À pessoa (ausente) na sala de jantar

Elisabeth, imperatriz da Áustria, rainha da Hungria, ditava uma ordem às suas damas de companhia que deveria ser devidamente cumprida: nenhuma delas poderia casar-se. Ser a dama de uma imperatriz – ainda mais de Sissi – não era tarefa fácil, entretanto, as moças eram bem escolhidas, através de seus conhecimentos e de sua etiqueta. Eram amigas da imperatriz, acima de qualquer coisa. Só não poderiam casar – sob pena de serem expulsas da corte.

***

Acordou às seis da manhã, com todos os afazeres por fazer, assim como a barba dele. É pau, é pedra e pressa, rumo ao fim do caminho. É fim de linha, é lenha, é fogo e é foda. Demorou a passar o coletivo, as cabrochas e a roda de samba que passam, o amor mal-feito depressa, na intenção de partir. Faltam mentiras para que se dê risada do grande amor, e estas vieram. Não eram mentiras, mas uma preparação baseada na omissão dele – e nas perguntas que ficavam sem resposta, naquelas reações indevidas que ele já previa antes que o dia começasse. Fora tudo questão de um desenho lógico, tijolo por tijolo. Ela, com aquela aflição desconfiada, um gosto de feijão, pavor e hortelã na boca. Ele, com passos rápidos e precisos, passos que subiam à construção. Ela, sentindo que amou daquela vez como se fosse a última.

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Ia lhe parabenizar pela idade nova chegando, provavelmente diria estar com saudades, possivelmente expressaria a veracidade de suas emoções. A expectativa do ensaio fora em vão, e as mãos, depois disso, os gestos – não correspondiam aos sentidos que o cérebro comunicava ao corpo. Nada fez direito, entrou em pânico, em desespero, tentou achar o que perdido estava, mas onde? Onde? Onde encontrar uma amizade que se esvai, de um modo ou de outro com aquele final tragicômico já previsto por ela própria, fazendo-a despir o corpo em tinta laranja-azulada, vestindo nariz de palhaço, como se houvesse um lado ruim competindo consigo mesma, a dizer-lhe, fazendo troça: “eu avisei que iria acontecer”?

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O mais surpreendente foi o que veio depois. Os relatos posteriores ao fato. Funciona de modo conveniente a amizade daquele que pensou que lhe bastaria por ser sincero. A recompensa dos últimos quatro anos se resumia não somente ao infortúnio de um estado civil, mas também ao desprendimento – tão comum a esses homens que ela costuma amar e dos quais não consegue desfrutar ou aprender a lição maior. Olhou para dentro de si – que também significa observar um reflexo convincente do passado -, e, nada surpresa, observou que o erro veio de muito antes. Não deveria ter demonstrado tristeza e descontentamento somente porque a rotina não lhe agradava: assim ele não sentaria ao seu lado com a intenção de fazê-la sorrir para depois induzi-la a falar. E, como aconteceu mesmo, não deveria ter confiado a tal ponto de ter aceitado ouvir todos os “eu te amo” ditos em vão por ambos. Foi um erro ter-lhe confiado o segredo – motivo da infelicidade-mor. Foi um erro ter pedido mais de um milhão de vezes que ficasse mais um pouco. Foi um erro ter confiado naqueles olhos castanhos, visto que aprendeu com ele mesmo que não se deve confiar em pessoas de olhos claros, pessoas em geral.

***

(Pessoas como ele, retratadas em plano íngreme de uma sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer, como se, para a vida, não houvesse imprevistos precisos e necessários, que fizesse da nossa sobrevivência uma obra literária de Goethe ou uma comédia-dramática de Shakespeare. Ana Karenina desce as escadas de um salão francês e, em sua insustentável leveza de ser e saber, cruza a linha do trem. Saiu sem jantar, ocupada em morrer.)

***

Não quer conversa. Não há o que dizer. Mentira. Há muito que ser dito, mas ninguém quer se ferir, então, o silêncio é a opção de penalidade a ser mais bem considerada. São cinco horas da manhã no relógio imperial das badaladas urbanas. Planejando chegar cedo, certamente o encontrará. Tudo lhe é premeditado e calculista.

***

Quando o encontra, lá pelo meio-dia, ele afirma e confirma tudo o que já lhe disseram: “ela é legal, falei de você para ela. Fulana quer te conhecer”. Ela se recusa, permanentemente. Não pretende se deliciar com um novo conhecimento. Já tentara outras duas vezes, porque não é a primeira vez que o mesmo erro lhe ocorre – e todos se arrependeram de ter-lhe pedido que fosse menos insociável. Em vão. Em vão seria agora. Não quer conhecer a autora do furto.

