
Quando ambos saciaram seus desejos, deitaram-se. Ele era grande e a abraçava, porque ela estava sentindo um frio sobrenatural. Beijou todo o seu rosto, esse homem de poucas rugas, porém com excesso de marcas da vida. Sentiu o seu cheiro, que é de um aroma ímpar e indecifrável, cheiro inesquecível. E, assim como a vida, também inenarrável. Ela se inebriou naquele perfume e olhou a ambos no enorme espelho. Viu o quanto combinavam, apesar dos vinte e seis anos de diferença que, ao contrário de separá-los, unia-os ainda mais. Ela se lembrou do que lhe dissera certa vez: que se fosse ele mais jovem, os dois seriam namorados. Por sorte e destino, não foi preciso retornar à outrora, visto que tudo tem o seu tempo certo. Ele foi tomar um banho e ela se deitou em posição de concha, porque o cheiro dele não estava apenas no lençol e travesseiro. Estava no corpo dela, fator que lhe transmitia proteção, liberdade, felicidade clandestina – daquela que é furtada, roubada segundo o consentimento do outro. A primeira vez dela e o devaneio dele ocorrera em um domingo. Era dezesseis de maio. Era o fim de sua fase debutante, início de vida adulta. Ela estava completando dezoito primaveras.

“Eu sou tua e tu és meu, e nós é um.”
:: Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.

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17 respostas em “Conto para Lispector

  1. Ontem, 16 de maio de 2010, realmente foi meu aniversário de dezoito aninhos. Mas eu deixarei à critério de vocês decidir pela verdade deste conto (se é que ela existe).

  2. Primeiro, meus parabéns pelos seus 18 aninhos, Nina! Agora já é “de maior”, né?
    E, quanto ao conto, Clarice, Saramago e também Nabokov certamente aplaudiriam.
    Daqui, eu os acompanho!
    Bjooo!!

  3. Concordo completamente com o que vc disse no seu último comentário em Da Prosa: comprometimento com aquilo que deve ser puro desprendimento “é tolice”.

    Amo os seus textos, porque neles vejo doçura. Continue sempre adocicando meus dias, Nina.

    Beijão

  4. Hum… se a ficção estiver se misturando assim com a realidade… só desejo Feliz aniversário e que o momento tenha sido especial.
    =)
    Kiss

  5. eu pensei que vc fosse mais nova, tivesse 15 anos. parabéns pelo aniversário.

    é muito difícil escrever sobre sexo sem ser extremamente brega. você conseguiu :] e eu não sei que histíoria é essa de que perder a virgindade signifique qualquer coisa sobre maturidade.

  6. Conseguiste me transmitir um amor tão intenso em um momento tão importante… Aliás, importante assim como narras, pois para muitos nada importa este momento.
    Adoro teus textos! :)

    beijos e boa semana! :*

  7. A verdade deste conto foi a primeira coisa que minha cabecinha de minhoca especulou…

  8. “Eu sou tua e tu és meu, e nós é um.”

    nada mais perfeito pra finalizar (:
    adorei

  9. Que lindo, Nina! De uma sutileza ímpar.
    Já te parabenizei por Twitter, mas faço-o novamente por aqui.
    Beijos

  10. Adoro Clarice! Paraéns pelos seus 18 anos!!! =)
    Obrigada por ser fiel aos comentários no meu blog, e pelo carinho sempre presente.
    Abraços!

  11. Olha, não posso deixar de pensar que há uma verdade nesse conto, rs.
    De qualquer modo, parabéns!
    Beijo, querida.

  12. Pingback: Conto para Drummond* | sobre fatalismos

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