Fomos inocentes (ou ensaio sobre a literatura infantil com pretensão de adolescer)

Ilustração de Pep Montserrat para o livro Kafka e a Boneca Viajante

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Se Antonio Prata respondesse quaisquer dos comentários que eu costumo deixar semanalmente no blog dele, isso já me deixaria satisfeita. Queria ter tido a sorte de encontrar Saramago em alguma palestra sobre literatura, política e religião – e ter-lhe feito perguntas que, certamente, o deixariam desconcertado, porém, nada aborrecido (só desencadearia uma aproximação maior, acredito). Ter sido amante de Carlos Drummond de Andrade, ter sido sua companheira fiel. Ou a melhor amiga de infância de Fernando Sabino – o escritor da minha primavera primeiríssima. Talvez até aquela menina que, um dia, visitou o apartamento do extremamente silencioso Rubem Braga – e que lhe fez perguntas simples, mas que, por timidez do autor, ele não soubera jamais responder.Tudo isso imaginei ao me pegar sorrindo e chorando, entrando em contradição com a história fictícia de um fato real, narrado no livro Kafka e a Boneca Viajante, de Jordi Sierra i Fabra, premiado autor espanhol.
Em 1923, passeando pelo parque de Steglitz, Alemanha, Franz Kafka se deparou com uma menina chorando. Não havia ninguém perto dela – e a coitada parecia perdida. Ele se aproximou, conversaram, e descobriu-se que era a menina quem havia perdido sua boneca, Brígida. Kafka, aflito por ajudar a pequena, imediatamente inventou ser um carteiro de bonecas. Ele havia recebido uma carta de Brígida naquela manhã – e ela não estava perdida – estava viajando ao redor do mundo.
As cartas de Kafka/Brígida destinadas à menina duraram três semanas. Brígida, a boneca, visitou Paris, Londres, Pequim, Atenas, etc. Mas o escritor sabia que deveria pôr um fim à história – e decidiu fazer com que a boneca se casasse. Kafka conseguiu convencer a criança por todo aquele período, até que a despedida se tornasse menos dolorosa.
Meses depois, o escritor falecera, em um sanatório, vítima de tuberculose.
Essa história aconteceu de verdade. Foi contada por Dora, uma moça que viveu e amou o escritor em seu último período. Entretanto, nunca se soube o nome da menina, das cartas escritas somente para ela, de sua existência, enfim (embora seja verdade que a tenham procurado, nos arredores do parque, durante muitos anos). Mas Sierra i Fabra narrou a história com toda a inocência e sensatez – destinadas a crianças de todas as idades -, com o intuito de reavivar a memória de um dos escritores mais importantes do século passado.
Ao término da pequena obra, que é possível ler em algumas horas, tentei lembrar-me de quando fui criança. Pois a menina do livro pergunta ao carteiro: “O que acontece quando as meninas e as bonecas crescem?” e ele pensa em responder, “esquecem que um dia foram meninas e bonecas”. Minha infância não durou o tempo que deveria, perdi a inocência rápido, no bom sentido. Porém, continuo até hoje com aquela característica comum às pessoas que crescem antes do tempo ou são vistas como inteligentes demais: a ingenuidade ainda destrói – e não conseguimos lembrar do tempo em que fomos inocentes.
Minha infância teve pouco dos contos-de-fadas (embora tenha estudado minuciosamente fábulas de Grimm e Hans Christian Andersen. Mas Lewis Carroll, confesso, pouco me atraía), pois, aos dez anos, eu já conhecia O Processo e A metamorfose de cor e salteado. Se aparecesse um autor infantil, quando muito, eram Sabino e Saint-Exupéry. O primeiro com suas narrações fabulosas de mineiro-menino; o segundo, com o seu príncipe pequenino, o encantado que fazia com que eu me sentisse princesa, mas com o qual nunca fui “feliz para sempre”.
Aos catorze anos, passada a fase teatral de Aristófanes a Shakespeare, dediquei-me à literatura infanto-juvenil. Li a coleção de livros que ganharam o Prêmio Jabuti, na categoria infantil, obras de Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes. Esta última, em especial, me fez descobrir, recentemente, um ótimo livro, um de meus prediletos da literatura com a temática anteriormente mencionada: Aula de Inglês. De escrita concisa, porém não menos penetrante, narra a história de uma estudante de dezenove anos e seu professor de inglês (de cerca de sessenta) – que a ama em segredo. O problema, entretanto, é que essa estudante conheceu um escritor (de cerca de quarenta), que a toma como musa inspiradora para a sua mais nova personagem. Também, para todas as idades. Além disso, há um destaque maior para A Bolsa Amarela, consagração da autora.
Tal como a obra de Lygia, há também esses livros com intenção de romance (não deixo de pensar que talvez Sierra i Fabra o tenha feito de tal maneira), em que o amor de um velho por uma jovem se faz presente – tema por demais corriqueiro, desde a Grécia Antiga (com todas as ninfas existentes), mas que se consagrou definitivamente com a agressividade despudorada do século XX de Lolita, de Vladimir Nabokov (que inventou o termo “ninfeta”, inspirado nas ninfas da Antiguidade). Ainda assim, Kafka e a Boneca Viajante é de uma inocência pura, ausente de má fé e segundas intenções, mas repleto de lirismo e verdadeira compaixão.
Penso que estou longe de, um dia, vir a ser motivo de inspiração para a obra de qualquer autor que possa surgir. Tampouco posso saber se futuramente serei a companheira de algum, melhor amiga, confidente fiel e distante, próxima, alguém da qual ele se recorde, mesmo que por um instante mínimo, seja lá qual for. Fato é, porém, que todos os livros que já escrevi – mentalmente -, foram dedicados a alguém. E tudo o que costumo escrever têm como inspiração o próximo, o distante, o existente futuro. As pessoas em geral transmitem uma fascinação incrível – e são motivações para todo tipo de enredo. Fico aqui comigo, porém, a imaginar que fim terá levado a menina que chorava no parque (já que a Segunda Grande Guerra estava próxima) – e que Franz Kafka cuidou de fazer com que ela não permanecesse infeliz com um episódio tão banal como a perda de um brinquedo. Essa é a demonstração mais valiosa de que o amor, enquanto artefato de inocência pode brotar no mais simples olhar tristonho de uma criança. E os livros infantis – não os que tratam de monstros, vampiros e quaisquer outras motivações “marketeiras” da atualidade -, mas sim os que apresentam à crianças e adultos a sensibilidade da afeição, estes sim, são os que valem à pena serem lidos e recomendados.

