Anti-monotonia

“Eu quero uma licença de dormir,
Perdão pra descansar horas a fio,
Sem ao menos sonhar
A leve palha de um pequeno sonho
Quero o que antes da vida
Foi o profundo sono das espécies,
A graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.”
::Do poema Exausto, de Adélia Prado, presente no livro Bagagem.

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo com sabor de fruta mordida. Menos tempo para anseios e expectativas, entretanto, mais vigor e capacidade de lidar com o que for ritmo de acasos, pelo inferno e céu de todo dia. Tudo se fora na antevéspera do Ano-Novo: estágio, colégio, amigos dos quatro anos últimos aos quais me despedi como se fosse morrer no instante seguinte (há algum remédio que me dê alegria?). O que me consola (da mesma maneira que me aniquila) é que essa tortura ainda vai perdurar até a primeira semana de janeiro – e um pouco depois, quando precisarei devolver a beca de minha formatura para a loja de aluguel de trajes supostamente finos e de gosto duvidoso. Meu professor de matemática que também é meu terceiro ou quarto amante está viajando com a família em suas férias eternas, status quo de quem está aposentado. Estou feliz com ele e espero humildemente que essa felicidade se prolongue. Ele é um dos raríssimos homens que tem a função imperial de saber me definir. Ele tem sessenta anos e ainda lhe é assustador que eu só tenha nascido em menos de duas décadas. Porém, isso não nos aflige. Encontramo-nos frequentemente na livraria que abriu recentemente em nossa cidade. É um lugar-comum simbólico. Ele gosta muito de conversar sobre a esposa, histórias que me agradam ouvir, apesar de eu me sentir intrusa de uma vida a dois à qual não pertenço. Casaram-se seis meses depois de terem se conhecido no ano em que ele entrou no colégio do qual estou saindo agora formada. Ele tinha vinte e quatro anos. Ela, dezesseis. Eram professor e aluna. Ele vê muito dela em mim e, talvez por isso, me procure. Eu gosto de seus olhos pequenos, enrugados, da face levemente corada e de seus cabelos brancos. Também agradam-me suas mãos macias e o cheiro da tua pele. Mas isso não é algo tão especial, visto que já se tornou comum e eficaz entre todos os homens que tive. O que há de especial no professor? O beijo. Algo entre repulsivo e encantador – apenas porque ultrapassamos o limite fronteiriço entre o correto e o inimaginável. Eu poderia passar horas a beijá-lo, mas perco o meu tempo imaginando como seria passar horas a beijá-lo, porque, afinal, ele está viajando com a família, já disse, e nós ainda não dormimos juntos, imagine nós na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva. Boca, nuca, mão – e a tua mente não. O bom da vida é não saber decifrar-te, mas devora-me enquanto eu tento. Ser teu pão, ser tua comida, tua razão e veneno contra a melancolia.
Não houve transição entre o ano que passou e este que veio. Encontramo-nos na quinta-feira, última. Véspera da véspera. No mesmo dia, despedi-me de meu estágio. No mesmo dia, apresentei a Obra de Da Vinci como nova usurpadora do meu cargo. No mesmo dia, houvera amigo-secreto atrasado na empresa. No mesmo dia, fizeram-me festa com agrados e agradecimentos. No dia anterior, derramei todas as lágrimas prévias da saudade que sinto agora – e do medo de começar o ano sem emprego, veja minha situação.
Já sou artista do nosso convívio. Uma espécie de gueixa, um mistério que ele mesmo traduz na poesia que a gente não vive. Quando o esperei, sentada na escada a ler o Saramago que ele me presenteara pouco antes do Natal, estava ele mesmo a observar-me, de soslaio, minha nuca transparente com os cabelos presos em um coque, sob o charme sutil de alguns fios soltos à mostra. Ele julgou que a cena, o cenário e a protagonista da ação teatral eram encantadores – e dissera-me isto depois. Meu corpo inteiro feito um furacão enquanto conversamos amenidades e qual a mentira que eu inventara, dessa vez, para ter conseguido sair de casa, em plena noite, traindo a confiança de meus pais enquanto você trai muito mais do que os sentimentos de e para com a sua esposa.
Se eu achar a tua fonte escondida, significará que é amor. Então, por motivos de segurança para ambas as partes, deixaremos aqui nosso caso nada formal. E algum trocado para dar garantia. Você afirma que tenho algo de pureza, deveras inexplicável, inexprimível. Não me vejo tão extraordinária, mas vejo que é você quem se apaixonará em primeira mão. Mais uma razão para que eu o deixe. Eu disse que quero a sorte de um amor tranqüilo com sabor de fruta mordida, todo o amor que houver nessa vida. E sorte é uma virtude destinada a poucos. Para nós, reles mortais, resta algo para transformar o tédio em melodia, uma espécie de veneno anti-monotonia. Nada mais.

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12 respostas em “Anti-monotonia

  1. Olá,
    Estou iniciando um blog hoje e sempre que puder visite o meu espaço. Amei teu blog e virei seguidora. Feliz 2011!
    Beatriz
    Beijos

  2. Nossa, não sei o que dizer. Você tirou meu fôlego com esse seu texto. Não sei até onde vai a fronteira relato/ficção nos seus textos e isso é o que me deixa mais sem fôlego. E destrinchar e jogar ao acaso durante o texto essa música que é tão linda quanto significativa, foi lindo. Você é toda linda, dona Nina.

    Um beijo pra você

  3. Ai. Texto bom, demasiado igual a realidade de alguns mas, bom! :D
    Feliz Ano Novo!
    Que 2011 seja um ano inspirador de outros textos lindos e profundos como os seus.
    Kiss

  4. Que texto!!!
    Foi uma delícia lê-lo.
    Mas, algo que me intriga muito é querer saber se é tudo ficção ou uma realidade!!! Talvez seja a mistura dos dois!!!
    Querida, parabéns pelo texto!

  5. Uau, com a inspiração de Cazuza, todo amor que houver nessa vida, ultrapassa qualquer limte real/fiçção…parabens! Intenso, surreal!

  6. Nina, esse é meu texto favorito daqui e não tenho vergonha de admitir que fui totalmente influenciada pelo amor que sinto por Cazuza – meu poeta – nessa escolha. Adoro o modo como você encaixa trechos de músicas, tinha tudo pra ficar confuso, mas você deixa sutil e nada forçado. Amei, amei, amei. Beijos!

  7. Mais um texto incrível! O último parágrafo em especial tá sensacional! Um beijo.

  8. Amei, já li várias vezes.
    Apesar de ser uma prosa, tem um quê de poesia, como se as palavras dançassem e soassem mais bonitas.
    Ainda não tive a chance de te desejar um ótimo novo ano, Nina, que ele venha dessa forma sem monotonia, pra te alegrar os dias e inspirar lindos textos.
    Beijo!

  9. Fico pasma e encantada como vc escreve bem Nina.
    O novo visual do blog, adorei, encantador. Preciso mudar o meu, mas sou tão ruim nisso e tenho tão pouco tempo virtual.
    Sobre o texto: Fico pensando em como é ser amante de alguém, exige uma cabeça tão aberta, tão livre de ciúmes de possessividade, e eu, tão provinciana.
    Acho que embora eu saiba que isso não existe, não seja iludida e a vida me provou que é coisa de mulherzice, no fundo ainda quero um amor para mim. Que bichinha burra eu sou, que bichinha burra!

  10. Pingback: Retrospectiva literária 2011 « #sobrefatalismos

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