O grego mito indizível

Novamente, ao Pã.

Ótima cena "grega" do filme Orgulho e Preconceito, de 2005, com Keira Knightley. A personagem Elizabeth Bennet visita o castelo de Pemberley, no Derbyshire e se depara com uma belíssima galeria de arte, com estátuas gregas e alguns bustos da família Darcy.

...

Tal como a ninfa Eco, apaixonei-me pelo que me parecia belo. E corri atrás do tão impulsivo e impossível Narciso – meu Narciso inviável, admirado através de nossa distância próxima e distorcida. Eu também sou filha de Zeus, também erro e peco. Pela platonice não-correspondida (como toda platonice, naturalmente) inventei de me isolar em uma caverna, próxima a um rio. Não mais do bosque serei – e estava decidido. Em conseqüência, de fome e de sede morri, também por amor, mas esse vem a ser um motivo banal, enfim. Minerva vingou-se por mim, e da maldição que Narciso teve, foi ele quem se apaixonou pelo primeiro rosto humano que viu na manhã seguinte a oração de sua praga. Sua própria imagem e memória desconhecida o fez ver e crer que tudo lhe é feio – com exceção do que seja espelho. Morreu de fome e de sede como eu – não por amor, um motivo banal, mas pela beleza e pelo orgulho, enfim.

***

Tal como o deus Pã, apaixonou-se pelo que lhe parecia belo. E correu atrás da tão casta e tímida Syrinx – essa ninfa inviável, mais deusa intocável do que filha de Zeus, de fato. Nasceu da cabeça dele, a filha degustada pelo pai – o pai e o seu medo de que houvesse um poder maior do que ele próprio reinando no Olímpio. Atenas. Palas Atena. Deusa da Sabedoria, Sofva, Sofia. Quem auxilia Ulisses em suas navegações também nascera de um complexo de Édipo, diria Freud. Pã, pagão, correra atrás da ninfa, buscando saciar suas vontades, sempre em busca do que belo era. A donzela desejou tornar-se invisível. Tornou-se um instrumento feito de caniços (graças ao rio Ladão) que, não por acaso, fora encontrado por Pã em um bosque. Ele juntou os caniços e tocou o que chamou – de flauta. Ele violou – Syrinx. Com atrevimento, tão hermafrodito, criou-se assim o mais paradoxal dos cantos de orquestra. Nada é mais misterioso que o eco barroco de uma flauta. Eco – não podemos esquecê-la: é o nome que se dá ao som que retorna. Eco ainda vive em tudo o que vem a ser vazio e deveras solitário. Eco responde no submundo de uma flauta, habitante do Hades e da Hélade mais incomum. Universo paralelo. Cidade polichinelo. Polis – palavra grega que designa o que há em excesso. E regresso ao tema Narciso: Syrinx por ele apaixonou-se. Pã, enciumado, tirou da ninfa o poder da fala. E pastores a despedaçaram.

***

Hoje sou Atena, Minerva, mas tão ciumenta quanto Hera. Nada tenho de Afrodite – mas diga-me o contrário e dê-me assim, consolo. Do contrário, e em contrapartida, abrirei minha caixa de Pandora e espalharei pelo teu mundo a desavença, todo o tipo de doença, a morte. É pura tragédia grega. Mas sou tão inglesa quanto grega ou romana e, habitante dos mares que sou, também devo ser uma amante tão convincente e interessante quanto Calipso, embora, como Atena, tenha lutado com Poseidon. Meu calcanhar é ponto fraco e desconhecido. Também minha nuca – e você pode beijá-la. És tu Dioniso, meu deus tão vulgar. Olhe para a Hécate da noite alta (Nýx), eu, sempre habitante, satélite. Olha e recorda de uma ilha de outrora, branca, grega. Como o pôr-do-sol que se vê ao fim da tarde, é sexta-feira, mas Cronos ainda não está aqui para contar o tempo (sou amiga de Horas, entretanto). A Terra surgiu do Caos, em puro ato sexual. Gaia é mãe. Hímeros. Segredos que Homero deixou de relatar na Ilíada. Quero orgias com Sátiros e ninfas. Aqui termino. Recolho-me ao berço de Netuno, traindo Zeus. Sou do mar. Dele nasci, tal como Afrodite. Foi você quem não soube me amar e não devo chorar. Eu sou feita de palha. Pois, tal como Adélia Prado, não sou mulher que os gregos desprezariam. Eu sou de barro e oca. Eu sou barroca.

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11 respostas em “O grego mito indizível

  1. mocinha, tudo em ordem, graças a Deus.. e por aí, na santa paz?

    outro dia vi numa pilastra, no rio sul, uma moça muito parecida com as suas fotos que vi no flickr, até comentei com a isis, sobre ser você… bom, creio que era…

    beijinho pra ti, fica bem!

  2. Nina, admiro tanto esse teu modo de escrever tão poético e inteligente. Sério, eu queria ter a metade do conhecimento que tu demonstra ter, rs.
    Muito bom voltar a ler tuas palavras, saiba.

    Um beijo.
    Obrigada pelo carinho.
    Comecei a te seguir no Twitter (ainda é @cronistaamadora?).
    Hasta!

  3. Nina-escritora…. Não foi meu níver, não! Não entendi bem porquê da pergunta. rs…
    Cada dia que passa, escrevendo melhor! Kiss

  4. Bem diferente esse, Nina, gostei. Quando mais nova eu tinha um fraco por mitologia grega e devorava tudo quanto era coisa a respeito, uma pena que muito daquele conhecimento acabou se perdendo.
    Beijos

  5. Ah Nina, que saudade estava disso tudo aqui. E dos seus textos, do seu talento.
    Já li muito sobre mitologia, mas pouco me lembro agora, só sei dizer que adorei o que escreveu.
    Sou barroca também, na época das grandes dúvidas, do exagero, quase bipolar.

    Kissus =**

  6. ser de palha, ser de barro, ser de carne, ser de palavras. e afinal, qual é mesmo a diferença?

  7. Não conhecia essa sua vertente para os mitos gregos. Confesso que sei bem pouco, mas ainda tenho vontade de aprender mais. Perfeito o fechamento do seu texto.

  8. Você tem o dom da escrita. Adoro os seus textos e adoro a sua fidelidade para comigo, ao ler, independente do espaço, o que produzo.
    Agradeço-lhe por isso, por ser uma leitora tão leal e por encher meus olhos com belíssimos textos seus.

    Um grande beijo, Nina

  9. Nossa, eu adoro mitologia grega, muita coisa do que você falou eu não sabia, e achei super legal.
    Muito interessante seu jeito de escrever.

    Beeijos!

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