Para aquele que me habita o lado esquerdo na cama

“Um bocado de mim treme ainda de paixão atrás de uma porta onde já não mora ninguém, onde eu nunca morei. Nestas águas-furtadas que não conheceste, morava um homem e no corpo dele era a minha morada. Mas eu não sabia. E neste noante já nada posso contra essa ignorância, não tenho como honrar o contrato carnal de habitação que estabelecêramos, às cegas. Imaginas um não-corpo a implorar beijos, saliva, suor e pele? A minha única âncora és tu, amigo sem lugar de perdição. Em ti, fuga das fugas, chama de segurança, fujo da paixão que me arrancou a vida.”
:: Do livro Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa.

Cena do filme A Duquesa

...

Quando eu te conheci (de vista), não tinha mais do que treze anos. Você me parecia sério, solitário e distante. Você era um retrato do inacessível e inalcançável que eu sou hoje. E não poderíamos presumir jamais que seria você quem passaria a me conhecer melhor, cinco anos depois de minhas primeiras impressões, quando eu já estava mais amadurecida e triste (na mesma sintonia).
Lá fora, no mundo criado pela nossa civilização ocidental e hostil – que vai além das quatro paredes de qualquer motel em que estejamos juntos -, você tem uma vida cujas responsabilidades são maiores do que as minhas (que não possuo quase nenhuma). Você tem uma bela esposa (que não é bela pelo que você diz, mas sim pelo que eu deduzo) e um filho quase de minha idade. Você tem um emprego, contas a pagar, um carro muito antigo (que eu gosto bastante) e nenhum cartão de crédito (que eu sei que você não gosta). Você tem uma mãe que ama, irmãos, amigos, amigas que não são apenas amigas e muitas ex-namoradas que, hoje, lhe dão boas risadas.
Eu me encaixo no perfil de uma dessas amigas suas: eu sou um desses rostos vários pelos quais você se apaixona – e você utiliza o mesmo papel em minha existência. Você é a confusão dos vários amantes que tive em segredo e silêncio, em pensamento, na obscuridade do que não pode e nem deve ser pronunciado.
Eu não faço parte da sua vida lá fora. Eu não me incluo, não me encaixo, não sirvo sequer como figurante, nada acrescento ao cenário. Nada sou e disso sei, apesar de minha limitada experiência. E nunca esperei me envolver com um homem casado e fadado à infelicidade de uma ocasião conjugal tão prematura. Mas eu sou irmã da discrição, apesar de desconhecer o limite de uma relação como a nossa. Somos medrosos eternos e não sabemos como renovar, como virar a página e entrar em outra história, pois sabemos que é impossível ser feliz sozinho (o meu caso), ou ao lado de quem não desejamos (o seu caso) – presos nas diferentes imobilidades em que estamos. Em outras palavras, sendo mais direta: não sou nada nem ninguém na realidade moldada e fixada existente na dimensão que não me pertence, que não me diz respeito. “É a sua vida que eu quero bordar na minha”, diz a canção. E você nem precisa dizer o mesmo. Melhor, fique em silêncio. Não quero resposta, não há porvir.
Eu havia dito “sim” no dia do meu aniversário, mas isso significou também renunciar as virtudes e fazer do perigo uma situação bem-vinda. Eu havia me olhado no espelho e não vi a culpa estampada em meus olhos, como determinei antecipadamente que estaria. Eu senti – e ainda sinto – exatamente tudo o que não imaginava, tudo o que se assemelhava a um conto-de-fadas. E o meu olfato nunca esteve tão sensibilizado, pois saiba que foi ele o fator responsável por me instruir na planície, na geografia do teu corpo. O teu cheiro que se complementa tanto ao meu gosto, me guiou sem mapa, serviu de bússola. Em direção ao norte, foi você quem provou do meu sabor. Para você, eu tenho gosto de sal. É você quem tem olhos de ressaca, minha versão masculina de Capitu. Mas sou eu o mar dos teus olhos e a areia da praia que você põe nos teus braços. Eu sou descendente viva do astro-rei, sou Deusa Urbana, neta do sol. E repito que não me sinto culpada.
E não lhe cobro absolutamente nada, não tenho sequer o direito de lhe exigir outra coisa que não seja o seu rosto colado ao meu, as minhas mãos nas tuas costas, as suas mãos em minha cintura, as nossas pernas entrelaçadas. Eu a te beijar. Você, a fazer festa em meus cabelos. A noção do perigo nas horas aqui passadas não nos importa, visto que somos motivados e movidos pelo desejo mútuo e insaciável de ser e estar no outro, dentro, enclausurados, fazendo do corpo do outro a morada a ser habitada. Aliás, é isso mesmo – eu concluo que moro dentro de você. E não há nada que impeça ou traduza isso.
À você, meu amigo, eu anseio pela tua liberdade. Não acredito que você venha me procurar quando de lá sair. Quero a liberdade que você merece ter – e ela também, também o seu filho. Todos merecem ser livres. Também eu. A liberdade é um instinto que nos é furtado de nascença. Mas também é o antídoto, é a cura, é mais do que o mar – que é nosso refúgio. Por isso vá, fuja, saia sem se despedir, não peça licença, esqueça, vá ser feliz. Pela sua vida eu torço muito. Você muito me ensina. Já estava na hora de eu passar a lhe retribuir, demasiadamente.

