Para um Amor-Bethânia

(Um amor-Bethânia dividido e dedicado para Antonio Carlos, André e Alessandro, respectivamente).

O primeiro sintoma da saudade surgiu quando premeditei que havia lhe perdido para um mal constante que foi a minha ausência de tempo. Por toda a noite esperei ansiosa, sem saber que lá estava o tempo todo, habitando, entretanto, outro aposento. Somente mais tarde soubera que havia acabado de sair – e tentei alcançá-lo, em vão, no caminho entre os carros estacionados – vítimas algozes da noite vazia.
Senti um aperto dolorido, ali, parada, sem nada poder fazer. E tive aquela sensação francesa que me fez lembrar do último pôr-do-sol. No dia em que você foi embora, também eu fiquei sentindo saudade do que não foi. Lembrei até do que não vivi ao pensar em nós dois.

***

Dia desses, encontrei você na rua. Cabelo ao vento, gente jovem reunida. Deviam ser teus alunos. Na parede da memória, essa lembrança eu guardo. E dói demais. Parada, observando, você acabou por me notar. Sorriu e veio até mim. Quem mandou me olhar assim? Não pediu minha permissão. Não pude evitar um descompasso. Tirou o meu ar, fiquei sem chão. Ali mesmo, na calçada, conversamos amenidades. Seus ídolos são os mesmos que os meus. E as aparências não enganam. Cada gesto seu era um convite ausente de cerimônias. E falamos sobre a música. Todo tipo de música. Falei da orquestra e do coral. Do teste que não fiz. Da voz rouca dos versos que não cantei. Você provocou tempestades solares no meu coração quando me perguntou o motivo. Isso já tenho na ponta da língua. Mas a resposta é que não tenho tempo. Cronos não me foi solidário. Atena e Afrodite me abençoaram com a juventude e a sabedoria eterna, porém Cronos não me permite desfrutar de tal presente. Estou longe de ser fada do bosque há quase seis anos. E pensar que era nova demais quando comecei. Agora, apesar de ainda estar jovem, não tenho quinze anos e todo o tempo e disposição do mundo para pertencer a um coral. Ano que vem, você sabe, ficarei como efetiva onde trabalho. Você diz que tenho toda uma vida pela frente. E penso no ano que termina. E penso que, desde aquele distante tempo em que fui musicista, tudo me era preparado para o fim. Eu sempre aprendi a lidar com o fim. E não vejo drama algum nisso.

***

Quando conheci você, não passava de mais uma na platéia. Para cada espetáculo, existe uma surpresa. Fui assistir ao concerto, prestigiando também os meus amigos do coral. Quando você adentrou o palco e se colocou diante da harpa, creio, foi amor à primeira vista. Não um amor levianamente descompassado, porém, de certa forma, a sua postura e o seu respeito diante do instrumento foram o primórdio de minha atração. Ouvi canto de sereias gregas e não sabia de onde viam. Senti-me como Ulisses, traída pela audição.
Ao término, permiti-me o agrado em devaneio de lhe prestar meu agradecimento, mesmo sem te conhecer. “Mas qual é o seu nome?”, você perguntou. Quando respondi, você retribuiu: “Agora já nos conhecemos”.
E em nada fiquei surpresa quando meu amigo (perdoe-lhe a indiscrição), no dia do concerto de Natal, abordou-lhe de maneira insensata pedindo contato, afirmando que havia alguém que muito gostaria de conhecê-lo. Engraçado como você cedeu, cordial. Ainda aconselhou-o: “Diga a ela para telefonar mesmo”.
Na mesma noite, fomos novamente apresentados e notei que você já não se recordava da primeira ocasião em que havia me visto. Não faz mal algum. Eu não espero que as pessoas tenham a obrigação de se lembrarem de um rosto ou mesmo de um nome. Você vestia preto, como da primeira vez que o vi, como toda a orquestra estava trajando e o meu vestido simples era da mesma cor. Quando a música terminou, você subira ao palco para a próxima, e eu lhe observei, como não poderia deixar de fazer.

