Conto para Simone de Beauvoir

É a continuação de Conto para Drummond.

“Porque eu não a amei e porque a amei; porque ela chegou tão perto, porque ficou tão distante. Porque eu existo. Eu existo e ela, livre, solitária, eterna, ei-la submetida à minha existência, jungida à seqüência mecânica de seus momentos. (…) Porque eu aí estava, opaco, inevitável, sem razão. Teria sido preciso não existir jamais.”
:: Do livro O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir.

Lendo Simone de Beauvoir

Era exatamente como se ele tivesse partido – pois sentia ela um vazio tão grandioso e perturbador, não raro inexplicável, que as lágrimas também vinham convincente a si mesma. Estava amando. Estava começando a amar e tinha consciência plena da ausência dele, que parecia tão eterna à revelia de suas tentações. Entretanto, não queria utilizar de sua estratégia inconsciente e primordial: a de também ir embora, a de se ausentar tal como ele, não por vingança, mas por saber-se fraca diante dos sentimentos. Eram amantes e só. Não se podia esperar mais do que isso. Não podem esperar absolutamente nada além disso, pois esta é a regra imposta pela sociedade e suas conveniências – o que, facilmente, confunde-se com as leis divinas. Ele dorme serenamente enquanto ela lhe afaga os cabelos grisalhos e poucos. Afunda o rosto na pele quente, para sorver-lhe o aroma nada casto de anjo decaído. Beija-lhe com ardor e cautela as linhas de expressão, já tão evidentes. Ri, pois ele não acorda. Chora, pois ele está distante. Afunda ao seu lado na cama, e pensa que o fim só está próximo porque a sensação é de vazio. Pergunta-se: “quando foi que aprendi a ‘mendigar’ o amor das pessoas?” – tenta buscar uma resposta no passado, mas se desvencilha de qualquer ressentimento que procure deixa-la mais infeliz. Declara-se com sorte. Mas sorte em quê, exatamente? Ter um homem ao seu lado não muito significa. Sabe-se atraente, como qualquer fêmea de sua espécie que o tenha conscientemente. Saber usar seu poder de atração, até quando não quer. E sabe trair em silêncio. Porque este não é o único que visita seu corpo, mas foi o primeiro a deflorá-lo. O primeiro em muitos aspectos. Tratou-lhe como a menina que é – a ninfa prestes a iniciar sexualmente sua vida. Tratou-lhe com um respeito inesperado de ambos. Tratou-lhe exatamente da maneira que ela imaginava – e daí vem a sua certeza absoluta de “sorte”. Pergunta-se, ainda, quanto tempo irá durar, embora agradeça por cada momento em que ele se dispõe a fazer esta caridade que é fingir que a ama. Ela quer dizer o que sente, mas sente não ser necessário. E caso seja, teme o afastamento irreversível dele. Como se “eu te amo” fosse algo pecaminoso para ser dito entre amantes. E é. Passeia o dedo indicador em suas costas largas. Abraça-o por trás, agarra-lhe o braço e ele acorda em um sorriso. Vira-se para ela e beija-lhe os lábios carnudos com o desespero da pressa constante. Ele se senta, com as pernas esticadas. Ela senta por cima dele, completamente nua do jeito que está, passa os braços por trás de seu pescoço, beija-lhe o mesmo, descendo-lhe os lábios até o peito nu, para retornar do caminho de onde veio e reencontrar seu rosto, em seguida. Observam-se. Conhecem-se, afinal. Ele percebe algo estranho, mas ignora momentaneamente para repetir os movimentos dela. Pois caminha a língua de sua orelha esquerda até os seios rosados e virtuosamente infantis. Morde-lhe a ponta dos mesmos. Retorna ao seu rosto. Pergunta o que a está preocupando. Ela responde vagamente que nada a tormenta, que só está a admirar o amante presente. Pensa em Simone de Beauvoir, como Hélène, sua personagem, a dizer ao seu amado: “sou útil à sua felicidade, mas não lhe sou necessária para viver”. Ele responderia em bom tom, no mesmo diálogo que “é possível querer imensamente a alguém sem dele necessitar”. Isso seria suficientemente convincente, de modo que ela não teria nem como fazer alarde, tampouco persuadi-lo do contrário. Ela percebe-se de todos e de ninguém. Não tem a quem amar unicamente, não é necessária a felicidade permanente de nenhum de seus amantes, nem mesmo do primeiro. Sabe-se mortal, fraca e, sobretudo, ela sim é maior necessitada de amor inexistente. Todos têm um poder enorme sob ela. Este aqui, principalmente. A menina iniciada não sabe recusar. E vai aceitando, acomodando contra o seu corpo o peso dos solitários de caráter. Vai pagando por todos os pecados de Eva, da maldição de Pandora, por todas as bruxas queimadas e os filósofos sofistas errantes da Antigüidade. Tudo em nome de um amor inexistente e das palavras que anseia – mas sabe que jamais irá ouvir. Deita ao lado dele, apoiando a cabeça de anjo em seu peito grego. Ele lhe afaga os cabelos e beija-lhe a testa. Logo virá o entardecer, embora aqui pareça noite alta. Logo ele tomará um banho para tirar-lhe o odor do sexo. Vestirá a roupa, voltará a sua vida de casado. E ela se conformará com a condição que lhe foi imposta, desde que começaram a ter este caso.

