Conto para Drummond*

É a continuação de Conto para Lispector.

O poeta, Carlos Drummond de Andrade

...

Estava deitada, ao seu lado. Furtava-lhe o aroma da pele, guardando-o na memória, pois não se sabe quanto tempo estará a permanecer em acalanto pleno, protegida sob seus braços – asas divinamente diabólicas. Pousa a cabeça no largo ombro dele, morde-lhe a orelha e ri, beija-lhe o pescoço. São amantes. Intraduzíveis, inenarráveis. Impertubáveis também.
– Não é engraçado? – Ela começa – A última ocasião em que estivemos juntos era meu aniversário, há um mês exato. Hoje, porém, é o seu. E estamos na mesma situação que a anterior.
– Errado. Estou mais velho. – Ele diz, fatigado, acariciando-lhe os cabelos pela cama espalhados, fazendo-lhe diversos afagos, e complementa: – Você, ao contrário, parece mais moça. Minha criança eterna que bebeu da fonte da juventude. Quero voltar aos meus vinte anos para ser o seu namorado, para lhe pedir em noivado, como se fazia em meu tempo, menina.
– Não diga isso. Fosse você de minha idade: eu o desprezaria, desde o início. E além disso, o fato de hoje estar mais velho torna-te belo, charmoso.
– Eu? Um senhor de idade, já! – Ele exclamou, desacreditando.
– Pois saiba que gosto de absolutamente tudo em você. Os teus olhos, por exemplo. Posso ver o mar dentro deles, porque vejo maresia de um bom navegador. São pequenos, os teus olhos. Quando você sorri, aparecem pequenas rugas em torno deles – e seus olhos sorriem. Drummond, se o houvesse conhecido, certamente em ti se inspiraria para compor todo um soneto marítimo. Há também a sua boca, de finos lábios. Antagônicos aos meus, que são carnudos. Do gosto deles provo, sempre que desejo. Não há sabor que mais contenta o meu paladar. A tua pele tem o cheiro dos lírios da minha infância, lavanda também, segredo do meu aroma. O calor do teu corpo é o sol de que preciso. Tuas pernas enlaçadas nas minhas e todo o afago dos teus braços é a posição que quero em movimento. Suas mãos, é verdade, não devo esquecer: foram o que toquei primeiro. Grandes mãos de artesão – moldam o meu corpo, dão-me forma. Sem contar a tua beleza interior, essa mentalidade vivaz, infantil, mas repleta de sabedoria, virtude própria sua, da tua natureza – não pode ser encontrrada nos livros. E retorno aos teus olhos – o mar sempre foi meu refúgio, mas perto de você, dele não necessito.
Ele não conseguiu encontrar resposta suficiente para declinar de tais elogios ou, simplesmente, agradecer. Limitou-se a derramar algumas lágrimas, de tão emocionado que estava. Naquela cama (breve espaço de beijar), ela declarou-se, sem necessariamente o fazer. Tem medo que três palavras de sete letras signifiquem recusa, na linguagem dos amantes (subexistente, por assim dizer). Ela prosseguiu:
– Estou fazendo do teu corpo a minha morada, do teu perfume minha atmosfera. Talvez esteja errando, mas não me importo. Também pouco me interessa a condição em que estou: se sou mais nova ou mais velha, criança ou adulta, se tenho idade para ser sua filha e você meu pai, se deveria ser sua namorada (no auge de sua juventude) ou agora sua amante – sendo você casado. Nada do que está lá fora e do que denomina toda uma sociedade nos interessa aqui: em nós só há poesia, uma antologia em verso.
Ela lhe seca as lágrimas e beija todo o seu rosto. Ele a surpreende:
– O que vou dizer agora não será original. Creio até que seja completamente inferior a tudo o que você acabara de dizer-me, e que tanto me emocionara. Mas eu te amo. Eu te amo e também me considero um fracasso, por não conseguir mais do que isso. Fracassado e culpado sou por não arriscar-me por você, por nós dois. Por conviver com pessoas nas quais não acredito que tenham futuro. Uma delas é filho meu, você bem sabe. Eu te amo porque você é uma menina da minha idade. E sou eu o adolescente que problema algum consegue resolver, simplesmente porque tornei-me adulto. Eu te amo por toda a sua entrega à minha ausência de estabilidade. Eu te amo. E quero silenciar agora para te amar de novo, repetidas vezes, só para ter certeza de que me é real a sua presença.
Sem mais demora (mas também sem pressa alguma), se abraçaram ainda mais – e cumpriram novamente todas as promessas feitas em pensamento.

“Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.”

:: O Seu Santo Nome – Carlos Drummond de Andrade

*Drummond, em outra vida, fora meu amante, poeta arredio – nota da autora.

Anúncios

13 respostas em “Conto para Drummond*

  1. Completamente incrível. Incrível demais, demais. Amei essa parte: “Eu te amo por toda a sua entrega à minha ausência de estabilidade”.
    Se eu fosse escreve um conto para meu escritor-amor, com certeza seria para o Erico Verissimo.
    Você tem o dom com as palavras, parabéns!
    beijos

  2. Tenho que concordar com todos e dizer que o conto está lindo! Muito lindo por sinal!
    Primeira vez por aqui, e com certeza voltarei mais vezes.
    Tenha uma boa semana.
    xoxo

  3. Você escreve divinamente bem! Que conto maravilhoso!
    Voltarei aqui sempre que puder também, adorei teu blog.

  4. Q lindo. Lindo, lindo, lindo. Muito suave nas palavras. Sim, como disseram ai em cima, você anda transbordante de amor, de sonhos, desejos, desejosa de aventuras, de entregas, de realmente dizer: não me importo. Linda você, Nina… linda..

  5. Assim se expõe a verdadeira insegurança masculina: a “crise da meia idade”. Nome equivocado, ao meu ver, pois é apenas um elemento de um conjunto de crise semelhantes que passa o homem ao decorrer de sua vida.

    Também creio que essas três palavras são destruidoras. Convicção empirica; superstição boba, talvez.

  6. vou dicordar. vc escreve melhor sem diálogo. eu sempre acho que os personagens se perdem nos diálogos, quando queremos dar a eles a nossa voz em vez de deixá-los se libertarem.

  7. Que lindo seu texto.
    Eu ando num momento tão sensível que me tocou demais.
    Eu não vou conseguir ser imparcial ao comentar.

    É de uma beleza seu texto, beleza de amor puro que supera dificuldades
    e não se importa com as coisas que não são relevantes ao sentimento.
    O que importa é só o prazer de sentir um ao outro.
    É lindo.
    De duas pessoas que têm consciência pra entender tudo isso.

    Obs: texto pra você no meu blog.

  8. Já disseram tudo à respeito do conto aí em cima… O melhor é o mistério do quanto disso é real e o quanto é poesia (não que a realidade não possa ser poética). Descobri que, sem saber, faço perfeita aplicação prática das palavras de Drummond desde que me entendo por “gente”.
    Hasta!

  9. Pingback: Conto para Simone de Beauvoir | sobre fatalismos

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s