***

Penso nas conversas que nunca tivemos – e que só o futuro dirá. Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita. Chego tarde da noite em casa, para acordar cedo no dia seguinte. Alimento-me mal, esqueço as mais simples situações, recuso convites. Tenho como pretensões para o ano que estar por vir a arte de sorrir mais com os olhos, sem exigir muito de mim, para que a sobrecarga mental não me seja ainda maior. Talvez nunca mais queira te ver. Talvez o veja na rua, e me reconheça em você como uma breve conhecida. Talvez eu esteja desejando que você me ponha na frente de sua harpa e obrigue-me a tentar tocá-la. Você me guiaria, obviamente. E iríamos rir com os meus erros de iniciante, enquanto você seguraria minha mão, fazendo-me afagar o instrumento. E, em pé, atrás de mim, passaria os lábios pelos meus cabelos soltos para que eu tivesse a incômoda e maravilhosa sensação de estar sendo desejada. Provavelmente nos beijaríamos no momento em que eu virasse a face, permitindo que os cachos da tua vasta cabeleira acabassem por entrelaçar-se em meus dedos. Que mistério deverá haver debaixo dos caracóis dos teus cabelos? Desejaremos ainda, como precipitam todos os jovens de coração puro, que este amor seja eterno enquanto dure. Não me deixe só, que eu tenho medo do inseguro. É verão. Um ano termina, outro se aproxima. Corra e olhe para o céu, faça um pedido, afinal, quem sabe o que se aproxima? Só quero que pinte um amor-Bethânia. Como aquele que nunca tive em Tel-aviv, mas que seja perto do mar, em composição cubista, longe da cruz…

“O tempo é sucessão, e esta é mudança.
Por isso, a eternidade mexe tanto
Com os calendários da paixão.”
:: Do livro Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov.

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24 respostas em “Para um Amor-Bethânia

  1. Como dito por Elizabeth ao Sr Darcy:
    – Tão cedo!
    É muito bom vir aqui e ler!!!
    Parabéns pela sua habilidade, acredite em mim, são excelentes textos.

  2. HAHAHA, ri muito. Elizabeth Bennet te visitando, Nina! Tás podendo, hein? :D
    Querida, que texto lindo. Sinceramente, essas indicações da Anna foram ouro. Como podia eu não conhecer seu blog? Absurdo dos absurdos! :)
    Esses amores escondidos. Nem lembro mais como é. Mas ainda sinto minhas borboletas, coisa que todos os amores têm. Nem sei o que falar sobre ele. Então não vou falar nada.

    Ai, que comentário inútil. Sempre fico assim quando leio texto muito bons, rs.

    Bj!

  3. Oii
    Sempre passo aqui para ver se tem novas postagens.
    Me identifiquei como Elizabeth Bennet por ser uma grande adimiradora dos livros de Jane Austen.
    Confesso que já assisti muitas vezes o filme ORGULHO E PRECONCEITO!!!

    Mais uma vez, parabéns pelo texto!!!

  4. Cara Lizzy.
    Também vivo assintindo Orgulho e Preconceito. E, para todos os efeitos, seja bem-vinda.
    Apareça sempre que quiser.
    Um beijo.

  5. O texto me fez lembrar uma pessoa que já foi (ou talvez ainda seja) muito importante…
    É difícil e ao mesmo tempo gostoso quando o amor torna-se assim, de alguma forma proibida mas cheio de admiração e carinho.
    Você o descreve de uma forma que todos tem vontade de conhecer, parece ser uma boa pessoa.

    Gostei do blog!
    Beijo!

  6. Sabe o que é mais legal nos seus textos? Não é só aquela narrativa ‘blá blá blá aconteceu isso, daí Fulana falou isso” ou mesmo descrição de sensação… Seu texto é A sensação, sabe? Bate na gente como se fosse um tapa na cara, e isso eu acho que poucas pessoas ainda conhecem. Narração, infelizmente, se tornou algo muito mecânico. Todo mundo acha que só dizer a ordem dos fatos já é narrar. Ainda bem que você não caiu nesse erro =)
    Beijos.

  7. Sempre quis saber quem é essa Elizabeth Bennet, ela de vez em quando aparece lá por minhas bandas, fico muito curiosa.
    Mas sobre o texto, como sempre ótimo e lindo. Sempre digo que sou muito apaixonada pela forma como você mescla trechos de música, né? Digo tanto que você deve me achar reduntante e pouco original, mas o que fazer? I can’t help it.
    Beijos.

  8. Amei o texto. Bem a sua cara.
    Até que enfim está lendo as crônicas de Nárnia.
    Beijo e saudades.

  9. Você é uma escritora tão admirável que sempre fico sem palavras nas minhas visitas, juro. Lindo, lindo, lindo esse texto! Ótimo fim de ano pra você, Nina :*

  10. O último oarágrafo é o mais lindo e excitante!
    Nina, continue sonhando e escrevendo. Continue crescendo e evoluindo.
    Adoro seus textos.
    Tudo de bom.
    Happy Holidays!
    Kiss

  11. A Taryne disse tudo, eu leio seus textos, acho tudo tão sublime e na hora de comentar eu fico sem palavras para comentar. Mas como sempre, você arrasa na escrita. Adoro visitar o seu blog.

