A Morada do Ser*

“-Vai embora por quê?
-Você agora existe. Infelizmente.
-Que foi que eu fiz de errado?
-Passou a ser.”
::De Conto Barroco ou Unidade Tripartita, de Osman Lins, presente no livro Nove, Novena.

Aqui jazem os quatro anos últimos que sobreviverão como poeira fina no que se pode chamar de memória. Aqui jaz a moradia e a razão do ser.
Lembro-me de quando chegamos, sem noção alguma do novo curso, sem saber que éramos a primeira turma, sem ter fé de que sobreviveríamos até o quarto ano, sem ter certeza sobre gostar ou detestar – ausentes de conhecimento, enfim. Somos e fomos cobaias – eis a piada que ainda persiste em nosso círculo.
Não poderia jamais imaginar que viveria o primeiro amor; que me descobriria tão ranzinza e mal-humorada; que o tédio jamais espantaria a solidão (exceto na presença de bons amigos); que dois professores de História me incentivariam ainda mais na persistência de cursar tal faculdade; que as horas passam depressa em se tratando do turno matutino, mas que de tarde faz frio com tanto vento e o tempo demora a passar. Não esperávamos saber que havia um museu no colégio, um aquário embaixo da escada da biblioteca, um Salão Nobre vermelho e marrom com pinturas ilustres dos Mestres (que nos lembra Hogwarts, de Harry Potter), uma antiga quadra olímpica inexistente com as ervas-daninhas que se amontoaram em cima.
Dos professores de Matemática – maravilhosamente humorados e divertidos, do professor tarado de natação, da senhora fechada de Língua Portuguesa, da atual diretora adorável, do antigo e promissor diretor, da bibliotecária gentil e perspicaz, dos livros emprestados, dos filmes comentados, dos artigos de papelaria que se perderam entre cadernos e mochilas, das “tias” que tomam conta das cadernetas escolares, dos professores que nada explicam nem ensinam, dos que se aposentaram, das aulas vagas (muitas foram), dos passeios aos museus da cidade, dos projetos difíceis, dos fáceis, dos cartazes gremistas, dos discursos, do lanche na cantina, da resenha na arquibancada, dos campeonatos esportivos, das festas e festivais, da incompreensão dos adultos, da cumplicidade juvenil, dos antagonismos, das brigas diárias, da perda de fôlego ao gargalhar de um acontecimento, dos namoros na escadaria (mas desses não posso falar, por não ter comparecido, confesso).
Por todas as amizades conquistadas, momentaneamente e aparentemente perdidas e novamente conquistadas. Pelos largos sorrisos espalhafatosos e as lágrimas tímidas de ilusória humilhação. Pelo que ouvimos de praxe, por tudo o que não queríamos dizer. Pelo que dissemos, sem nos arrepender. Pelo que faltou ter sido dito, com medo de ferir o outro. Por qualquer verdade absoluta que nos tenha faltado. Pelas máscaras utilizadas em busca de identificação (isto é para uma amiga). Pelos amores não-declarados por ausência de oportunidade, por não ser o tempo certo (isto vai para dois amigos). Pelos olhos brilhando, pelo pensamento vago, por todas as crises existencialistas, recheadas de casos sem solução, pelas convicções, pela rebeldia com ou sem causa, pelas constantes mudanças de estado de espírito (e ser jovem talvez seja isso).
Penso nas águas de março que, ano que vem, fecharão o verão sem abrir os cadernos com aroma de morango artificial, característica-mor no que há de referência para qualquer ano letivo que se inicie. Este ano é o último de todos aqueles que foram e dos quais sentirei falta extrema, mesmo que atualmente minta que não, por orgulho bobo de quem tenta se fortalecer, ausente de sentimentalismos. É impossível esquecer toda uma fase de aprendizagem, amores a amizades vãs (raríssimas serão eternas). Quantos de nós alcançaremos nossos sonhos no futuro próximo? Serei eu escritora, farei uma faculdade de História? Será que aquela será psicóloga? E sua amiga seguirá de fato na área de Informática, que nos fez quebrar a cabeça nos últimos quatro anos? A outra já se decidiu por Direito ou Medicina? O rapaz que nunca responde as nossas provocações continuará a trabalhar em um museu? Quem casará cedo, quem nunca o fará; quem terá filhos, quem irá escolher adotar; quem viajará o mundo em busca de novas experiências, quem ficará aqui, predestinado às próprias origens? Quais veremos? Quais desaparecerão? Quem se tornará figura pública, quem cairá no anonimato; quantas tristezas, alegrias, sonhos, pessoas, momentos e anseios compartilharemos mutuamente ou separadamente daqui por diante? São perguntas inúmeras para respostas poucas e vagas, praticamente inexistentes. Nem mesmo do meu próprio futuro tenho certeza e – creio -, prefiro que tudo fique dessa forma. O inesperado ainda é necessário e toda incerteza é válida no caminho que traçamos para nós mesmos. Só dói porque passou a existir – a saudade. Só dói porque passou a ser.

