Motivo de vivência

(Para Gabriel Louback, em especial.)

“Que as vidas são como os quadros, precisaremos sempre de olhá-las quatro passos atrás, mesmo se um dia chegámos a tocar-lhe a pele, a sentir-lhes o cheiro, a provar-lhes o gosto.”
:: Do livro Todos os Nomes, de José Saramago.

Em meus dezoito anos como mera sobrevivente de eventualidades catastróficas, a maioria dos conselhos foram esquecidos (o que é notável pela minha capacidade única de errar tanto) e apenas duas certezas caminham até hoje comigo: a da morte, mas essa também vem a ser uma certeza universal, porém, acredito ainda que a ciência encontrará a fonte da juventude, a fórmula da imortalidade, dentro dos próximos cinqüenta anos, nos quais eu pretendo estar viva e esbanjano saúde (é claro); e a certeza de que sempre serei sozinha, não importa a circunstância que me ocorra.
Com o segundo fato, há muito já me conformei, visto que é fatalismo puro, que sempre fui assim, que acredito que serei também daqui em diante. De todos os amigos que tive de infância, perdi contato. Alguns ex-colegas de ensino fundamental passam por mim na rua e nem me cumprimentam, suponho que tenham me esquecido. Os poucos que restaram tem de vinte a trinta anos e já estão procurando rumos novos por cidades outras, ou mesmo arranjando suas namoradas e casando até. Nesse ponto, já sei que a amizade está acabando mesmo. Namoradas de amigos são o primeiro sinal de alguém que se vai, já que nenhuma aceita a minha espontaneidade – e eu também, de antemão, já me recuso a venerar qualquer uma delas, confesso.
Dos romances, tirando a maioria (que foi platônica), recuso a todos – mesmo que seja por uma breve entrevista. Tomei a iniciativa de estar, mas também fui eu quem primeiro partiu. Além de tudo, nunca houve um oficial, que eu pudesse chamar de meu e apresentar ao resto dos mortais, com aquela expressão típica de uma recém-abençoada pelo nirvana. Nem por eles chorei, assim como nenhum me fez sorrir demasiadamente.
Dos meus pais, não obtive a orientação precisa (toda a minha educação foi devidamente proporcionada através da caridade de minha avó), e nem a espero mais por agora. Eles já me detestam pela coleção de livros que há na estante e pela faculdade que sequer começei. Não tivemos conversas sérias (que me seriam úteis no início da adolescência), com exceção das ocasiões em que algo precisava ser imposto (por eles).
Confundo minha solidão com saudade e, assim como o cronista, constato que a vida é boa e nada, em perfeita sintonia. Também me surpreendo. Ser sozinha não é tão ruím quanto parece – consegui chegar onde estou – mas não se trata de cargo ou pedestal algum, mas só de ser escritora de gaveta já me deixa a alguns passos de jogar na cara de todos que me criticaram a minha raiva explícita, estampada em caligrafia. O bom da vida é ter esperança, nela se encontra a chave de todo o mistério, pois viver também é sonhar para realizar em seu tempo certo. E talvez seja bom que eu viva para ter o meu desejado apartamento abarrotado de livros, labirinto, minhas faculdades e viagens feitas e sorrisos belos nos olhos de quem quiser chorar com Drummond e Bandeira, com meus textos vez ou outra. Eu quero emocionar leitores vários, mas veja, que engraçado, ainda não me encontro pronta para causar tal efeito em uma população em massa, publicando semanalmente em uma coluna daquele jornal bacana que o Brasil inteiro lê. Por isso tento. E é por esperar estar pronta, pelos filhos meus que irão nascer, pelos almoços dominicais e por demais eventualidades menos catastróficas do que as que me ocorrem agora que vivo. Vivo, vivo, vivo. Infelizmente, não com a intensidade de que necessito (anda fraco até, o meu coração), mas vivo da mesma maneira que posso e que me convém. Penso todos os dias em matar essa vida ordinária, sair desse corpo que tanto maldigo, mas desisto. E desisto porque esperança é o que não me falta, mesmo que a vida seja boa – e nada.

“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és.”
:: O mundo é um moinho – Cartola

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16 respostas em “Motivo de vivência

  1. Eu li em um blog uma coisa assim ó:

    uma linha pontilhada na garganta

    ———————————–
    corte aqui.

    acabei de me lembrar dele com seu texto, não com o texto todo que por sinal ficou ótimo, mas com o finalzinho do texto.
    :)

    beijo querida.

  2. eu era meio-feliz quando estava sozinha. mas, sabe?, acho que toda pessoa que realmente importa é (ou passou) por solidão e desvnturas mil. é impossível construir caráter sendo totalmente feliz o tempo todo.

  3. concordo com tudo o que tu disseste. apesar de todos os pesares, a esperança sempre está ali, inabalável.
    desistir tão fácil assim é não tem graça. viver também é sinônimo de sofrimento. mas incrivelmente, também é sinônimo de felicidade…
    beijos.

