Conto para Jane Austen

É a continuação de Conto para Simone de Beauvoir.

“A perda da virtude numa mulher é irremissível. Que um só passo falso acarreta uma série de desgraças sem fim e que a reputação não é menos frágil do que a beleza. Que, para uma mulher, a cautela nunca é demais em relação a pessoas do sexo oposto, especialmente as que não merecem a sua confiança.”
:: Do livro Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

Anne Hathaway e James McAvoy em cena do filme Amor e Inocência, baseado na história da escritora inglesa Jane Austen.

Talvez o motivo real fosse a indiferença dele. Talvez não. Entretanto, as circunstâncias a levaram (mas não necessariamente forçaram-na) a procurar outros corpos e rostos onde pudesse depositar sua solidão – e repousar ali, na sensação ilusória de que era amada. Em seu trabalho, foi fácil. Ia de manhã cedo para o hospital desde meados daquele ano – o que logo despertou a atenção de alguns médicos. Um a convidou para sair – e ela aceitou, sem se importar com o acessório matrimonial que lhe adornava a mão direita. Não se surpreendeu de, no carro, a caminho do motel, saber o quanto é bela a sua esposa, que já esperava um segundo filho – e o quanto sua filha maior era estimada e teimosa – como todas as crianças deste século costumam ser. Era engraçado o médico que só a vira uma única vez, mas que pareceu o suficiente para interessar-se. Ele se esforçava em aparentar-se mais jovem aos olhos dela. Mascava chicletes, bebia e se drogava com a desculpa de “fugir da realidade”. Comportava-se feito criança, pois, na saída do local, insistiu que fossem “almoçar” no drive-thru do Mc Donald’s.
Havia um outro, um dos sócios do hospital. Quando se conheceram, ele fez questão de expressar severidade como quem dizia: “mantenha distância”. Perigo. Não permitia que adentrasse o seu consultório, sequer para levar as fichas dos pacientes. Ela foi submissa, como não poderia deixar de ser. Entretanto, passado meses, ele decidiu olhar para ela. Passou a chamá-la na sala com determinada freqüência – e insistiu em um almoço para conversarem e “se conhecerem melhor”. Ela foi atraída pelo par de olhos claros, cuja tonalidade azul-celeste era insignificante – entretanto, aquele brilho… Aquele brilho era peculiar. Ele não olhava assim para todo mundo. E ela sabia. E ela queria sentir aquele olhar a incomodá-la. E o incômodo permaneceu. Ele a levou para um restaurante em que nunca havia estado, acreditando que ali existia uma belíssima vista para a baía. Enganou-se. Mas ele a fez perder a timidez inicial, oferecendo-lhe um pouco de cuba-libre – ela, que nunca havia colocado uma dose sequer de álcool na boca e que, embora dígna de sabor, sentiu muito forte a bebida. Naquela tarde, ele a levou para ver o mar, de qualquer forma. Como o esperado, declarou-se. Traiu a esposa, mas pareceu ter sido a primeira vez que fazia isso. Não estava familiarizado com motéis, era nítido. Mas a tratou de uma maneira amigável e solidária. Ela não teve do que reclamar.
Julga-se apaixonada por um outro que chegou ao ambulatório em menos de um mês. Ambos se conquistaram mutuamente, através da simpatia dela e da sensibilidade dele. Conversam como velhos amigos. Mas são suficientemente conscientes de que a amizade vale mais à pena do que as caronas que ele constantemente oferece, e os momentos de constrangimento diante dos sorrisos e olhares – desencadeadores fáceis de segundas intenções. Ele também usa aliança. E ela pensa que talvez deva bastar de homens casados, por ora. Três semanas antes, encontrara um representante farmacêutico lendo Orgulho e Preconceito. Pensou que um homem de verdade é aquele que aprecia os sentimentos mais ternos que Jane Austen soubera colocar em cada palavra. O resto, sem dúvida, é Mr. Darcy – homens orgulhosos e de boa fortuna que pensam que o mundo costuma girar ao seu redor e a favor de suas pretensões. Não muito diferente das atitudes de todos os homens com os quais ela se envolveu. Eles telefonam com freqüência para marcar encontros furtivos. Caso ela não esteja disponível a atender, também não retorna para a ligação perdida. Não corre atrás de ninguém. Não vale à pena se despedir de nenhum amante. Desprendimento é absolutamente necessário. Entretanto, se arrisca a telefonar para o primeiro de todos, toda semana, porque daquele não conseguirá desprender-se e sabe disso. A ligação é mais forte, deixou marcas e cicatrizes.
Ainda pensa, em sua inocência de menina, que, um dia, poderá viver um romance como aqueles descritos por Jane Austen. E, quando chegar à hora certa, estará preparada e, não obstante, consciente de que tal oportunidade não se deve deixar abandonar, cara Miss Elliot.

