Para Werther

“Vi morrer muita gente, mas a humanidade é tão limitada que se mostra incapaz de conceber o começo e o fim da sua existência.”
:: Do livro Werther, de Goethe.

(…)
O meu coração vai bem. Às vezes, me ocorre um bater acelerado e sem explicação aparente. Não faz muito tempo, tive uma crise terrível de choro e tosse, ao acordar de manhã cedo (e, consequentemente, acordei todos em casa). Não podia explicar o motivo do repentino ataque aos meus familiares, até porque, eu não respirava muito bem e não recordava a razão do infortúnio. Algum pesadelo, creio eu. Outra vez fui levada à emergência e só me aquietei após uma dose de calmantes leves, que me fizeram dormir e acordar tranquilamente – embora em nada estivesse disposta.
Nunca procurei saber se é consequência da insuficiência cardíaca a perda repentina de memória. Na realidade, pouco sei sobre a doença à qual me recuso ao tratamento. Nunca fui dada às crenças religiosas, mas também não procurarei interferir no que for associado ao direito divino – do poder que Deus tem (se é que Ele existe) em me levar quando melhor entender. Ou Deus, ou a Morte. Nunca temi a segunda, embora me seja estranho pensar em morrer cedo. Por favor, não me diga que estou sendo dramática, você não têm idéia do que tenho passado. Desde pequena, para nada tenho concerto, e duvido que algo possa ser feito agora. Até porque, já disse, não quero. Se for para continuar com a vida que tenho, prefiro ir o mais cedo possível.
Entretanto, não vivo cada dia como se fosse o último. Continuo da mesma maneira que antes, como se nada estivesse acontecendo, como se minha enfermidade fosse de total insignificância. Como eu dizia, porém, sinto que perco aos poucos a memória – ela, que sempre me foi uma excelente aliada. Na realidade, consigo me lembrar de muitos fatos relacionados da minha infância até o ano passado. Mas não me recordo, por exemplo, do que comi no jantar de ontem ou do modelo e da cor da roupa que utilizei na véspera de nossa despedida. Eis o que me parece grave. Eu gostaria muito de continuar vivendo ao menos com o meu pensamento intacto. Mas sem memória, não pode haver escrita. Do que não me recordo, reconheço, são detalhes pequenos. Mas até quando?, me pergunto. Só o tempo deverá dizer. Talvez eu acorde numa manhã e me descubra sem saber o meu próprio nome!
Estar com os dias contados (na verdade, não sei até quando), deixa-me, por outro lado, menos tentada ao suicídio. Como morrer brevemente será inevitável, não me parece haver motivo para alarde. Entretanto, em minha plena lucidez de insana, penso se não vem a ser um suicídio inconsequente a minha recusa ao tratamento. Mas quem haverá de julgar-me além de Deus? Esperarei, pacientemente.
Para terminar, o tempo aqui está adorável. Sei que você detesta chuvas, mas preserva o clima frio. Então, irá adorar esta cidade – tem feito pouco sol na última semana (e excesso de nuvens cinzas), e a previsão é de que continue desta forma ainda por um bom tempo. Nesse caso, se for de seu interesse e agrado, peço que venha. Mas avise antes, para que eu lhe prepare um aposento em minhas instalações.
Obrigada pelos cuidados transmitidos à minha saúde, de sua (in)feliz amiga,
Nina.

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6 respostas em “Para Werther

  1. Adorei o texto! :)

    PS: Meu maior medo é sofrer de amnésia. Não que eu tenha uma memória invejável, longe disso. Porém não possuir lembrança alguma na memória é demasiadamente triste.

  2. Triste, melancólico e ao mesmo tempo carregado de amor e esperança.
    Lindo!
    Bjs!

  3. gosto do paradoxo da morte breve anulando o suicídio. talvez seja só um suicídio surpresa, criativo.

  4. Nina, eu não a conheço. Apenas reconheço sua identidade através da sua voz literária, a qual muito aprecio. Dentre milhares de blogues espalhados pela rede, o seu me é muito caro, porque nele consigo tocar a qualidade dos seus textos impregnados de referências dos autores que me são importantes, verdadeiros alicerces.

    Eu não a conheço, mas me preocupo com você. Porque sinto na sua escrita a nudez da sinceridade, e não gostaria de perder a possibilidade de renovar minha alma com seus textos sempre frescos e cheios de juventude. É bastante egoísta, eu sei. Mas você que vem de uma terra de gente tão persistente, não vá contra a sua própria natureza. Anti-natural é partir. A vida sempre prevalece.

    Abraço-te com carinho. Ana

  5. quem tem muito a dizer ao mundo não morrerá tão cedo, antes que assim seja feito.

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