A frágil movimentação dos corpos celestes

Louis Garrel e Léa Seydoux em cena do filme A Bela Junie.

Há, entre nós, uma condição instintiva atribuída ao fato de que somos o que somos na vida um do outro: amantes, nada mais.
Você me dissera isso, não exatamente dessa forma, porém acrescentando que nada tinha a me oferecer, que eu não poderia e nem deveria depender de você. Eu já estava plenamente consciente de que certas “cobranças” não poderiam ser feitas, de ambas as partes. Todavia, eu me conheço. Sei que sou incapaz de cobrar tanto, mas desonro meu próprio orgulho muitas vezes – para ceder demais, algo que tento denominar como uma “atitude altruísta”.
Eu lhe beijei no carro no dia em que você passara todas as notas para a caderneta. Na semana anterior, senti que o havia perdido – quando lhe esperei junto com a turma em frente à sala, enquanto você esteve na coordenação pedagógica. Quando fui avisada, já no fim da noite da sua presença lá desde cedo, corri. Você tinha acabado de sair. Fui depressa ao estacionamento, não o vi. Senti o primeiro aperto no peito, o coração disparado e disparatado – era saudade repentina, precoce e redenção a uma idéia possível: a de que, talvez, eu estivesse apaixonada.
Anos atrás, você era só mais um novo professor no colégio. No primeiro dia de aula, a viu próxima ao portão, conversando com pessoas que deveriam ser seus colegas de classe. Tornou-se professor dela. Conheceram-se melhor. Seis meses foram suficientes para que tivessem a certeza do casamento. Ela tinha dezesseis. Você, vinte e quatro. Daí nasceram quatro filhos. E anos de convivência.
Eu lhe beijei no carro, com medo de que fosse embora, pavor de que não mais o visse. Um certo grau de intimidade entre nós havia crescido. E você retornou aos seus vinte e quatro anos. Havia retornado, desde o início. Um ano antes, estive no turno da noite por um acaso do destino. E parei próxima a uma sala em que você terminara de dar aula. Eu estava distraída quando você se colocou do meu lado e me dissera “boa noite”. Assustou-me. Respondi com um sorriso. Você retribuiu. No ano seguinte, tornei-me sua aluna. Conversávamos até depois das aulas. Você com freqüência me oferecia carona, gentileza que jamais ousei recusar.
Eu lhe beijei no carro, mas não me desculpei. Você passou a convidar-me para sair. Na semana posterior ao beijo, visitamos a livraria nova. Era quase Natal. Você insistiu para que eu escolhesse algum livro. Dançávamos medievalmente sobre o chão de madeira do espaço, nosso estúdio de ballet – onde os corpos se movimentavam solenemente, quando você me dava abertura para um solo, entre uma estante e outra, entre livros que faltavam nas prateleiras. Pouco antes do Ano-Novo, deleitou-me com mais presentes. Você afirma que eu tenho um ar de pureza, um modo de andar especial. E, quando eu o esperei, ansiosa e preocupada com a hora que passava, estava você de pé, atrás de mim, a me observar do alto da escada, com seus pequenos olhos enrugados, atribuindo uma beleza renascentista ao coque que eu fizera no cabelo, afirmando que, fosse Da Vinci ou Michelangelo, faria um quadro ali mesmo.
Eu lhe beijei no carro e acreditei piamente que dali não passaria. Mas de todos os limites, você os ultrapassou. Apaixonou-se por uma aluna, por “querência” dela própria. “Eu fui seduzido”, você afirma. Brinca, diz que tenho trinta e não dezoito anos. Acredita ter encontrado em mim justamente o que mais procura em uma mulher jovem: uma inteligência e uma discrição ímpares, num tom de mistério. Deslumbra-se com a mentira de que eu nunca tivera outros em minha vida – mentira que conto a todos (os outros).
Agimos certo sem querer. Foi só o tempo que errou. Repouso a cabeça sobre o peito do meu professor de quase sessenta anos. Tenho muito a dizer, muito de tudo o que sinto, mas me calo, porque também acredito que não obtive a mesma permissão que você tem para comigo. Há uma sinceridade em mim que é inconfessa, que quer expandir, mas não consegue. Sou guiada pela minha própria recusa e não-aceitação de que, possivelmente, talvez, eu seja amada. Parece-me difícil querer acreditar em seus sentimentos. Vejo a mesma sinceridade que não consigo proferir – talvez eu inveje sua coragem absoluta. Mas o meu corpo nunca mente. Ele próprio responde, sem precisar dizer, correspondendo aos seus movimentos. Eu falo com o olhar e desvio se estou escondendo algo – porque você me define, me afirma e reinventa, como nenhum outro fizera antes. Você têm o direito pleno de saber o que sinto, o que quero de você e de nós dois. Mas sou eu quem não consegue, limitada a esses gestos tão sutis e invisíveis.
Você dorme, todas as noites, com a menina que conhecera anos antes. Ambos têm a certeza do amor um do outro e da eternidade do mesmo, que se prolonga através dos anos que passam. A sua posição diante dos fatos é a mais cômoda possível. Mas a outra sou eu. Sou eu quem espera sem ter notícias suas, sou eu quem o aceita da maneira que me for imposta e que lhe convém, sou eu quem abre mão do que estiver fazendo em prol de nossos furtivos encontros. Também sou eu quem sofre a cada reencontro, a cada despedida e a cada noite só. Sou eu quem carrega os fardos dessa relação, sentimentos que tento esconder para não ferir a criança grande que você é. Sou eu, mãe do abandono da orfandade de mim mesma.
Eu lhe beijei no carro. Certos momentos não têm volta. Muitos instantes não sabem o tempo em que terminam. E pessoas como nós começam sem saber como parar.