  12. Eu nunca aprendi a lidar com fins. Será que um dia aprendo?
    Teus textos, como sempre, encantadores… Nos fazem viajar por mundos infinitos, nos deliciar com a poesia que mora em cada linha e entrelinha das tuas postagens.
    Amo, sério.

    Beijo.

  13. Viajo com as cartas que tu escreve. É muito talento! Tenha um feliz Natal, querida. Um beijo.

  14. Sempre tão perfeitos seus textos…

    Uma pena ser o último de 2010, mas como sempre estarei aqui em 2011 para prestigiar seus textos e me deliciar com cada palavra aqui escrita…

    Feliz 2011^^
    Jade Follett^^

  15. É incrível como você consegue transpor tantos sentimentos, e os descrevê-los com perfeição. Toda vez que leio passagens de sentimento assim, noto a sutileza que você é capaz de colocar nas palavras, demonstrando talvez a força motriz que existe dentro de si mesma, servindo como o propulsor que dá vida, ainda, ao seu coração.

    Ler você é como viajar, e ainda sim, sentir-se no chão, atado aos mais belos sonhos, delineados pelos sentimentos que tanto ansiamos.

    Não é segredo, e nunca foi. Amo essa tua forma profunda de se dizer nas palavras, mesmo que no fundo você se jogue em roteiros ficcionais, ao menos para mostrar um pouquinho da ternura que paira em ti, ou mesmo da angústia que te assola.

    Não é segredo, minha amiga tão querida. Te amo muito viu! E com certeza você não é pessoa errante pra mim. Para mim você faz muito sentido!

    Feliz natal atrasado, mas um belíssimo ano novo pra ti. E que 2011 te traga muitas alegrias. E que o dia em que iremos nos conhecer pessoalmente continue se aproximando. Pode não ser em um ano, mas também não está a mais de cinco. =)

    Um beijo doce na face!

  16. Ah, Nina! Você sempre me deixa sorrindo, às vezes com lágrimas nos olhos, mas sempre me deixa sorrindo. E esse jeito que você tem de misturar trechos de músicas, é tão lindo… ah! :)
    Sinto muitas saudades do que não vivi, sempre me pego com essas saudades… a vida é uma coisinha meio complicada, não é mesmo? E os fins, ah, os fins… acho que nunca me acostumarei com eles.
    Ainda bem que, mesmo quando eu não apareço, você sempre está aqui, me encantando!

    Kissus, e que 2011 seja um ano incrível.

  17. Nina,
    Surpresa boa de dezembro te ler, depois de ter te visto mocinha, tocando flauta transversal. As melodias suaves se transformaram em textos que tocam e permanecem.
    Deixo aqui algumas linhas, filhas de um dia passado, de quando não sei…
    Bjos!
    Arnaldo

    Entrelinhas

    Não vai ter despedida de portão, nem cartão de natal perfumado
    Nem poesia de lua cheia, nem olhares furtivos
    Não vai ter Saramago, nem Garcia, nem Clarice
    Sem torpedos, sem rosas surpresas
    E ainda assim quando ela chegar, será como as tardes de primavera
    Não vai ter sobressalto, não será como o fogo, nem expectativa, nem as declarações
    Nem serenatas, nem poemas, nem canções
    E ainda assim quando ele chegar será como que para dizer tudo e apenas o necessário
    Ele será assim, homem, ela será assim, mulher
    Admirados nas pequenas coisas das suas ainda crianças
    Aproximados pelas grandes idéias de suas brilhantezas
    Ela nunca não, ele sempre sim
    Não vai ter Lago dos Cisnes
    Insensatez, bossa nova, Roberto
    Adultos, não farão promessas
    Ele nunca sim, ela sempre não
    Quando se depararem com o espanto de um domingo
    Passarinho, jardim, lua e borboleta
    Serão apenas o que sempre são
    E tudo certo, tudo certo, tudo certo
    Farão de um tudo, consertarão os mundos
    De mãos dadas, de idéias-filhas das conversas imensas
    Pelos moinhos de vento que ela sempre quis
    Pela coragem das coisas que ele às vezes diz
    Ele, pra sempre. Ela por todo o tempo da vida
    Vida de sins e nãos e quiçás

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