O Estrangeiro

“E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento.”
:: O Estrangeiro – Caetano Veloso.

Quando olhaste bem nos olhos meus, notei-lhe a pele amorenada pelo sol, destacando teus louros cabelos em ondas, não muito curtos, tampouco longos que desciam-lhe a nuca e invandiam-lhe a expressão de surpresa instalada em seu rosto. Jogava capoeira entre os jovens negros que também cantavam e tocavam instrumentos, revelando ali sua trajetória africana e descendente. Teus olhos são de um verde-água esplendoroso e brilhante, como o mar depois do início da tarde de um dia que deixara de ficar nublado para dar lugar a um sol não menos castigante, do tipo comum que ambienta nossa cidade. Teus olhos chamaram-me a atenção. Também tua camisa aberta, o suor que lhe escorria da pele avermelhada. A maneira como me viu passar – meus passos sob o olhar vigilante de tuas esmeraldas. O sorriso que não pude deixar de impedir, enquanto caminhava a lentos passos, enquanto passava a mão direita em meus cabelos, com receio nítido de que o vento me atrapalhasse a vista, enquanto o mesmo deixava-me em par de graça, balançando meu vestido azul da Índia.
“Somos os outros românticos e seria inexplicável este amor”, constatei. Voltei-me, entretanto, com as mãos geladas, incompreensíveis, devo dizer, para um dia quente de verão. Voltei-me, ofegante e parei em tua frente, para observar de perto e melhor a luz dos olhos teus. Toquei-lhe o rosto, afastando uma mecha do teu dourado cabelo, acariciando-lhe a face até que fechasse os olhos, para não demorar a abri-los novamente. O mesmo fez comigo – e mais ainda, quando puxou-me a cintura para mais perto de teus olhos e tua boca. Deve ter sido teu cheiro. Feliz foi o fato incontestável de quando pousei meus lábios vermelhos em tua carnuda boca rosada – e já não haviam passos milenares de uma luta transcendental que furtasse a beleza de nossos movimentos: teus braços fortes puxando-me para mais perto, minha esquerda mão ligeira tocando teu peito nu, tua boca passeando todo o meu rosto e eu também a lhe provar o sabor. Tens o gosto do sal do mar – o que despertou ainda mais meus sentidos, mas que também me fez recordar de onde estávamos, fazendo com que esses mesmos sentidos me dessem um sexto de nome equilíbrio, em forma de pretexto, para que eu me recompusesse. Você perguntou, em sotaque e tom de voz estrangeiro, se eu acreditava em amor à primeira vista e, tal como em um conto de García Márquez, respondi-lhe que sim, “pois os impossíveis são os outros”. Você sorriu – e este era ainda um de seus encantos que, até então, eu desconhecia. Você, anjo de Berlim, disse-me o nome (teria sido Jasper?), esperando que eu lhe retribuísse a apresentação com a resposta de minha graça. Poderia ser você Pequeno Príncipe a pedir que eu lhe desenhasse um carneiro, ou mesmo, sendo o ocaso verde, no mesmo tom de nossos olhos, perguntar-me-ia quais são as cores que são minhas cores de predileção. Imaginei que passaríamos juntos a noite, você a me chamar de Branquinha, afirmando que a lua era tão nossa quanto sua ou minha. Entretanto, como fiquei em silêncio, você insistiu. “Precisa de um nome?”, perguntei. Sem esperar resposta alguma, beijei-lhe o lado esquerdo da face, sorri, dirigi-lhe um último olhar e dei meia volta. Por deixar nas mãos do destino o que me parece absolutamente possível, também permiti seu olhar perplexo em veraneio, mesmo que eu não fizesse o mesmo olhando para trás.

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8 respostas em “O Estrangeiro

  1. Ô anjo, este texto é uma pintura poética. Ele tem um enlevo gracioso, que se deixa levar por um roteiro poético e impregnado com romantismo. Cada palavras vai formando uma melodia, e aos poucos vai ascendendo de forma magistral, causando alvoroço aqui dentro de nós. Porque te uma singeleza sem tamanho, uma infinita maneira de cativar. Não apenas pelo amor presente, nem pela sensibilidade em si, mas a penetrante presença de almas completas, que se entregam na suavidade dos momentos e o tornam aquilo alicerces dos pés.

    É um vento orquestrando os passos de uma luta milenar, a luta do coração.

    Que lindo! É um texto imensamente bonito, afetuoso, repleto com amor puro, inteiro e concreto. É um estar apenas por estar. Não é ensaísta. É realidade pura.


    Daniele, sempre que venho aqui me sinto tão bem. Você ainda me causa esses êxtases. Tuas letras me coordenam de uma forma meio louca, mas muito amparada na doçura. Obrigado por sempre me proporcionar momentos assim, de completo contentamento.

    Viu anjo, eu fiquei afastado do blog esse último mês, mas hoje estou voltando a escrever. Quando puder passe lá para tomar um café. A casa está renovada e mais confortável. Especialmente para que você possa se sentir mais acolhida, mais querida.

    Amiga querida, um grande beijo no coração. Te amo muito!

  2. Ai!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! :-)))))
    E o final merece uma moldura.
    beijo.

  3. caralho! de foder, como se diz aqui na Bahia. Mas é só uma expressão de intensidade, sem nenhuma insinuação sexual verdadeiramente.

    Como são fantásticas as pessoas poéticas! Desse modo infinitamente belo é que vê algo cotidiano que lhe faz brilhar os olhos. Não entendo porque a garota não ficou com o gringo… Talvez porque temesse que, aí, seu encanto por ele se acabasse, pois era feito de mistério? Teremos O Estrangeiro II, O Retorno do Gringo? Bom seria.

    Abraço, Ceres

  4. Gostei muito do seu conto, ficou poético e muito bem descrito. Até parece que enquanto eu li eu via o seu estrangeiro, desenhado na minha frente. Exatas descrições!

  5. Sempre acabo sendo repetitiva vindo aqui. Culpa sua que escreve coisas absurdas de tão lindas. E é só isso que consigo dizer: que lindo! Um beijo!

  6. Essas pitadas de amor me deixam agoniadas! Sei lá, é tão real que é incompleto e deixa a gente com vontade de ler mais, com a esperança de ver o final. Seja ele feliz ou não!
    Kiss e boa semana.

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