Workaholic revisited revisited

Angelina Jolie no filme A Troca, ilustra bem o post de hoje.

...

Antes de começar a trabalhar, estou mais workaholic do que nunca. Negativo. Workaholic não é o termo exato. Digamos que, no momento, eu esteja sendo consumista.
Com lágrimas nos olhos, festa e presentes, despedi-me de meu estágio, onde vivenciei de tudo um pouco, preparada definitivamente “para qualquer parada”. Inicialmente, porém, esse termo fora aplicado às situações mais frívolas possíveis. Com o ócio instalado definitivamente dentro de casa, decidi assistir todos os meus filmes prediletos em uma semana. Descobri também que, daqui há algum tempo, provavelmente estarei analfabeta. Não que eu tenha desistido de ler (Anna Karenina não me deixa mentir), mas já não escrevo mais a mão (uma bênção, aliás, para os meus olhos, pois minha letra é vergonhosamente terrível). Meus textos agora vem direto para o computador. Comprei diversas canetas coloridas que eu duvido muito precisar usá-las e restaurei meus ursos de pelúcia empoeirados do armário antigo.
“Qualquer parada”, em sentido literal, significava “qualquer parada” mesmo. Obviamente, eu jamais me desviaria para o mundo do crime ou tentaria alguma aproximação com Mark Zuckerberg para ganhar alguns bilhões de dólares (até porque, com a lista de “supostos atuais inimigos declarados” que ele tem, eu não teria chance alguma), mas eu tenho Q.I. A minha principal fonte de indicação era um médico do meu estágio que me mandou para outra clínica ortopédica em que ele é um dos donos, a fim de que eu tentasse alguma coisa por lá.
Não consegui.
Tudo bem, não era o fim do mundo. A amiga de uma amiga conseguiu para mim a senha de um teste de telemarketing que iria acontecer no início de janeiro. E, como Q.I. é artifício que não se despreza, lá estava eu, fazendo o tal do teste.
Um teste simples: ficha cadastral seguida de avaliação contendo dez questões para cada matéria e uma redação. Belezinha. Fiz, fui a primeira a terminar. Depois eu tinha que falar um texto, para que testassem a minha oralidade. Ótimo. Pela tamanha concorrência, saí sem convicção alguma de que iria para a segunda etapa. Foi aí que eu deixei de imaginar a área de telefonia como uma atividade estressante, apesar de ser, de fato. Tentei enxergar o lado bom: seis horas por dia, uma folga na semana, transporte e alimentação inclusos, além de um salário mínimo que sustenta a vidinha solteira de quem ainda mora com os pais. Legal. Fora o curso pré-vestibular que pretendo fazer e sem pagar porque, afinal, serei indicada para isso. Para todos os efeitos, entretanto, eu tinha de conseguir aquele trabalho.
Mas essa conclusão só se deu de fato quase uma hora depois. O local da primeira etapa fica perto de um shopping center. Aqui na Bahia, como se sabe, há shoppings na mesma proporção em que há uma igreja a cada esquina do Pelourinho, um terreiro de candomblé em cada encruzilhada ou, ainda, um santo para cada dia ser feriado. Nos dois últimos anos, estreava um shopping center a cada semestre por aqui. E se esse shopping vem com uma mega livraria, como a Cultura que chegou agorinha, ótimo então.
Lá fui eu ao shopping, com as vitrines me vendo passar (na galeria, cada clarão…) e eu vendo passar preços, painéis vermelhos de desconto e as novas cores da estação. Sem perceber, estava a fazer minha lista de compras. Lista de compras sem nem ter conseguido trabalho ainda, Deus meu. Eu estava no inferno confundindo o mesmo com o céu. E o céu, no momento, não habitava minha carteira nem preenchia meu tempo.
Apaixonei-me, inicialmente, por um par de sapatos Oxford. Modelo de nome perfeito agora que saí do colegial e “vou para a faculdade” (entenderam o trocadilho?). Achei ótimo. O salto, enorme (assim como o preço), mas agradeci aos céus aquelas aulas de passarela e o treinamento no cotidiano (porque só assim, viu!). Pensei que seria a primeira coisa que compraria com o meu salário. Além de algumas calças jeans da Colcci. E só pode ser na Colcci. Por causa da minha cintura fina e das minhas pernas longas. Acredito que só a Colcci se inspirou na Gisele Bündchen para criar suas roupas (não à toa, é ela a estrela principal de todas as campanhas da marca). Minha sorte é que, apesar de ambicionar demais e gastar muito dinheiro, roupas comigo duram bastante tempo. Consigo passar três anos com dois ou três jeans. Sério. Sei que não cresço mais e o dinheiro é pouco e suado para um pedaço de pano que custa mais de trezentos reais. Comigo, entretanto, vale à pena, pois aproveito um modelo simples que não me comprometa futuramente com a moda. Olhei o relógio e vi que deveria voltar para casa antes das seis da tarde, caso contrário, o trânsito estaria mais lento do que os passos dos meus idosos queridos que faziam fisioterapia em meu último estágio. Fui.
