Razão de Ser

(Mesclam-se aqui relatos daquela noite, lembranças do passado e o discurso definitivo que proferi em minha formatura de Ensino Médio. Dedico a todos aqueles que estiveram comigo em meu período de colegial. Todos. Sem exceção).

Findaram-se os quatro anos últimos. Junto com eles, ocorreu-me uma lição de moral inevitável, tomando como exemplo o fio de Ariadne amarrando seu último nó. Era o desfecho. E só.

Aqui jazem os quatro anos últimos que sobreviverão como poeira fina no que se pode chamar de memória. Aqui jaz a moradia e a razão do ser.
Lembro-me de quando chegamos, sem noção alguma do novo curso, sem saber que éramos a primeira turma, sem ter fé de que sobreviveríamos até o quarto ano, sem ter certeza sobre gostar ou detestar – ausentes de conhecimento, enfim.

Não era ninguém. Limitava-me ao nada de estar sozinha, comigo mesma. Eram momentos ilusoriamente reflexivos, sem motivo aparente que, de fato, não havia. Quando nos conhecemos, eu chamava menos atenção no grupo, consequentemente, não era para mim que seus olhares se dirigiam. A presença dele pouco me importava, não passava de um colega de classe. Obviamente, introduzira-se no grupo com a intenção de conquistar uma de nós. Uma de Nós, em questão, era comprometida – o que, na realidade, não importava em demasia para o triângulo amoroso que se presumira.

Não poderia jamais imaginar que viveria a experiência única que nos leva ao auto-conhecimento, que as provas de amizade verdadeira estariam dando as cartas do destino, que o tédio só espantaria a solidão à base de grandes risadas de contentamento, que as horas passam depressa em se tratando do turno matutino, mas que de tarde faz frio com tanto vento e o tempo demora a passar. Não esperávamos saber que havia um museu no colégio, um aquário embaixo da escada da biblioteca, um Salão Nobre vermelho e marrom com pinturas ilustres dos Mestres, uma antiga quadra olímpica inexistente com as ervas-daninhas que se amontoaram em cima.

Meu Amor Platônico de Outrora tinha uma namorada, mesmo na época em que se encantou por Uma de Nós. Foram ambos justamente, entretanto que me aproximaram da Adolescente Vulgar (e relembramos isso no dia de minha formatura). Ela observava nosso grupo, fazendo troça. Gesticulou como quem procurava briga. Na semana seguinte, porém, vendo-me ler próxima a um dos laboratórios de Informática, falou comigo, perguntou se o best-seller do Dan Brown era bom. Respondi-lhe secamente, afinal, afeição nunca fez parte de minha personalidade inicial. Culpada, pedi que voltasse, perguntando se ela queria emprestado o livro. A partir daí, nascera uma grande amizade.

Dos professores de Matemática – maravilhosamente humorados e divertidos; dos de História, tão dedicados e de tão boa índole; dos de Língua Portuguesa, da atual diretora adorável, da bibliotecária gentil e perspicaz, dos livros emprestados, dos filmes comentados, dos artigos de papelaria que se perderam entre cadernos e mochilas, das “tias” que tomam conta das cadernetas escolares, dos professores que se aposentaram e que permaneceram em nossos corações, das aulas vagas, dos passeios, dos projetos difíceis, dos fáceis, dos cartazes gremistas, dos discursos, do lanche na cantina, da resenha na arquibancada, das fugas de alguma traquinagem, dos campeonatos esportivos, das festas e festivais, da incompreensão dos adultos, da cumplicidade juvenil, dos antagonismos, das brigas diárias, da perda de fôlego ao gargalhar de um acontecimento, e até mesmo dos namoros na escadaria, bem sei que muitos aqui sentirão falta, talvez uma ausência extrema!

Aos poucos, fui montando um desenho imaginário, tracei um perfil do que ele era. As qualidades me pareciam poucas, ao mesmo tempo em que os defeitos muitos se fizeram. Não tinha uma boa opinião, parecia-me infantil. Mas uma troca de olhares fora suficiente para causar confusão. E, aparentemente, apaixonou-se na mesma hora. A perseguição dele para comigo durou um ano. Nesse período, distanciei-me consideravelmente do grupo em que estava sendo acolhida por outro: o dos excluídos socialmente. Tudo que eu esperava dele era uma prova que me fosse suficiente para que estivéssemos juntos Mas a cada vez que eu me convencia um pouco, ele próprio surgia de caso com qualquer outra. Quando se cansou de me procurar, estávamos de férias. Nesse período – ou um pouco antes, talvez -, a ausência dele fora suficiente para que eu me enxergasse apaixonada. Era tarde. E parecia haver apenas uma solução – mudar de turno.