***

Riu do grande amor. Um amor sem princípio de caso e continuação. Gostava tanto dele que achava melhor esconder, deixando ficar subentendido, como uma idéia que existe na cabeça, mas não tem a menor pretensão e/ou obrigação de acontecer. Porque ele mesmo lhe dissera, certa vez, que sofrer por amor é bom. Ela conclui que é a mágoa mais saudosa, o que a faz sentir-se velha – porém não sábia. São cinco horas da tarde, em uma avenida do centro da cidade e ela pensa em todas as canções do Chico que vão para o lixo da memória contida. Evitará espelhos, para não ver os olhos claros nos quais não se pode confiar. Esquecerá todas as crises e conversas existencialistas que faziam deles meros russos literatos do pós-guerra. São cinco horas e ela está na livraria, tentando decidir se compra ou não aquele livro muito caro sobre a Segunda Grande Guerra que ele tanto quer e que ela pensa agora em comprar, apesar dos pesares. Apesar dele, amanhã há de ser outro dia. Relembra que agora ele tem quem lhe dê o tal livro de presente – alguém que com ele estará em todos os momentos nos quais ela imagina (em vão) que fará falta. Não sabe por que quer tanto que alguém lhe sinta a ausência (logo todos sentirão). Mas imagina que essa despedida, baseada na obra-prima do desprendimento é mais válida e menos dolorosa do que a perspectiva de uma formatura infeliz. Desiste do livro, a data de aniversário do escorpiano já passou. Compra um punhal que mandara fazer. São cinco horas. São seis da tarde. Sai do shopping center e atravessa a rua – mas morreu na contramão (porque era sábado), atrapalhando o público em sua arte decadente, em pleno tráfego.

“Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas da Avenida Central.”
:: Panis et Circenses – Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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11 respostas em “À pessoa (ausente) na sala de jantar

  1. Moça,
    Nietzsche já disse que é preciso escrever com sangue. Você escreve, por isso gosto daqui.
    Engraçado que este trecho, justamente, é o que mais gosto de Panis et circenses.
    um beijo!

  2. é sem dúvida o trecho mais interessante da música q conheço na voz de “Os Mutantes”: é que as pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer.

    de uma frase, um belo tecido.

  3. Acho que nunca consegui matar um amor… Eles morrem por si só, no esquecimento…

    Adoro teus contos, tuas crônicas e todo esse poetizar que está sempre presente em tuas palavras.

    =*

  4. Não sei mais o que falar dos teus textos. Menina, você me surpreende. Arrasou!

  5. No final, acho a morte uma ação figurada, porque talvez a renúnica insere um pouco dessa descontinuação da vida. Diante do amor? Amor vazio, sem mesmo ter o que não pode conter, ou não é lhe dado. Renunciar é a escolha para quem quer morrer, atropelada (ou por suicídio) na alma. Talvez porque não há mais escolhas, que não sejam suportar a própria dor dela mesma. Não é como encarar o espelho, mas estar na mesma pele todos os dias, sem poder aguentar ou mensurar o nível de emoção que o coração apetece.

    A pior morte é quando ainda precisamos estar vivos . Pra mim essa é a máxima fundamental quando não há mais o que necessitamos ou mesmo nem julgamos merecedores. Tudo isso é fruto de egocentrismo, ou mesmo egoísmo. Não sei como reverter isso. Nem sempre é bom sofrer por amor. Além do mais não acho que se defina assim. Só se sofre por algo que não tem e não por ter. No fundo sofremos pelo não amor.

    Bem, ótima crônica.

    ps: Ô Daniele, quanto aos elogios que você deixou no meu blog, me deixaram bastante lisonjeado. Mas notei certo exagero. Eu tenho defeitos viu. O mundo virtual esconde muito deles, mas eu os tenho. E não são poucos. Achei graça o fato de tu dizer gostar dos meus defeitos, sem mesmo julgar conhecer um (risos). Mas falando sério, fico feliz que eu te cative de alguma forma, e seja uma pessoa querida pra ti. E muito disso é reflexo do quanto gosto de ti também. Você apesar de tantas coisas, tem muitas virtudes, das quais nem acredita ter. Você é especial! Cativa também. Te adoro! Beijos!

  6. O segundo trecho virou favorito. E essa música é uma favorita também!
    beijos

  7. Eu não sou boa em matar amores, eu não tenho essa coragem sabe? Prefiro deixar que ele morra sozinho, com o tempo.
    Vê-lo definhar pode até ser meio cruel, mas é o único jeito que vejo.
    Adorei, levei um tempo para conseguir associar cada trecho, mas no fim entendi.

    Beeijos.

  8. Heey flor!
    Ameei o seu comentário, vim avisar que tem post novo!
    Espero que não demore para atualizar aqui denovo, nesse post eu já dei meu parecer ;)

    Beeijos.

  9. nossa, nina. é maravilhoso. o melhor que vc já escreveu. parabéns. realmente gostei bastante. de todas as referências também.

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