Antes do dia

“Ela se sentiu culpada de novo. Porque não aguentava mais. Queria dar um tiro na cabeça. Desde pequena, lutou para disfarçar sua insatisfação consigo mesma. Até convenceu-se, em certos momentos. Convenceu outras pessoas também. Lutou para ser amada, mas não se suporta o suficiente, então luta para perder quem a ama. Nunca conseguiu acreditar piamente no amor alheio. Nunca achou que merecesse.”
:: Do livro Vergonha dos Pés, de Fernanda Young.

"Quer levar minha bagagem... ou não?"

Sentiu-se o Homem de Lata, ao receber o coração amarelo-pálido de contornos vermelhos. Foi devidamente instruída por uma adolescente de quinze anos a declarar o seu amor em cartolina – ou deixar um anúncio definindo minuciosamente (e em poucas linhas) o seu charme e dote, pois assim, certamente a procurariam. O coração de papel necessitava ser colocado em um mural cor-de-rosa que se destacava logo à entrada do colégio. Ela sorriu ao ser surpreendida pela entrada triunfal, vendo amores multicores, frivolidades, amores vãos, de verões eternos que mudam a cada semana. Infinitos – mas somente enquanto duram.
“É amanhã”, lembrou-se. Mas não se permitiu ao desalento, apesar de estar, de maneira figurada e em sentido liberal, com o coração na mão. Fazendo troça, fingindo não se importar, foi ver os amigos e perguntou qual deles seria o dono daquele coração. E ele estava lá.
Estava, talvez, para dizer com aqueles ternos olhos castanhos que outra vez ela se ilude, que vai errar sensatamente, como o fez, há três anos. Era tola por negar-se a apaixonar-se, condenando-se pelo não dizer. Mas “não dizer” também é um erro que se repete notoriamente – e chega a ser tragicômico! – porque ama corretamente a pessoa que lhe parece certa (e essa é uma concordância universal no meio em que vivem) -, mas na circunstância errada, sob errado contexto.
Aqueles olhos fuzilam-na: estão sempre ao ponto de revelar-lhe algum segredo, mas se calam. Cala também sua boca, como quem pede para deixar-se cair no esquecimento. Não sabe (mal sabe) ela o que sente o rapaz que utiliza o humor para esconder a timidez; que é carente de defeitos, embora a perfeição não seja o seu forte. Ainda bem. Pois perfeição demasiada a irrita profundamente.
Durante todo o dia, ela permaneceu com o coração na mão, sem saber como preencher o vazio que ali habitava. Cada despedida diária dele era a saudade que se expressava e a distraía noite afora. Voltou para casa com o coração ausente de sentimentos, semi-esquecido em algum de seus cadenos. Deixou-se cair na cama, apesar da chuva que apanhara. De jeans e sobretudo, em plena sexta-feira, refez o ritual noturno que repete desde que passou a conhecê-lo melhor: calculista e cautelosa, mede todas as consequências. Em nada enxerga beleza, apenas obstáculos, conflitos por enfrentar. Sentiu dramático o contexto original, mas concluiu que teria três distintas opções: falar, admitir que, provavelmente, estaria errando como sempre e pedir um afastamento imediato a fim de não estragar mais ainda a amizade entre ambos; não dizer, e esperar em vão o ilusório esquecimento através do tempo que, como sabe por experiência – não virá; ou se expressar em sua medíocre sensatez, seu falso dom, o da escrita.
Obviamente, optou pela última e não menos difícil, pois sempre é preciso escolher bem as palavras e gastar inúmeros rascunhos. Ela o faz agora (apesar de narrar em terceira pessoa). Ainda se ausenta a coragem. Neste exato momento, é provável, ele lê esta declaração. Ela não foge, mas o espera em algum lugar – trêmula, ansiosa, com o coração outra vez na mão – e extremamente acelerado. Ela já se apresenta com esse coração em cacos (é bom frisar e lembrar), amassada cartolina. E dele espera qualquer resposta. Pede apenas que pense bem, porque também ela muito teimou em não aceitar. Pede-lhe que, em caso de recusa, não manifeste preucupação em magoá-la ou ofendê-la – ela já não é tão vaidosa como outrora, e já está mais do que acostumada. E para o caso do “sim” – um gesto lhe basta – dos milhares que ambos têm em segredo, (mas ainda sem o devido conhecimento), pois um é o complemento da necessidade do outro. E, caso não seja pedir em excesso – venha, sem demora.

“E mesmo assim, queria te perguntar,
Se você tem aí contigo alguma coisa pra me dar,
Se tem espaço de sobra no seu coração.
Quer levar minha bagagem ou não?”

:: Dois – Tiê

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12 respostas em “Antes do dia

  1. Eu resumo assim: “Que eu te adoro cada vez mais, e que eu te quero sempre em paz!”
    É tão difícil não ser calculista, se deixar levar pela total emoção.

    beeeijos, boa semana! :)

  2. Faça qqer coisa, mas venha! Aqui perto a gente pensa no depois…

    Adoro ler-te Nina

    beijos

  3. Me lembrou a, sempre vista, insegurança feminina

    Por fora complexas, por dentro indizívelmente simples

  4. Com tal declaração talvez seja imposível não dizer sim…

    Sempre notável e seu dom de falso não tem nada, pelo menos tudo o que você escreve tem um ar extremamnete verdadeiro e você consegue sempre prender-nos ao que você escreve…

    Beeijo, Jade *—*

  5. pessoas sempre se idealizam. com distância, com sonhos. elas sempre estão erradas. e a espera sempre é em vão.

  6. Cada dia sou mais calculista. E cada dia mais percebo que não adianta.

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