A malfadada hipótese

(Para o Melhor Amigo do Meu Amor Platônico de Outrora… Para você, Victor.)

“Resta o consolo de pensar que se eu fosse capaz, como você, de dizer o indizível, eu teria a dizer certas coisas que você ainda vai dizer. E me limito a ficar esperando.
(…)
Certas coisas não se dizem, porque dizendo, deixam de ser ditas pelo não-dizer, que diz muito mais.
(…)
Essa coisa que só o amor permite – não demonstrar amor.”

:: Trechos do livro Cartas Perto do Coração, de Clarice Lispector e Fernando Sabino.

Percebeu? Todos estão comentando, murmurando, articulando mirabolantes planos ou, simplesmente, duvidando, sortes e louvores desejando, e suspeitando de uma inexistente (inexistente?) união que venha a ser independentemente além da amizade.
Divago então sobre a malfadada hipótese. Não há porvir – e, no entanto, há fundamento. Sendo você de escorpião (e eu, uma ferrenha taurina), foi excepcionalmente natural que o encanto instantâneo fosse – e foi – não porque fácil me apaixono (não vamos trair os termos), mas porque me encantar com pessoas não é difícil, apesar da minha plena alergia para com a humanidade.
Daí vem você, mero mortal, chato, bobo, carente profissional (de amigos, 24 horas). Mas também parco solitário, bardo e cardo desprezado. E, como eu, atemporal, à frente do seu tempo. Menino grande, de bons princípios, menino-moço – mamãe diria que você até chega a ser um bom partido. Enfim, vem você e essa invejável facilidade, esse dom de fazer rir a princesa que, dos contos-de-fadas, permitiu em seu castelo a entrada dos mais diferentes comediantes que de todos os reinos e direções viessem. Houve um bobo-da-corte que a fez rir livre e abertamente, expressão que ela não sabia possuir ou utilizar. O que depois ocorreu, não sei. Eu cresci. E a Sherazade que tive esqueceu-se de contar-me o fim da história.
É você também assim. Nos meus dias tristes, vem me colorir. Vem me estampar sorrisos vários, porque, repara bem, eu tenho riso de criança (e chatice de mulher, como você diz), gargalhada alegre, um dia ainda morro do coração de tanto ataque de riso que me ocorre. E a nossa amizade é assim – feito riso infantil. E tão infantil é (foi?) a nossa adolescência, nossa amizade complicadamente simplista, que é até pecado estragar, tornar incestuoso o laço que nos une, criar um Complexo de Sininho. Perceba, amigo meu – é triângulo amoroso.
Eu te amo e tu me amas. O verbo se conjuga naturalmente – o que está nas entrelinhas não precisa ser dito. Sabemos e só. Mas o principal impedimento será aquele a quem não queremos causar mágoa. Aquele lá é seu Melhor Amigo e Meu Amor Platônico de Outrora!
Poderia ser você o meu motivo de “vingança perfeita”, mas não quero usar-te assim. Além de tudo, para ele desejo a felicidade (clandestina?). Mas, como não posso concedê-la (nem para mim, sequer), apenas prefiro não interferir na de outrem, embora, é fato – para a felicidade dele, por cima da minha passo. Mas isso não é probçlema, visto que acostumada estou. Sozinha sou. E aviso aos quatro ventos, aos quatro pontos cardeais – que não sintam pena de mim. Aceito meu fardo. Dito isso, percebe agora como o nosso amor é impossível, por ora? Você é meu amigo – cavalheiro, aceite! – e temos personalidades gêmeas, em comum, em contato (imediato, do terceiro grau) e aproximação, porém, aos nativos povos pensantes, isto pouco vem a ser compreensível. Nesse caso, o que fazer? Nada em absoluto. Ora, deixe que pensem (“Comam brioches!”, diria Maria Antonieta) Voltemos, retornemos, recolhemo-nos sobre nossa insignificância. Venha, dê-me a mão, pois tenho uma história para contar-lhe, do tempo da Segunda Guerra. E quando você me chama de judia, acrescentando que sou completamente européia quando menciono Elisabeth da Áustria – constato que não há quem melhor me defina. Vamos ouvir Strokes e eu lhe ensino a cantar, sem uma letra sequer errar, Construção, de Chico Buarque. Só é preciso, daqui para a frente, ter senso de direção. E o meu perfume na rosa-dos-ventos.

“E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
E você vai me ensinar as suas verdades
E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.”

:: Dois – Tiê.

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12 respostas em “A malfadada hipótese

  1. Nao vou comentar o texto. Eu sinceramente nao sei comentar textos assim. Só sei curtir mesmo. Mas sobre a frase lá de cima, do livro, sei nao, mas tenho a impressao de que a Clarice escreveu quase todos os clichês que eu queria ter feito.
    Bj.

  2. Que homem é o homem que aceita a pura amizade da mulher que cobiça?
    Aceita-se dizer o indizível, mas não aceita-se o inaceitável.

