Antes de cegar

Chorei baixinho, ao saber, perguntei-me: “E agora, José?”, não obtive resposta. Hoje choram os meus olhos porque o mais inspirador dos escritores me deixara – nos dexara -, todos nós estamos agora cegos de literatura, atraídos pela cegueira de outrora.

José Saramago, escritor

“Conto eu a minha, se não há mais ninguém, disse a voz desconhecida, Se houver, falará à seguir, diga lá, O último que eu vi foi um quadro, Um quadro, repetiu o velho da venda preta, e onde estava, Tinha ido ao museu, era uma seara com corvos e ciprestes e um sol que dava a idéia de ter sido feito com bocados de outros sóis, Isso tem todo o aspeto de ser um holandês, Creio que sim, mas havia também um cão a afundar-se, já estava meio enterrado, o infeliz, Quanto a esse, só pode ser de um espanhol, antes dele ninguém tinha pintado assim um cão, depois dele ninguém mais se atreveu, Provavelmente, e havia uma carroça carregada de feno, puxada por cavalos, a atravessar uma ribeira, Tinha uma casa à esquerda, Sim, Então é de inglês, Pode ser, mas não creio, porque havia lá também uma mulher com uma criança no colo, Crianças ao colo de mulheres é do que mais se vê em pintura, De facto, tenho reparado, O que eu não entendo é como poderiam encontrar-se em um único quadro tão diferentes pintores, E estavam uns homens a comer, Têm sido tantos os almoços, as merendas e as ceias na históra da arte, que só por essa indicação não é possível saber quem comia, Os homens eram treze, Ah, então é fácil, siga, Também havia uma mulher nua, de cabelos louros, dentro de uma concha que flutuava no mar, e muitas flores ao redor dela, Italiano, claro, E uma batalha, Estamos como no caso das comidas e das mães com crianças ao colo, não chega para saber quem pintou, Mortos e feridos, É natural, mais tarde ou mais cedo todas as cianças morrem, e os soldados também, E um cavalo com medo, Com os olhos a quererem saltar-lhe das órbitas, Tal e qual, Os cavalos são assim, e que outros quadros havia mais nesse seu quadro, Não cheguei a sabê-lo, ceguei precisamente quando estava a olhar para o cavalo.”
:: Do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.

“Assim como a morte definitiva é o fruto último da vontade de esquecimento, assim a vontade de lembrança poderá perpetuar-nos a vida.”
:: Do livro Todos os Nomes, de José Saramago.

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18 respostas em “Antes de cegar

  1. É Nina…vão-se os dedos, ficam as letras, curando as chagas que nos fazem iguais.

  2. Nina, eu tenho vindo sempre aqui. (mas vc escreve divinamente dificil hehehe. acabo precisando ler mais de uma vez)
    Um beijo

  3. Nina, acredite ou não, mas me lembrei muito de você assim que fiquei sabendo da morte do Saramago. Acho que se deve ao fato de que num dos seus últimos posts, você o colocou naquela citaçãozinha antes de texto, que já é de seu costume. Se não me engano, foi um trecho de Todos Os Nomes.
    É uma grande perda.
    Beijos

  4. Fiquei sabendo pelo twiiter. Não, nunca li seus livros, sim… sei de muitas de suas escritas…
    Me incomodo com jeito dele esrever. Não sei nem o que dizer… conheci algumas pessoas que o amaram sem ao menos o conhecer pessoalmente. O que fazem as palavras? Muita coisa… “a palavra tem poder.”
    Kiss

  5. Sempre que alguém tão influente pra mim morre, eu fico meio baqueada. E dessa vez não foi nada diferente, foi até mais sofrível, por assim dizer. Parecia um parente próximo, uma pessoa querida.

  6. Oi nina!!! =)

    Acho que está perda foi inspiração para textos de vários blogueiros apaixonados pelas obras de José Saramago, sobretudo para os meus.

    Escrevi sobre ele, mas, no fim das contas, notei que NADA do que eu possa escrever vai alcançar a medida do merecimento deste exímio escritor.

    Este trecho ao qual você faz referência é muito bonito e compõe uma das que eu considero mais bonitas de José Saramago: Ensaio sobre a cegueira, uma obra prima.

    Um beijão

  7. Nina, nunca li Saramago, mas sempre senti vontade. Lamento muito a morte dele.
    Um beijo :*

  8. “…assim a vontade de lembrança poderá perpetuar-nos a vida…”

    E assim Saramago se fez eterno.

  9. Morre outro grande.Mas no fim, a arte não passa de passatempo, recreio, desperdício.Nada faz sentido.E talvez essa seja a graça (ou o horror) de tudo.

  10. Pois é querida… Finda-se um ciclo. Mas ele (lá no fundo), não se irá jamais.

  11. Pois é..
    Eu não era grande fã dos trabalhos dele, admirava alguns trechos e só. Mas com ctza, grande perda.
    Beijo

  12. De imediato lebrei-me de ti ,sabia que ia sentir por esta grande perda , acredito que Saramago não
    morreu ele esta eternenizado nas palavras, assim como seus votos perante ele
    Força

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