  4. E esse foi escrito pra mim, “tenho certeza”. ;D

    Também sou bom de esquecer conselhos. Se eu seguisse todos conselhos que dou a outros e a mim mesmo…

    Deixo com você a responsabilidade de manter acesa certa chama de uma esperança utópica que, creio, compartilhamos; a minha se apagou…

    A vida vai seguindo… Me parece que você não teme passar por uma existência medíocre, deve ser bom isso.

    Esse trecho da música do cartola, sem dúvida, é uma peça colocada pelo destino e destinada a mim, puro fatalismo…
    Um beijo.

  5. Pelo menos te resta a esperança de que as coisas melhorem.
    E a gente vai levando a vida assim.
    Beijos

  6. Li seu texto dando pulinhos por dentro, porque eu nunca me li tão bem em nada na vida.
    Não sei se dá pra acreditar, mas meu Deus, você me pareceu tanto comigo.
    São as duas grandes certezas da minha vida, a morte, e a solidão, sempre tão minha.
    O grande desejo do futuro de um apartamento só meu, cheio dos meus cds e livros, e poder ser jornalista, escrever uma coluna pra um jornal bacana. Grande desejo, pequena esperança, de quem não acredita que a vida pode ser assim tão exata a ponto de realizar os meus sonhos, descrença, de achar que eu não vou chegar onde quero chegar, em lugar nenhum, não por nada, só sinto assim, nunca tive muita sorte.
    E querer viver o mais intensamente que eu puder, pois só assim valeria a pena, mas não conseguir.
    Um beijo!

  7. Contanto que a esperança esteja aí no seu coração…
    Estarei aqui, ordinariamente… para ler. =)
    Kiss

  8. Ao contrário do q a maioria diz, eu acho a solidão uma ótima. Sou exatamente assim, porém por algum motivo, tenho uma melhor amiga e um namorado, ambos ótimas pessoas. Motivo esse que eu não sei, pq não sou do tipo de pessoa que cultiva relacionamentos. Mas não reclamo. E sei lá, tudo nessa vida tem sua beleza.
    Beijo

  9. Minha querida,

    solidão… Soa sempre ruim, não sei por quê. Quiçá em razão do ‘ão’ que o finda e o ‘só’, que o inicia e remete ao SOZINHO. Enfim, sem estes devaneios, a solidão é um ‘mal necessário’. Ouvir o som do silêncio quando estamos solitários é saudável à mente humana, uma vez que ela, nesta circunstância, busca ordenar-se.

    Reflexão e solidão estão intimamente vinculados. São simbióticos, arrisco. Se estou mentindo, duvido muito que textos como este, cujo tema incitem tanto pensamento, sejas elaborados em meio a uma algazarra…

    Grande beijo

  10. Muitos dos sentimentos que vc transparece nos seus textos e a forma que voce vive, se parece comigo. Muitas vezes entendo o que vc sente, essa solidão, ser incompreendida pelos que nos cercam. E ainda em nós resta a esperança de realizar os nossos sonhos.

  11. “Amanhã,

    A tristeza vai transformar-se em alegria,
    E o sol vai brilhar no céu de um novo dia,
    Vamos sair pelas ruas, pelas ruas da cidade,
    Peito aberto,
    Cara ao sol da felicidade.

    E no canto de amor assim,
    Sempre vão surgir em mim, novas fantasias,
    Sinto vibrando no ar,
    E sei que não é vã, a cor da esperança,
    A esperança do amanhã.”

    A cor da esperança – Cartola

    Muito bonito o que eu li.
    Um beijo!

  12. Nina estou maravilhado com o que li , não desgrudei os ohos por um instantate se quer de cada palavra escrita das quais me indetifique bastante. .
    Eu ia adoraria ter uma estante cheia de livros com os melhores escritores e você inclúida entre eles, e pode acreditar sim, que a morte é uma das nossas maiores certezas mas solidão e passageira.

    ‘Se alguém está tão cansado que não possa te dar um sorriso, deixa-lhe o teu’
    . Beijos … ^.^

  13. Olá. Nossa, me vi muito no que você escreveu. Principalmente no seu desejo de ter um apartamento repleto de livros, no fato de não ser ruim ser sozinha e na tua esperança. Espero que você consiga tudo que deseja e que fique bem e feliz.
    Beijos, adorei o blog.

  14. Pois é Nina, as vezes você mostra desalento, mas sempre há injeções de ânimo espalhadas por aí. Somos todos assim, não é mesmo? E esse texto mostra uma sensatez que você julga não possuir quando fala “da sua capacidade de errar tanto”. Com o tempo e com um pouco mais de idade, fato, você aprende como pisar, e como não cair. E você tem tanta esperança.. Queria ver seus olhos. Sei que daria pra ver tudo isso neles.

  15. Sobre ser sozinha? Eu começo a achar bom. Sempre fui, sabe? E tento viver bem e ser quem sou, e não sei mais lá quantas baboseiras… 22 anos e incapacidade total de me relacionar por mais de um mês com quem quer q seja. Melhor é conviver bem com essa solidão que me acompanha.

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