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16 respostas em “Conto para Jane Austen

  1. Minha mais linda blogueira…

    Me corrija se eu estiver errada, mas creio que entre contos, voce deixa um pouquinho da história da sua vida. Quem for esperto, junte os pedaços.
    Alias não me corrija, tu não precisa disso. Cuide apenas para que nesse belo rosto, esteja sempre um sorriso marcado.

  2. Busca incessante e dolorosa por algo ou alguém que seja tão doce quanto biscoitos feitos com carinho e que aqueça tanto quanto uma lareira no inverno.O pior de tudo é quando voce encontra esse alguém mas não tem o mesmo efeito sobre esse tal alguém.No fim das contas, procurando a redenção você se fode mais do que fazendo qualquer outra coisa.Talvez a busca da redenção seja o próprio proceso de redenção.Quanta besteira eu disse/digo.

  3. Oláa queridissima, amo seus escriitos…E adoro sempre que me viisita e deixa láa algumas poucas palavras tuas…
    Te adicionei no Orkut, e espero que me aceite para mantermos contato.

    Abraço poético,

    Jú ^^

  4. Lindo conto, Nina.
    Realmente nao conseguimos nos desprender, por mais que tentemos.

    Beijos!

  5. Sempre sinto uma pitada de você … sinto q a personagem é você! ;D Kiss

  6. “Abaixo aos puritanos”
    E aos românticos também…

    Não são românticas, as mulheres. Não é nenhuma, embora o digam. São algo que não têm a coragem ou poder para dizer e que ninguém pode, ainda exprimir, algo maior. Generalizo por ver, em tantos textos de autoras distintas, a expressão da “alma” feminina em destaque… Por mais que se diferenciem pelo tema ou pelas opiniões, são muito próximos.

    Ou não, talvez seja só “orgulho (machista) e preconceito” meu, sabe lá.

    Acho confuso; fosse esse um texto intimista, diria-nos porque ela age assim… Não acho que isso à complete, à satisfaça ou a deixe feliz. Faz pensar… Como um filme francês (: .

    abraço,

  7. Sempre me encanto com o que você escreve! E o blog ficou lindo, lindo, lindo! Essa nova formatação ficou bem mais gostosa de ler (: Beijos :*

  8. Ah, tem gente que precisa se sentir amada, que não suporta a solidão! Amei o post, super lindo e envolvente.
    Adoro a Jane Austen!

    Beijos

  9. Ah, cara moça do conto, rezo para que tu conheças um amor que te ame com loucura e paixão ardente, para que tu não percas tempos em braços alheios, braços de outras.
    Que tu ames e vivas de amor, de um amor todo teu. Só teu. E dele, do teu amado.

    Um abraço.
    Amo teus contos.
    Amo Jane Austen.

  10. Nina querida, mais uma parte maravilhosa da história! Torço de verdade para que vire livro!
    beijos

  11. Ando repousando minha solidão por aí. Não me importo, nem sei até que ponto desejo romances tórridos. E confesso viver sendo superficial.

  12. Querida Nina ^.^
    A verdade é que você não escreve só para ti e sim
    para mim e para todos, a relidade das tuas palavras são realmente minhas falas mudas. E é certo que como você eu também ainda procuro corpos para esconder-me na solidão e mesmo assim, não sei por quê não perdemos a esperança de uma breve felicidade.
    Beijos. mil…

  13. Pingback: Conto para O’Doherty* – Primeira Parte | sobre fatalismos

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