Carente profissional

Um fim de tarde específico não representava um cenário equivocado. Nada é por acaso, tampouco planejado. Evoquei, portanto, sua presença. Mesmo que fosse apenas para me provocar. Depois do insucesso da festa, para que o dia não se consumasse como perdido, exigimos o violão nos braços do rapaz que é músico. Um pequeno grupo se formara, com a pretensão evidente de festejar a juventude (mesmo que teoricamente transviada), com bossa e rima, porque a distração é necessária.
Iniciamos a trilha sonora de um passado recente, sentados no chão do palco do nosso diminuto Coliseu. As recordações fluíram naturalmente, como a minha voz a sair afinada, mesmo quando eu estava tão distraída do que cantava. Não me vigiei um instante. Em consequência, me transportei para perto de você. Entretanto, sorrio de maneira triunfante ao constatar que aquela fase já passou, assim como também se foi o meu romance astral em contato íntimo com a música, muito maior do que o caso momentâneo de amor primeiro que tive com você. Deixei a flauta, o piano e o meu amor soberano por um violino que nunca aprendi a possuir. Nessa brincadeira inconsequente, seis anos distante de qualquer partitura já se passaram, sendo que quatro foram desperdiçados/aproveitados ao teu lado. A sua nova namorada me acompanha – e a graça dela também dá nome à uma canção de Tom Jobim (escuta agora uma canção que eu fiz para te esquecer, Luíza).
Você está saindo da minha vida, parecia que ia demorar. Engano mútuo. Detesto, entretanto, suas tentativas. Isso eu já não tolero, nem permito. De tudo o que restou, a herança do aprendizado sobrepõe o erro cometido, em uma espécie de prêmio de consolação. Quatro anos perdidos, você agora me perdendo cada vez mais, porque nutro um sentimento forte pelo seu amigo – chama-me Capitu, se lhe convém. Caso perdido. Para nós três (quatro, com a dama de Jobim) o que sobra é o resto desse ano último – que está acabando, lembremos.
Retorno ao seu devaneio atual. Tanto fiz  – para agora terminar com essa cena eterna expandida em minhas lembranças. O sorriso dela e os cachos tingidos de vermelho a dançar no ritmo da música. Ela tem o mesmo rosto infantil que eu tivera naquele tempo, também o brilho nos olhos e a certeza leviana de que possuía alguém só por capricho. Tenho esperança de que esta jovem não sofra, que não deixe seus olhos tornarem-se vazios, como são os meus agora. Eu consigo observá-la e sorrir, enquanto é você quem está sobretudo ausente, até da expressão do rosto dela. Talvez não se importe com você, a menina. E, nessa sintonia de reciprociade, creio, foram feitos um para o outro.
Agora vem, me dá a tua mão. O teu desejo é sempre o meu desejo, vem, me exorciza. Tenho todas as canções que quero, na ponta da língua, tiro você de letra, mesmo tendo que inventar outra gramática. Mas nenhuma música me pertence. Quero, antes de tudo, minha alegria escandalosa de outrora e a capacidade de não ter vergonha de aprender como se gosta – tudo o que você roubou de mim.
Tenho um rosto cansado, uma vista míope e o meu coração disparado, acelerado. E continuo sob a mesma condição: distraindo a verdade e enganando o coração. Talvez você saiba, mas não sinta que estou me despedindo. Já que veio o pôr-o-sol, só faltava a fogueira, o mar e o aroma da areia. Um dia que se vai e eu a insistir em mim e desistir de nós (algo que há muito já deveria ter feito). é verdade, eu reconheço que tantas fiz… mas agora, também, tanto faz. O perdão pediu seu preço, meu amor. Mas não te amo. Deus é mais!

“De que me adiantou pegar na mão do poeta
e mandar pra frente da batalha feminista
a mulher do meu amado,
se o que me sobra é um nó,
uma ruga nova,
a lembrança da gafe abominável.”
:: Do poema Ruim, de Adélia Prado, presente no ótimo livro O Coração Disparado.

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8 respostas em “Carente profissional

  1. Oi, Nina! Me lembro vagamente dessa história… aliás… se é que é apenas uma história… de posts passados.
    Kiss

  2. Adoro quando você mistura músicas a suas histórias, Nina! Dá um toque a mais de lindeza e poesia.
    Beijos

  3. Nossa tá tudo muito legal aqui. Gostei desse simplismo, dessas cores clean. Ficou mais jovial, alegre. Eu gostei, gostei. E é sincero. Quando não gosto eu falo não é? rs

    Vim aqui deixar meu afeto Nina. E pedir perdão por sumir e nem dar satisfação. O fato é tenho sumido de muitos lugares. Mas esquecer é uma coisa que jamais vai acontecer. E de tudo então seria impossível.

    Te adoro meu anjo. Saiba que sempre pode contar comigo. Minha amizade é pra sempre. Você tá no meu coração. Sem hipocrisia, aprendi a te amar. É amar mesmo. Esse amor fraterno e doce que existe entre amigos de verdade. Eu sou alguém bastante ligado no seu bem estar. Você é uma das poucas que me faz acreditar que tenho uma irmã (é porque só tenho irmãos homens) rsr. E me preocupo contigo. Não é a toa que me envolto tanto nos seus relatos aqui. Porque aprendi a te entender. Isso é bom. Te entendendo posso te ajudar.

    Ô Nina, pena que por aqui a gente não pode conversar tanto. E pena você não ter tim. Mas gostei da ideia das cartas. Vou te mandar meu endereço naquele email que tu me passou. E desculpe também demorar a responder. Mas se eu te contar o que aconteceu comigo nesses ultimos tempos tu vai entender. Foi coisa tensa. Mas estou de boa no momento.

    Eu fiquei desempregado, mas mesmo assim não falta trabalho pra mim e fiquei mais ocupado como nunca rsrs (você estava certa, muitro trabalho, mesmo desempregagoa haha). Porém hoje fechei um emprego bom, de carteira assinada. Uma coisa segura é melhor. Vamos ver. =)

    Beijos.
    Se cuida meu anjo.

    ps: e o turismo? optou? rs (eu fiz uma propaganda boa né? rsrs)

  4. senti um jeito quase fúnebre de se relatar essa reunião. com todos os personagens caminhando sem rumo pela roda. sem saída.

  5. Somos mais generosas, as mulheres.

    Até para seguir em frente, deixamos o que é passado ainda perfumado com as flores que enfeitam o epitáfio poético de nossos amores mortos.

  6. que lindo! que layout lindo!

    faz tempo que não leio textos de desamor como esse. me apaixonei.

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