Quinze dias depois, recebi um telefonema de felicitações: havia passado no primeiro teste. A segunda etapa aconteceria dali a três dias, no mesmo local. Lá fui eu. Dessa vez, foi determinado que todos se apresentassem com nome, idade, estado civil e escolaridade. Em seguida, três perguntas eram feitas. Para as duas primeiras pessoas, as perguntas foram idênticas. Como fui a terceira, entretanto, as questões foram completamente diversas. Como por exemplo: “se você recebesse a visita de uma fada e esta lhe dissesse que poderia transformar-lhe em um artista ou celebridade, quem você escolheria?”. Não pensei duas vezes: José Saramago. “Por quê?”, perguntaram novamente. E esse foi o meu triunfo: “Porque o trabalho dele se baseia na ética, que é uma virtude de poucos e um tema a ser aprimorado constantemente”. Ótimo.
Em seguida, ocorreu uma dinâmica em grupo. Que itens levaríamos em uma mala de trinta centímetros caso a Terra morresse e tivéssemos que morar em outro planeta? O tipo de situação-limite quase impossível neste século mas, vá lá. Após essa etapa, receberíamos o resultado no mesmo dia, cinco minutos depois.
A mocinha que estava avaliando foi com a cara desta persona que vos escreve. Durante todo o período de avaliação ela lembrou do meu nome, esquecendo muitas vezes as identificações dos restantes. Deve ter sido o suficiente. Fui aprovada. Recebi uma lista com a documentação necessária para trabalhar e todos teriam que aguardar mais um telefonema, com dias e horários de treinamento. Dezessete dias de treinamento para trabalhar com a operadora Claro (da qual sou cliente há quatro anos, dá licença!). Não poderei faltar um dia sequer, caso contrário, serei automaticamente eliminada do processo (medo). Certíssimo.
Eram onze da manhã. Na minha carteira as poucas notas indicavam que sim, eu poderia “almoçar” um Mc Donald’s, aproveitando o fato de que faltava uma hora para que consumidores e trabalhadores lotassem a praça de alimentação. Lá fui eu.
Enquanto devorava o meu sundae de caramelo (de-lí-cia!), escrevia mentalmente uma lista deveras necessária. Eu tinha que reformar o meu quarto. Ano passado, consegui que um pintor de paredes cobrasse baratinho para tirar o papel de parede antigo, aplicar uma boa massa e pintar tudo de branco e verde-musgo. É. Branco e verde-musgo. Não, não é mal gosto. Acontece que tive um quarto de delfina Maria Antonieta a vida toda. Quero agora um pouco do colorido insano de Amélie Poulain. Meu quarto se tornaria de uma temática cinematográfica de dar inveja. Pensei nas fotos do Charles Chaplin, Audrey Hepburn, entre outros que eu vira na Saraiva. Vou comprar, emoldurar e colocar na parede. Preciso de um guarda-roupa. Grande. Uma mesa para computador com muitas gavetas (será difícil, mas precisarei livrar-me da escrivaninha), um criado-mudo e um sofá retrô também verde-musgo com almofadas vermelhas (não opine, o quarto é meu). Futuramente, trocarei minha cama por uma de casal onde meus pés não fiquem para fora (ser alta demais é um porre). Mas uma estante para abrigar meus vastos livros é mais do que uma necessidade primordial. A estante que eu quero só vende em lojas muito caras ou em antiquários mais caros ainda, a depender do modelo. Mas valerá à pena, creio. Depois, claro, imagino diamantes, viagens constantes à Paris, assinatura da revista Vogue, bolsas Louis Vuitton. Mas deixemos isso para após a faculdade, o meu salário de operadora de telemarketing não dará conta disso tudo (só vai aumentar minhas contas, entendeu o trocadilho?).
Terminado o “almoço”, dei uma volta na livraria e deparei-me com o velho e bom Saramago, a repreender-me por ter esquecido todos os valores comunistas anti-religiosos que ele me ensinara. “Foi mal, tio”, disse eu. Peguei o Saramago, o cartão de crédito, dirigi-me ao caixa e pensei que, apesar de tudo, o capitalismo, quando para enriquecer mais um pouco nossa cultura, tem lá suas vantagens.

