Conto para O’Doherty* – Primeira Parte

(É a continuação de Conto para Jane Austen).

Não eram furtivos os encontros daqueles dois. Entretanto, não importava o que acontecesse, uma vez por semana deveriam se ver. Esse dia era quinta-feira. A quinta-feira, para ela, já fora um dia difícil – de folga – e que, por isso mesmo, a fazia obter tarefas múltiplas e incansáveis. Tudo era deixado, como desculpa, para quinta-feira. Não importava o que acontecesse.
Desde que ele chegara ao hospital, entretanto, a rotina aparentemente tranqüila daquele dia da semana mudara. Um novo médico atendendo no ambulatório significava uma manhã cheia de pacientes, um consultório a mais para organizar e muitas fichas para serem levadas. O mais engraçado de tudo, entretanto, era que ela não havia sido informada da presença dele até aquela manhã, de modo que teve de fazer tudo às pressas – arrumou-lhe o único consultório vazio – além daquele que estava em reforma (e que, por ventura, veio a ser dele, logo em seguida, definitivamente). Sentiu-se cansada com tudo aquilo, mas afinal se conformou. Às oito horas ele chegaria. Seria, primeiramente, apresentado ao supervisor. E este, por sua vez, o apresentaria a ela, ordenando que a mesma orientasse o médico no que ele precisasse. Entretanto, por conta de um atraso da parte dele, quando chegou, o supervisor estava ocupado. Apresentou-se brevemente e mandou que ela, a estagiária, encaminhasse o médico até o consultório e respondesse a quaisquer perguntas que este fizesse. Obediente, seguiu-o. Vendo-o de costas, era um homem alto, de cabelos lisos, confrontando-se entre fios negros e honestas mechas grisalhas. De costas, não poderia deduzir a idade do cavalheiro. Quando entraram no consultório, porém, ele se sentou e só então pareceu notar a figura de pé que lhe seguia silenciosamente. Ele pousou seus olhos de um azul principesco no rosto que, imediatamente, corou. Tinha os olhos em um tom azul da Prússia – e parecia um médico austríaco de um livro que lera sobre a tentativa de recuperar uma menina cega através do magnetismo animal*. Era belo em sua jovialidade. Dar-lhe-ia vinte e poucos anos. Além dos olhos, o que a impressionara foram as mãos de finos dedos, mãos de pianista. Como ainda conservava a sensatez, limitou-se a apresentar-se e a dar-lhe orientações iniciais, de fácil e prático entendimento, já que seus pacientes o aguardavam.
A amizade ali nascera – ela sempre disposta a auxiliá-lo, ele sempre a querer sua ajuda. Trabalhava ali havia três ou quatro meses e nenhum médico, por razão de superioridade, lhe devotava o menor afeto. Eram gentis, apenas para demonstrarem a educação que haviam recebido. Mas nunca foram acostumados a olhar nos olhos das outras pessoas, a fim de dedicar-lhes atenção. Não os culpava. No lugar deles, talvez fizesse o mesmo, entretanto, o motivo seria sua crônica timidez – doença da qual só se esquece próxima daqueles que se interessam por sua personalidade. E o novo médico estava predestinado a ser uma dessas pessoas. (Continua…)

 

*É lamentável que eu não consiga descrever tão bem o livro O Estranho Caso de Mademoiselle P., de Brian O’Doherty, que procuro recomendar com esta nota, afirmando que este vem a ser um romance que está entre os meus prediletos e que, sem dúvida, deve pertencer à biblioteca de qualquer indivíduo que tenha um bom gosto pelo realismo da História vienense, pouco antes da Revolução Francesa, e pelo imaginário de um escritor.

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5 respostas em “Conto para O’Doherty* – Primeira Parte

  1. Gostei muito do teu texto!
    É tão gostosa as amizades que nascem dessa cumplicidade velada, despreocupada.

    Beijinhos :*

  2. Livros… amo livros!!!
    Quem pode viver sem eles??
    Texto lindo. Como pode gestos tão pequenos marcarem tanto? Um olhar, um sorriso…são inesquecíveis.

  3. Vamos ver se adivinho, um romance vai sair dessa amizade proficional! \õ

    Adorei a história, já tinha lido a primeira parte! =D

    Beeijos!

  4. Vá escrever bem assim lá na…
    Sempre me culpo por não ter tempo de acompanhar teu blog tão bem quanto deveria.
    É sensacional! Há uma artista morando dentro de vc!

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