Por todas as amizades conquistadas, momentaneamente e aparentemente perdidas e novamente conquistadas. Pelos largos sorrisos espalhafatosos e as lágrimas tímidas de ilusória humilhação. Pelo que ouvimos de praxe, por tudo o que não queríamos dizer. Pelo que dissemos, sem nos arrepender. Pelo que faltou ter sido dito, com medo de ferir o outro. Por qualquer verdade absoluta que nos tenha faltado. Pelas máscaras utilizadas em busca de identificação. Pelos amores não-declarados por ausência de oportunidade, por não ser o tempo certo. Pelos olhos brilhando, pelo pensamento vago, por todas as crises existencialistas, recheadas de casos sem solução, pelas convicções, pela rebeldia com ou sem causa, pelos suspiros, pelo mau-humor compartilhado, pelas constantes mudanças de estado de espírito (e ser jovem talvez seja isso).

Mesmo estudando pela tarde, não deixava de visitar o turno oposto – na intenção de vê-lo e também de não perder contato com os amigos que conquistei. Fora um longo período de transição entre o segundo e o terceiro ano do colegial. Estar no turno vespertino era como voltar à minha antiga escola. Reencontrei muitas pessoas daquele tempo. À tarde fazia frio, fazia muito vento. Saíamos cedo, não havia tantas aulas. O tédio parecia contagiante. Ainda assim, podiam-se encontrar boas justificativas para continuar a gostar do colégio. O turno em que eu estava tinha um fluxo muito menor de alunos. Não havia barulho no período das aulas. Podíamos estudar à vontade e na base da concentração. Tornei-me amiga das pessoas que havia detestado em todo o ensino fundamental, descobrindo nelas um companheirismo admirável. O Melhor Amigo do Meu Amor Platônico de Outrora fugia de mim, indo estudar no turno da manhã. Pessoas que conheci na antiga escola fizeram o mesmo. Apesar de ter reencontrado tantas pessoas e dos amigos que fiz, sentia-me sozinha. Recomecei algo que havia iniciado aos dez anos de idade. Recomecei a escrever em diário. Não parecia suficiente, entretanto, que eu desabafasse calada, sem ter quem me ouvisse. Por isso aderi este espaço. Devo concluir que recomecei a escrever porque a desilusão amorosa bateu a porta. Mas evoluí tanto na escrita que sinto que devo imensos agradecimentos a quem me causou isso tudo.

Penso nas águas de março que, ano que vem, fecharão o verão sem abrir os cadernos com aroma de chiclete, característica-mor no que há de referência para qualquer ano letivo que se inicie. 2010 foi o último de todos aqueles que foram e dos quais sentiremos falta extrema, mesmo que atualmente estejamos a mentir que não, por orgulho bobo de quem tenta se fortalecer, ausente de sentimentalismos. É impossível esquecer toda uma fase de aprendizagem, amores a amizades vãs e eternas.

Era engraçado como não havia espaço para mágoa. O tempo passara e eu ainda exigia de mim mesma uma paixão que se esvaía a cada dia. Não havia sentido em continuar gostando, tampouco em deixar de fazê-lo. Concluí que, provavelmente, ficaria eternamente presa àquele sentimento – sem poder ficar presa a pessoa que me causava aquele tumor benigno. Olhei em volta. Descobri que poderia amar outros, se quisesse. Assim o fiz. Era diferente de esquecer – como uma resolução que se toma na ilusória intenção de deixar de amar alguém. Foi algo completamente natural, que não havia sido planejado e que, no entanto, dera certo e por sorte. Eu o via a passear com outras tantas e brincava estar ciumenta. Eu queria fazê-lo sorrir, porque o sorriso dele ainda é algo cativante. Havia criado por ele uma afeição familiar, como se fosse meu irmão mais novo que eu tentava proteger de acordo com os meus princípios. Em suma, por ora, acreditava-me culpada de tudo o que havia feito. Mas também essa sensação se dissipou. Amigos estávamos. De bom tamanho estava. O valioso disso tudo era que o mais certo era dar tempo ao tempo, sem ter pressa de acabar.

Que 2011 venha cheio de alegria e tristezas também, pois através delas aprendemos que ser feliz é reconhecer nas dificuldades o valor das pessoas ao nosso redor e o valor que temos para essas pessoas. Que aqueles novos amigos virem velhos amigos e que os velhos continuem sendo velhos e valorizados com o mesmo vigor de uma amizade que se faz eterna. Que amores sejam sempre amores, mesmo que aparentemente impossíveis e que alguns possam dar certo para mostrar ao mundo que a esperança está no simples sentido de ser, estar e existir. Que cada um esteja mais unido com a sua família, havendo desavenças ou não, porque sempre serão eles nosso chão absoluto, quem nos gerou, que nos criou e a quem devemos respeito e consideração. Que a sabedoria seja mãe e guia, que o nosso rumo não se desvie para aquilo que venha a nos fazer mal – que cada um tenha a sensação de respirar felicidade, de ser amor, de estar alegre. Isso é mais do que um desejo, é uma profecia que passará por todos nós.

Pude chegar ao último ano com a minha lista de inimigos aparentemente reduzida. Houve desavenças triviais, do mesmo modo que uma amizade avassaladora se lançara sobre mim. Amizade esta que tento proteger com unhas e dentes porque há motivos sim para que eu o perca. Entretanto, descobri-me tão altruísta quanto egoísta. A descoberta de um empecilho em minha saúde fez-me frágil de comportamento, porém não de mentalidade – tornei-me, em suma, mais calma, mais tranqüila, muito menos desesperada (mesmo com as crises que surgiram) e até a ironizar isso tudo. A vida é, sem dúvida, uma comédia de costumes.