    Se não soubesse que logo atrás de toda complexidade de toda mulher, há toda a simplicidade, te diria complexa/confusa (como costumam vocês sempre estarem). Sei que não aceitará a definição, tampouco ser contrariada, mas eu o diria “Vai a luta, marca teu nome na justa; e o resto deixa pra lá”.

  3. ‘O verbo se conjuga naturalmente – o que está nas entrelinhas não precisa ser dito. ‘

    quando as palavras se tornam desnecessárias.

  4. Nossa, que texto mais lindo! De sentir mesmo como disse o moço acima…
    E lindo os dizeres de Clarice acima…E mais lindo ainda ter um sorriso pra colorir nossos dias cinzas.

    Adoro suas visitas ao meu canto!
    Fico lisonjeada..

    Gdes beijos

  5. Por coincidência, hoje mesmo eu tava com “Construção” na cabeça – “caiu na contramão, atrapalhando o tráfego”. E também tenho uma estranha alergia para com a humanidade.
    Bjoo!!

  6. por todas as referências, eu gostei. clarice abusa do nosso coração com clichê, e o que você escreveu, me senti viva em tudo, vivo algo assim.

    beijo.

  7. É a primeira vez que comento aqui, e só queria dizer que tu escreve muito bem. Só isso. Acho que não preciso dizer mais. Mas tu encanta. É isso.

  8. É realmente fascinante a simplicidade dos seus escritos, é tudo tão natural, impossível ler e não se encantar… Sem falar que você encaixa perfeitamente aos texts um fragmento de um livro e um trecho de música, enfim adorei mais uma vez, Clarice também encanta e esses amores perfeitos que não podemos viver… Bem quem não tem ou já teve um? E você com naturalidade e de forma simples retratou perfeitamente isso.

    Ah, obrigada pela passadinha no “Decifra-me”, realmente após ler alguns dos seus escritos imaginava que a respeito do mundo cor-de-rosa seria aquela a sua visão… E embora nunca tenha me visto por aqui, sempre passo e leio e me encanto com as coisas que você escrve, mas voltarei relendo e comentando, embra as vezes me faltem palavras pra expressar o que sinto ao ler seus textos…

    Beeijo, Jade Follet. *—*

  9. A cada vez que leio um texto seu fico encantada com seus conhecimentos e como você consegue nominar tantas coisas que nem passariam pela minha mente. Nina, a sua escrita é impressionante. Até hoje nunca li um texto seu que não fosse bom. Sempre excelentes! Adoro quando alguém coloca Chico Buarque nos textos, porque para mim ele é uma grande referência e gosto de encontrar pessoas com o mesmo gosto que eu! hehehehe

  10. Daniele Vieira, uma amiga fantástica. De mim também é. Sim, você que passa por tantos apuros e tantos dilemas que eu chego a pensar se também somos gêmeos. De outrora. Sabe lá.

    Mas sabe, a tua grande força em exprimir sensações se exime em vários pontos que me deixam aqui perplexos.
    Não sei falar tão difícil quanto tu ou nem mesmo escrever como tu. Mesmo sendo mais velho que tu (7 anos?). Isso demonstra que idade não diz nada né? E o limite para o conhecimento é apenas nossa vontade e persistência em preencher vazios dentro de nós. Vazios esse que debilitam nossa alma. Talvez por assuntos externos, somos obrigados a amadurecer cedo. A vida nos dá o tom. Nós a seguimos como achamos melhor e adequado.

    A você admiro. Sim, por essa consciência tão profunda do que te cerca. Do que é capaz de te atingir. Detalhes são superficiais. Pra ti você vive grãos de areia. E você os traduz com tanta simplicidade e desenvoltura. Não apenas de forma culta, inteligente, mas com uma parcela de sabedoria. Pra tu ver, mesmo te conhecendo há um tempo, ainda hoje você é capaz de me surpreender.
    Eu nem chego perto dessa tua mestria e eloquencia. Você assusta no início, mas depois nos oferece códigos de difícil tradução. Ai de cada um que queira entender-te.

    eu fico feliz que eu tenha progredido nessa dura batalha. Não pra te apontar erros, nem pra ficar te dizendo o que é certo e o que é errado, ou comparar. Mas pra quem sabe mais profundamente gostar de ti como tu és de verdade. Porque só gostamos de alguém, quando temos na mão a soma de toda a personalidade de uma pessoa. Isso vai de defeitos a qualidades.
    Nos apegamos a ti, porque nos identificamos contigo.

    Somos bons amigos. Tenho liberdade pra te dizer que tu não tens fardo. Nem és sozinha. Não enquanto eu estiver aqui pra te desenganar disso. Não enquanto eu estiver segurando a sua mão. Não ligue para o que dizem ou o que pensem. Não desista é do sentimento compartilhado. Não feche as mãos para quem jamais vai te abandonar. E quando estiver num deserto a pão e água saberá que não vai estar sozinha. Deixe de coisa. Abra os olhos, respire e encare a vida de frente.

    O seu caso de amor é com a vida.

    Estou aqui pra te apoiar.
    =)

    Beijos.
    Te adoro!

  11. Que linda declaração, Nina! Linda mesmo! Seu amigo deve ter ficado felizão, né?
    Beijos

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