 

*Esta é a versão original do meu discurso de formatura. Serei a oradora da primeira turma técnica de Informática. Fiz um esboço desse discurso – que é este -, porém o definitivo ainda sairá antes do dia oito de janeiro, quando acontecerá a solenidade. A versão para a formatura também publicarei aqui, em breve.

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11 respostas em “A Morada do Ser*

  1. é muita coisa, Nina! e é tudo tão empolgante. ainda mais agora no final. qd vc relembra tudo. e vê um mundo novo e bem diferente pela frente. e você não sabe muito bem como vai ser, mas sabe que vai ser. belo discurso. e tudo de bom =)

  2. Ei Nina!
    Acho que foi um dos discursos de formaturas mais lindos que já vi!
    Amei a parte das águas de março =]
    Desejo muito sucesso para você na nova fase que vai começar!
    Beijos

  3. “Penso nas águas de março que, ano que vem, fecharão o verão sem abrir os cadernos”
    Não precisaria dizer mais nada, nem uma linha sequer. Mas disse e disse bem dito. Passo pela mesma ausência mas, feliz ou infelizmente, sem festa de solenidade. Estou silenciosa e pensativa agora. Outra hora eu termino o trabalho, agora acho que vou lembrar e chorar até dormir.

    Beijos.

  4. Há muito tempo não visitava aqui,adorei esse texto.
    E este trecho do começo me deixou triste,estranho.

  5. Ah, que discurso lindo. Me deu uma saudade da minha formatura, que eu escrevi i discurso, mas não consegui ler de tanta emoção. Bate uma saudade, um aperto, né? Mas pelo menos a lembrança você conseguiu reunir de uma forma mágica :)
    Beijos.

  6. Querida Nina eu fico agredecido mesmo que por poucos anos estar ao teu lado, confesso que aprendi muito com você e posso pela primeira vez agredecer a vida por você existir.
    mil beijos
    J’ taime

  7. Oi, Nina!
    Que discurso lindo! Me faltam até palavras pra comentar um texto tão bonito. Acho que nem vou perder meu tempo, por que né?
    Tenho certeza que emocionará a todos os seus colegas. :D

    Quero ver a versão final, hein? Se bem que essa já está linda!

    Beijos!

  8. Está lindo o texto Nina. Cheio de expectativa, que é talvez, de todos os sentimentos, aquilo que mais nos impregna quando estamos prestes a deixar a casca do ovo, rumo a outra incubadora – nós que estamos sempre e eternamente nos preparando para um grande acontecimento e esquecemos que o maior deles é a vida que acontece enquanto estamos distraídos ao longo do caminho.

    Beijo grande menina, Ana

  9. Sua turma tem uma sorte gigante em te ter como oradora. Discurso belíssimo! Gostei especialmente do final: “Só dói porque passou a existir – a saudade. Só dói porque passou a ser”. Lindo!

    Beijo :*

  10. Pelo que eu li… vai ser emocionante!
    Como sempre, você escrevendo majestosamente! Kiss e bom final de ano!
    Parabéns pela graduação!

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