Hoje o Samba saiu

(Para Anna Vitória. Que também o ama.)

Chico Buarque

E era a minha banda formada, cantando e tocando “coisas de amor”. E era a minha estréia naquele bar, em esquina anônima do Rio de Janeiro. E era o meu olhar passando entre as mesas dos clientes de olhares distraídos, desatentos e de surdos ouvidos. Não tenho, porém, o direito de reclamar. Eles pagam para não me ouvir e eu finjo agradá-los com minha arte supostamente desonesta. Eis que chega o meu amigo, trazendo ao lado, consigo, a surpresa que me prometera ontem mesmo. Quase desmaio no improvisado palco. Aqueles olhos azuis brigando com o contraste daquela pele morena. Um rosto marcante, deveras. Quase deixo de cantar, quase desafino. Mas sorrio. O meu amigo acena e o homem ao seu lado sequer me presta atenção. Mas estou fascinada em excesso para estar desiludida com o desdém de um olhar que não se levanta.
Sentam em uma mesa, próxima daqui. Faço minha parte, canto apenas e tão-somente para aquele nobre visitante. Canto Construção, seguida de um trecho de Deus Lhe Pague, pois essa é a versão original e também a mais bela. Canto e desconto meu contentamento, dor e mágoa; exponho minha alma libertária – e faleço. Minha voz morre, fatalista, e surge uma ameaça de tosse violenta. Controlo.
Olhos nos Olhos, amor. Essa eu canto com o rosto afogueado, todo o meu corpo está quente e pontos vermelhos de plena dedicação tingem a brancura de minha pele. Frias continuam minhas mãos (um paradoxo). Elas gesticulam, apontam com o dedo indicador, porque também eu “quero ver o que você diz, quero ver como suporta me ver tão feliz”. Também ele deixa de lado o copo de chope para perceber minha performance. Coro, empalideço. Torno-me trêmula e febril no mesmo instante. Ele olha para mim. Eu o vejo. Façamos, meu bem. Vamos amar.
Uma pausa. Novas músicas. O show, enfim, termina. Recebo o que me devem, Trocando em Miúdos. Dispenso a banda. Pago e pego uma bebida no balcão. Me dirijo até a mesa. Não peço licença, mas cumprimento ambos e sento-me na cadeira. Cruzo as pernas e subo, de leve, a saia de minhas vestes. Ele repara. Elogia a minha emoção no palco. Meu amigo me acrescenta adjetivos promissores. O visitante tão compenetrado está – não deixa de me observar, nem por um segundo. Mas eu também o faço, em desafio. O meu amigo diz ter encontrado alguém em outra mesa qualquer, percebendo nossa aproximação latente. O visitante me pede mais uma canção, à capela. Canto-lhe um trecho de João e Maria. E constato: Cantei Chico Buarque, cantei Chico Buarque (repito) para Chico Buarque. Encantei Chico Buarque e agora, que faremos? Vamos para a cama?
Mas me falta a coragem de fazer-lhe o obsceno, vantajoso e insano convite. Contento-me em pedir-lhe favor outro. Que para mim invente uma música, pois sou eu quem interpreta a mágoa e o riso de tantos outros – porque também eu amo, berro, me esquivo das situações várias e sou só. Ele concorda. Eu espero. Nos despedimos, ao mesmo tempo em que madrugada chegou. “Agora era fatal, que o faz-de-conta terminasse assim”, eu deveria saber. Ele me deixou uma promessa em dó maior. Também seus olhos para que eu tomasse conta, como quem diz: Hoje o Samba saiu. Procurando você.

“No palco, na praça, no circo, num banco de jardim
Correndo no escuro, pichado no muro
Você vai saber de mim
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte
Cantando
Por baixo da terra
Cantando
Na boca do povo
Cantando”

:: Mambembe – Chico Buarque.

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18 respostas em “Hoje o Samba saiu

  1. Fiquei fora um bom tempo, enfurnada na minha “rotina suicida”: trabalho/colégio/colégio.
    Volto agora, toda prosa. Porém, sem inspiração. Mas tentarei, prometo.

  2. Somos todas amantes desses olhos azuis. Pela porção mulher que lhe corre nas veias, e que derrama acordes de enternecimento por nossa espécie. Não preciso nem do casamento, com ele vivo em concubinato.

    Ana

  3. Não tem como não ser completamente apaixonada pelo Chico!!! Ador quando você escreve a seu respeito…

    E que bom que você voltou, já estava sentindo falta dos seus tão inspiradores escritos!!!

  4. Nina,

    simplesmente espetacular seu texto. Afinal,qualquer coisa que envolva Chico é sublime… ainda mais quando acompanhado por alguém que escreve com excelência também.

    Grande beijo

  5. Ah o Chico… ele que é mestre das palavras deixa quase todo mundo sem palavras pra falar dele, mas não deixou você!
    beijos

  6. Sem dúvida, volta toda prosa. E mais sem dúvida ainda, não lhe falta inspiração. Depois do susto que meus olhos tomaram ao ver essa cara nova, vem o colírio. Alegro-me, empolgo-me e, olha, até consigo escrever! Mas acabo de olhar um calendário que me lembra de 3 provas e acabo de olhar um relógio me dizendo que daqui a três horas tenho de comparecer a um lugar que já não me agrada. Vou embora ainda sorrindo e com a conclusão que sempre sou surpreendida aqui.
    Beijos.

  7. Que texto magnífico, você realmente tem o dom! Chico com certeza possui uma obra muito, muito boa. Tenho certeza que ele ficaria feliz com essa homenagem tão sincera, adorei mesmo.
    Beijos :*

  8. Que graça Nina, tudo lindo demais!
    Desnecessário dizer como também fiquei feliz e grata pela dedicatória, né?
    Beijo grande!

  9. sublime. nunca escreveria tão bem. nem escreverei assim. ainda não aprendi a ouvir Chico. me encanto com Pedro Pedreiro e mais umas outras.

    esses seus últimos contos demonstram alguém mais livre.

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