“Por mais que eu faça para esconder, meu corpo sempre diz a verdade. Toda, sem nenhuma fragmentação reordenante. Sei por que estou assim, com a forma retorcida como uma vírgula; ou um feto. Fui eu quem me escondi, fechando o peito num espaço pequeno, de estreita perspectiva.”
:: Do livro Na luta (Sem Pedir Licença), de Eliane Maciel.

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10 respostas em “A frágil movimentação dos corpos celestes

  1. Que coisa!!!
    Deve ser difícil ser sempre a que tem que ceder, sempre quem tem que estar contente do jeito que as coisas são!!!
    Mas a cada dia devemos ter uma nova esperança! De que algo melhor está por vir…. ou ficarmos felizes da forma que está, que pode ser a melhor escolha a se fazer!!!

  2. Oi, Nina.
    Jajá eu volto pra ler seu texto. Por enquanto estou passando só pra te avisar que tem meme pra você lá no blog. :)

    Beijão!

  3. queridissima, nem entrei na internet esses dias, por isso demorei de ler seu comentário. ainda estou em SSA (uma semana hoje), acho o máximo nos encontramos. você mora no Barbalho? poderíamos nos encontrar no centro da cidade, ou algum lugar q vc se interessasse. pode me ligar? estou nesse numero: 9282 1630. um beijo, e volto aqui pra saber a resposta rsrs

  4. Esses amores complexos, complicados e sofridos rendem poesia e belos textos. Gosto dessa tua maneira de escrever: misteriosa, sensual e romântica.

    Um abraço.

  5. Agoro esse ator da foto. Só já vi um filme com ele “Os Sonhadores”.
    Histórias entre aluna e professor apesar de que na literatura existem muitas, na realidade é o que mais têm. Num livro que li chamado ‘Desonra” relata isso.

  6. Ai Nina, tive que rir com seu comentário! Vou ver se consigo explicar por aqui a lógica do jogo. É assim. Com o botão direito, colocamos bandeirinhas onde achamos que temos bomba. No meu jogo são 10 bombas, o seu deve ser assim também. Enfim, ao clicar com o esquerdo, aparece um numero, certo? Esse número indica quantas bombas encostam nesse quadrinho com o número. Ou seja, se for 1, um dos quadrados que fica em volta tem uma bomba. Se você achá-la, pode clicar tranquila nos outros porque não vai ter bomba ali.. hahaha, acho que ficou difícil de entender, mas tentei!
    Beijos

  7. Me prendi do inicio ao fim ao texto. Realmente, me encantou profundamente.
    Excelente.
    Beijos.

  8. Nina,

    estou de volta com o blog, agora disposto a engrená-lo. Espero poder contar com vc por lá sempre.

    O sobrefatalismos continua com o charme de sempre, muito receptivo e com textos atraentes à beça.

    Um grande beijo

  9. A imagem de A Bela Junie no post não poderia ser mais oportuna, muito tem a ver com o texto, que está lindo.
    Engraçado, passei muito tempo ansiosa pra ver esse filme e acho que acabei criando expectativas demais, porque quando o assisti não gostei tanto como pensei que gostaria. De todo jeito, sempre bom ver Louis Garrel.
    beijo!

  10. Carambaaa Encontrei esse texto enquanto procurava imagens do filme “la belle personne”. Fiquei estupefata! Parecia que você tinha lido minha vida dos últimos tempos!

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