“São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.”
:: Trecho da crônica O Amor Por Entre o Verde, de Vinícius de Moraes, presente no livro Para Viver um Grande Amor.

 

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13 respostas em “Fomos inocentes (ou ensaio sobre a literatura infantil com pretensão de adolescer)

  1. existe uma relação única entre as pessoas e seus livros/filmes preferidos. relação de melhores amigos, como nenhuma outra pessoa pode ser.
    acho que essas cartas talvez tenham tido um efeito parecido.

  2. Essa coisa da perda da infância é realmente um marco pra todo mundo. Lembro até hoje do dia que percebi que não queria mais brincar com as minhas barbies, e o quanto aquilo foi assustador na época. Eu ali, com 12,13 anos sem saber o que queria fazer.

  3. Nina, excelente crônica. Referências fantásticas e um olhar muito especial sobre a literatura e como ela interfere nas nossas vidas: o seu.

    Que bom que gostou do Personal Palpiter. O repertório da Maria Antonia Demasi também é de primeira linha.

    Beijos, Ana

  4. Ana,

    achei muito bonito o modo como escreve sobre a literatura e os sentimentos despertados. Estava caçando por aí posts sobre literatura feminina, escritoras pouco conhecidas, e assim cheguei ao seu blog. Pra começar essa imagem do layout é linda, do filme. E você escreve muito bem. No post sobre escritoras que você ama, pude conhecer um pouco mais algumas, o que foi de grande ajuda para a pesquisa que estou fazendo. Queria não ter perdido o entusiasmo para escrever e saber falar de coisas que gosto assim como você faz. Infelizmente, me vi obrigada a fechar temporariamente meu blog, por perceber (através dos outros) o quanto reclamo e trato de assuntos que mais me chateiam. Enquanto isso, vou lendo por aí, e espero encontrar mais blogs legais como o seu.

    Beijos!

  5. Errei. Te chamei de Ana, me desculpe, Nina! Estou com Ana na cabeça hahah!

  6. Oiê!

    Mentira se eu disser que perdi a inocência tão rápido. Aos 12 anos eu ainda brincava de boneca.
    Fiquei muito curiosa para ler esse livro. Deve ser muito fofo. :)

    PS: ADORO ANTONIO PRATA TAMBÉM! Mas quem não adora?

  7. Linda a crônica, Nina!
    Também fui dessas que perdeu a infância meio cedo e hoje convíve com resquícios de alguns aspectos infantes.
    Achei o máximo essa história do Kakfa, fiquei com muita vontade de ler o livro. Muita mesmo.
    Beijos

  8. mas antes de mais nada, os livros precisam de boas histórias.

    (concordo com todo o resto)

  9. Dentre todos os escritores que citou, conheço cerca de meia dúzia, já li Lolita também e achei muito interessante a história do livro Krafka, acho que vou buscar lê-lo.
    Ficou ótimo o post, você já tem um histórico impressionante.

    Beeijos!

  10. Pingback: Literatura retrô « sobre fatalismos

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