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9 respostas em “Workaholic revisited revisited

  1. Lamento, André curi. Se você aqui chegar e se deparar com esse horror, lamento não ser em português-lusitano.

  2. Ei Nina!
    Que bom que você conseguiu o emprego. E sua resposta sobre José Saramago lá foi perfeita!
    =]
    Boa sorte, e quero ver fotos do seu quarto reformado, hahaha.

  3. Sabe, o bom de gastar muito dinheiro com futilidade é que a gente sempre descobre que o consumismo não preenche, só esvazia (a conta bancária).
    E sabe o que mais? Depois da sua resposta na entrevista do estágio, o Saramago te perdoa. ;)

  4. Nina!!!

    Quanto tempo ser vir fazer uma visita pra vc!

    Nossa, de entrevistas eu me lembro bem. Sua história se parece muito com a minha, na época em que estava fazendo a bateria de entrevistas no Estadão. Nossa, foi uma saga…

    Muito bom o seu blog, como sempre.

    Um grande beijo, moça

  5. Sabe que eu também andei assim ultimamente? Querendo trabalhar só pra consumir. É muito ruim depender de alguém, principalmente de pai.
    Bj

  6. Engraçado demais!

    Foi como ler Liliane Prata (E ela é muito boa!)
    Quando comecei a trabalhar (E comecei como estagiário…) ficava pensando em tudo que compraria no meu primeiro salário. Semanas depois, com o salário de estagiário, percebi que não conseguiria comprar metade das coisas que queria. Fui efetivado e fiquei feliz, achando que ia comprar tudo que precisava. Não adiantou. E mesmo com duas mudanças positivas no salário, hoje meu sonho é uma promoção e ganhar no mínimo o dobro.
    O problema é que a lista do que comprar nunca termina e cresce a cada dia…

    Sua resposta sobre qual artista ou celebridade seria foi ótima. José Saramago é ótimo, confesso que quando li “Ensaio sobre a cegueira” me revoltava com aquela maneira difícil de ler. Mas é algo que me orgulho de ter feito!

    Beijo!

  7. Que texto lindo!!!
    Coisas do cotidiano quando contadas por uma pessoa que sabe usar bem as palavras… como é delicioso ler!!!!
    Fico contente por vc ter conseguido o emprego.
    Tomara que vc consiga arrumar seu quarto e emoldurar as fotos!!
    Isso mesmo, o quarto é seu, então faça do seu jeito.
    Bjs

  8. Texto interessante neste espaço, tópicos assim demonstram valor a quem quer que analisar nesta página !!!
    Dá mais do teu blog, aos teus seguidores.

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