Quantos de nós alcançaremos nossos sonhos no futuro próximo? Serei eu escritora, farei uma faculdade de História? Será que aquela será psicóloga? E sua amiga seguirá de fato na área de Informática, que nos fez quebrar a cabeça nos últimos quatro anos? A outra já se decidiu por Direito ou Medicina? O rapaz que nunca responde as nossas provocações continuará a trabalhar em um museu? Quem casará cedo, quem nunca o fará; quem terá filhos, quem irá escolher adotar; quem viajará o mundo em busca de novas experiências, quem ficará aqui, predestinado às próprias origens? Quais veremos? Quais desaparecerão? Quem se tornará figura pública? Quantas tristezas, alegrias, sonhos, pessoas, momentos e anseios compartilharemos mutuamente ou separadamente daqui por diante? São perguntas inúmeras para respostas poucas e vagas, praticamente inexistentes. Nem mesmo do meu próprio futuro tenho certeza e – creio -, prefiro que tudo fique dessa forma. O inesperado ainda é necessário e toda incerteza é válida no caminho que traçamos para nós mesmos. Só dói porque passou a existir – a saudade. Só dói porque passou a ser.

Dói. O fim de qualquer ciclo sempre dói. Dói, sobretudo pelo futuro incerto que atravessaremos. Esse tatear de mãos no escuro do adiante que nos aguarda. Dói pensar nos amigos que irão se distanciar, mesmo que estejam próximos. Dói o emprego que conseguiremos, a faculdade que talvez façamos, os amores que encontraremos no meio do caminho. Dói também os que deixaremos, para dormir o sono dos justos e sensatos. Vai doer quando sairmos de casa, para retornamos cheios de saudade. Vai doer nos olhos de todos, toda e qualquer despedida. Vai doer quando o meu Amor Platônico de Outrora estiver pensando em mim e eu nele – e pensaremos mutuamente que poderia ter sido de outra forma se, naquela época, fôssemos maduros como somos hoje. Provavelmente, estávamos a pensar nisso durante todo o trajeto em que voltáramos juntos da festa de minha formatura, quando ele me abraçou ao levar-me em casa e nossos olhares tiveram o último encontro como se fosse o primeiro de todos, enquanto a Estrela-da-Manhã brilhava no céu rosa-alaranjado, manhã de domingo, nossos olhos cadavéricos daqueles que não dormiram, anunciando o Sol. Vai doer. E o que me guiará pela escrita será sempre essa saudade eterna, essa vontade de ter preferido o caminho certo ao invés de ter sido difícil com minhas próprias escolhas – e esse agradecimento intenso, ausente de mágoas, que tenho para com ele, por ter me ensinado tanto, por ter me ensinado a ler nas entrelinhas de cada sentimento adotado e aderido à razão da escrita, a razão de ser.

“Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.”
:: Do poema Razão de Ser, de Paulo Leminski.

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7 respostas em “Razão de Ser

  1. Pois é, concordo que finais sejam dolorosos pela incerteza que será o amanhã.
    Mas eis que a vida continua, o tempo corre e nos acostumamos à nova realidade e de quando em quando nos lembraremos do que passou, com um sorriso nos lábios e um aperto de saudade.

    É a vida.

    Beijo, moça.
    Fico feliz em poder te ler.

  2. E de imensa a felicidade e pouca tristeza que lhe digo minha amiga, minha querida Nina que lhe agradeço do fundo do coração
    os momentos que juntos compartilhamos, detesto imaginar a ausência destes tão lembrados momentos, confesso aqui e agora que não foi o acaso que nós levou a estes quatro longos anos e sim a certeza lá no fundo de estava tudo escrito. Poderia escrever em muitas maneiras o quanto lhe sou grato por tudo e por todos . Não vou falar em esperança , você mas do que sabe que ela vive em cada um de nós, pois a nossa maior fortaleza são nossas amizades. E certeza de que o amanhã
    sempre há de chegar.
    São minhas poucas e puras palavras …
    Saudades Mil … ♥

  3. “Que 2011 venha cheio de alegria e tristezas também, pois através delas aprendemos que ser feliz é reconhecer nas dificuldades o valor das pessoas ao nosso redor e o valor que temos para essas pessoas.”

    “Dói. O fim de qualquer ciclo sempre dói. Dói, sobretudo pelo futuro incerto que atravessaremos. Esse tatear de mãos no escuro do adiante que nos aguarda.”

    Nossa você disse tudo.
    Escrevendo lindamente como sempre.

  4. Devemos ver o futuro de uma forma positiva!!!!
    Quem sabe algo melhor aconteça….( não que o que já passou não seja bom!)
    “Cada momento dura o tempo necessário para que se torne inesquecível”

    Lindo seu texto!!!

  5. Esse texto doeu até em mim. Até senti saudades de coisas que não vivi ou de coisas que vivi aparentemente iguais as que outros viveram… enfim. Deu para sentir. Kiss

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