Anúncios

17 respostas em “Conto para Simone de Beauvoir

  1. Nunca li Simone de Beauvoir, mas me lembro que o meu professor de Literatura sempre falava dela nas “conversas de bastidores

  2. [Aimeudeus, o comentário saiu cortado!]

    Mas continuando: o nome dela é uma delícia de se dizer :D

    E tenho que te parabenizar, porque tem uma parte que gostei tanto: “Chora, pois ele está distante. Afunda ao seu lado na cama, e pensa que o fim só está próximo porque a sensação é de vazio. Pergunta-se: “quando foi que aprendi a ‘mendigar’ o amor das pessoas?” – tenta buscar uma resposta no passado, mas se desvencilha de qualquer ressentimento que procure deixa-la mais infeliz.”

    Lindo, lindo!

    Beijo!

  3. O amor deveria ser assim: “é possível querer imensamente a alguém sem dele necessitar”.
    Querer imensamente, mas não precisar do tal objeto desejado para viver, para ser completo.

    E olha, mendigar amor… Não sei quando foi que aprendi a fazer isso, mas não é um aprendizado de que me orgulhe.

    Beijo.

  4. Nina, quanta saudade de vc, dos seus escritos aos quais me deixam cada vez mais encantada!!!
    “Mendigar amor”, aprendi também… Amei o conto e o caso também, já o acompanho e adoro seus escritos sobre ele, são sempre tão intensos que quando percebo já estou perdida entre suas entrelinhas…

  5. Impressão minha ou existe uma sequência ou pelo menos ligação entre todos os seus contos iniciados com “Conto para…”?
    Interligados ou não, são lindos.
    beijos

  6. Contos… e mais contos! *suspiros.
    Não sabia que a senhorita trabalhava numa clínica de ortopedia, jurava que você era modelo. Sem brincadeiras. Não era? Se eu tiver viajando, é só relevar… ¬¬’ Kiss

  7. Cronicas.. não sei escreve-las. E por isso admiro seus escritos. Tao reais q parecem relatos do qe se viveu. E eu já me vi assim. Tão embriagada, e tão sem sem saber q rumo seguir, e tão querendo ficar e ser.

  8. Nunca li nada de Simone de Beauvoir, mas tenho muita vontade de conhecer.
    “sou útil à sua felicidade, mas não lhe sou necessária para viver”.

  9. sempre que aparece um desses contos em homenagem a alguém, eu fico querendo saber como será o próximo.

  10. Ahh, a dor presente nesse conto é quase tocável. A vida de amante é horrível, sua inspiração foi ótima!

    Beeijos!

  11. Não é o ideal, mas é uma típica situação que estamos acostumados a ver por aí. Amantes que se privam de certos detalhes, mas abusam de outro. De um lado vivem uma ilusão de que é preciso ser comedido, ou evitar formalidades inúteis. São apenas amantes.

    No fundo é uma situação pouco confortável, para ambos. Embora denote uma fugaz sensação de prazer, a felicidade momentânea no ato pode existir para ambos ou para apenas um, ou para nenhum. O limiar que separa o sentimento deles é o grande perigo.

    Em geral, a mulher guarda esperanças. Acho que a alma feminina está sempre em busca de um conforto. Não importa muito como essa mulher pense, ou como ela se veste, ou vive, ou se ilude. Lá no fundo, de toda mulher vai existir um cantinho que anseia por um carinho intermitente, por um amor realmente sincero, sem sensações inconsistentes ou incompletas.

    A dor fica insuportável quando se vive numa ilusão. Não é que seja uma condição imposta. Apenas existem momentos em que os sentimentos a prendem de uma forma que as escolhas mais livres ficam para trás, tudo pela caricatura fugaz do prazer que existe nos poucos momentos que se encontra com um amante. Ama-se a conveniência, e pouco se faz para combater essa insuficiência de querer algo real.

    =)

    ps: Oi Daniele! Desculpa o sumiço viu. De qualquer forma, fortaleça no seu coração o sentimento que nutro por ti, que é sólido e sincero.

    Espero que esteja bem! Te amo querida!

  12. Pingback: Conto para Jane Austen | sobre fatalismos

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s