Com você eu tenho medo de me apaixonar
eu tenho medo de não me apaixonar
tenho medo dele, tenho medo dela
os dois juntos onde eu não podia entrar
com você eu tenho mesmo de me conformar
eu tenho mesmo de não me conformar
sexo heterodoxo, lapsos de desejo
quando eu vejo o céu desaba sobre nós.”

:: Deusa Urbana – Caetano Veloso

Anúncios

14 respostas em “Para aquele que me habita o lado esquerdo na cama

  1. É apenas uma versão mais pessoal de meu último “Conto para Lispector”. Para vocês verem que não consigo fugir das crônicas – ou das cartas.

  2. Aaah Nina, gosto daqui porque na maioria dos blogs que leio, acabo sempre me sentindo mal, por perceber que falo demais de profundismos, ou escrevo histórias, e não tenho jamais aquele caráter leve de quem conta somente sobre o próprio cotidiano, o que deve ser uma chatice pra quem lê.
    Mas aqui é diferente, você sempre vai muito mais fundo, me lembra um pouco a Clarice ás vezes…
    Enrolei e enrolei só pra dizer o quanto gosto daqui.
    Um beijo!

  3. Nina, juro que não sei mais o que é ficção e o que vida real…
    Será que um dia eu descubro nas entrelinhas de todos esses textos e palavras?!
    Kiss

  4. Ah, me sinto maravilhada cada vez que leio seus escritos.
    Mas como a Cih, não sei mais o que é ficção e realidade e isso me instiga a ler seus textos sempre!
    Beijos :*

  5. Excepcional. Remete à Idade da Razão, do Sartre. Um blog pra manter sempre por perto. :)

  6. Cacilda, que situação, hein, Nina? Mas, acima de tudo, revela uma blogueira que escreve melhor a cada post. Este aqui, então, tá impecável, seja o post realidade ou ficção. Não importa (para nós, leitores). O que importa é desfrutar de sua maestria, revelada em cada frase. O que prova que você lê bem. Como eu sempre digo, só escreve bem quem lê bem.
    E um bjoooooooo!!!!!!!

  7. Nina que lindo!!! Me indentifiquei!
    Adorei essa frase: Você é a confusão dos vários amantes que tive em segredo e silêncio..

    Vc escreve demais! parabéns

    obrigada pelas visitas e pelos comentários sempre tão queridos!

  8. amo crônicas e poxa, você as escreve muitíssimo bem! nossa achei tão lindo *-* encantador de fato.
    e eu tenho uma pergunta: como vc achou meu blog? obrigada por comentar, sério.

  9. muito profundo,realmente um dos melhores textos que já li… me apaixonei por inteira!!

  10. Por mais que o meu espírito conservador tente ver pecado nessas tuas letras, ele não consegue; só consegue ver beleza, poesia.

  11. excelente texto, por mais que a liberdade nunca passe de uma terrível ilusão. bem como a felicidade. essa, mais ainda, aliás.

  12. Dá pra querer assim? É tão complicado dois corações estarem em sintonia. Quando não estão, o que vemos é isso, duas direções. Uma oposta à outra. Fica dífícil tu concilicar sentimentos. Aí entra a questão da liberdade, daquela coisa pessoa, do entender, da compreensão. Jamais vamos aprofundar com clareza nisso. Só vai restar observações fracas do que realmente sentimos naqueles momentos, porque palavras limitam as descrições.

    Há salvação para isso? O fato de parecermos coadjuvantes na vida de alguém sugere que precisamos encarar fatos. Naa surge de uma forma fácil de explicar, muito menos da forma que queremos, entender e ser.

    Sobra sentimento, falta escolhas, compromissos, amor correspondido. Mas amor serve para nos guiar. E isso é bom.

    ps: Nina, desculpe o sumiço. Me perdoa. Eu ando muito atarefado e ocupado. Ando trabalhando demais e isso me custa muito. Enfim, saiba que não te abandono nunca. NUNCA! Sempre estou aqui. Obrigado por estar sempre presente. Espero que esteja bem. Te adoro muito. Beijo.

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s